segunda-feira, 23 de julho de 2012

Capítulo 9: Novo passeio noturno

Suas mãos enluvadas tateavam a terra, abrindo nesta uma pequena fenda onde se depositava uma semente de girassol, cobrindo-a novamente. O sol da manhã estava quente, fazendo com que a transpiração deslizasse pelo rosto da menina. Já estava no último canteiro, tal que decidira reservar para as margaridas, suas favoritas, deixando-as no local mais próximo da janela que dava para o seu próprio quarto.

May estava ansiosa, queria que as flores germinassem logo para poder ver como realmente ficaria o seu jardim, esperando que ficasse muito bonito, pois Dnieper havia dito que viria visitá-la. Perguntava-se se ele gostaria da surpresa, quando as flores germinassem, afinal, da última vez que Dnieper viera, aquele jardim ainda era feio e sem vida. Não que as diferenças atuais fossem tão significativas, May tinha apenas arrancado a grama seca e trocado a terra, mas mesmo que ainda estivesse descampado, a menina já podia imaginar seu jardim cheio de flores, pois o tinha visto em um sonho inesquecível e anseava que ficasse igual.

Contudo, onde estaria Dnieper? Era o que a jovem se perguntava de cabeça baixa, enquanto se entretia com o plantio de mais algumas sementes. Ukraynn havia dito que pediria um favor à May, mas já fazia uma semana que ele não aparecia. Talvez fosse um homem ocupado. Será que ele possuía uma família para sustentar? Dnieper não parecia ser tão velho assim, mas também não tão novo. Uns vinte e oito anos, no máximo. No fim, May se dava conta que realmente quase nada sabia sobre ele.

Bom dia, May.

Já estava até começando a ouvir a voz dele! Mas ao refletir por um momento, realmente tinha ouvido a voz de Dnieper. O mesmo se encontrava em frente a casa de May, do outro lado do portão, fitando-a por detrás de seus óculos redondos, com um sorriso.

D-Dnieper!? - May se levantou em um salto, sentindo o coração disparar pela surpresa, afinal, estava pensando nele naquele exato momento. Coincidência? O rosto da menina vinha por ficar inteiramente rubro ao perceber a maneira na qual se encontrava: um lenço lhe cobria parte da cabeça, amarrando seus cabelos louros em um desajeitado rabo-de-cavalo. Usava grossas luvas nas mãos, uma camiseta larga de sua tia e uma bermuda que lhe escondia apenas parte das coxas. Ao se levantar, May batia de leve em seus joelhos sujos de terra, totalmente sem graça, desviando o olhar de Dnieper mesmo que tentasse parecer natural. - Q-Quanto tempo... como você está?

Vou muito bem, obrigado por perguntar. - Ukraynn sorria de maneira ainda mais expressiva, Estava vestido da maneira de sempre, todo de preto, embora o calor. - E você? Como tem passado?

Bem! - A menina falava agora de um modo até um pouco exagerado, ainda querendo dissimular toda a timidez que sentia diante dele. Pensou em convidá-lo para entrar, mas provavelmente sua tia não aprovaria, por se tratar de um homem não conhecido por ela, e aparentemente bem mais velho que May.

Pode ir se arrumar, eu espero. - Como se tivesse adivinhado os pensamentos da garota, Dnieper riu com doçura, logo voltando a sorrir de seu modo gentil costumeiro. May corava ainda mais. Tinha mesmo deixado tão evidente o quanto desejava tomar um banho e se arrumar para se apresentar melhor para ele?

E-Eu não demoro! - Disse May decidida, entrando em sua residência em questão de segundos, ainda muito envergonhada. Mas não poderia ficar enrolando, afinal, não queria deixar Dnieper lá fora esperando por muito tempo. Primeiramente, foi para o quarto pegar uma blusa branca de botão, com finas linhas de um cinza claro na vertical, tinha algumas rendas nas mangas e um pequeno laço na parte de trás, um pouco abaixo do centro das costas. Para combinar, May escolhia uma saia preta sem detalhes, que ia até os seus joelhos. Tomou o banho em minutos, lavando os cabelos de modo apressado. Quando saiu debaixo do chuveiro, já pegou a toalha para tirar o excesso de umidade do próprio corpo.

Em seguida, chegando eu seu quarto, perfumou-se e colocou a roupa, penteando os cabelos depois. Por fim, fazia uma maquiagem bem sutil, passando apenas um blush avermelhado sobre as bochechas e um batom rosado nos lábios. Saindo de seu quarto, May já corria de volta para o jardim, ao encontro de Dnieper.

Me desculpe, eu demorei, não foi? - A pergunta dela vinha em um tom receoso, achando que Dnieper já estivesse aborrecido por ter esperado tanto. A jovem pegou a chave, abrindo o portão, logo se colocando para fora também, ao lado do homem. - Deve ter sido tedioso...

De modo algum. - As palavras de Ukraynn soavam sinceras, mantendo aquele típico sorriso por entre os lábios. - Além disso, não foi tedioso. Pude ficar aqui admirando o seu jardim.

As bochechas da garota ficavam ainda mais avermelhadas. Ele havia realmente gostado de seu jardim? Mas ainda não havia germinado uma única flor sequer... - O-obrigada. - Era tudo que May conseguia dizer, abaixando o olhar para o chão enquanto sorria feliz. Um breve silêncio então se fez entre eles, tempo o suficiente para May se recompor, tornando a erguer o rosto para começar um novo assunto. - Dnie, o que você...

Será que eu poderia lhe pedir aquele favor?

May pretendia perguntar o que Dnieper havia feito naquela última semana, mas sendo interrompida pelo mais velho, que agora mantinha uma expressão de inocencia, May não pode prosseguir com o próprio questionamento sem antes responder o dele que, aliás, parecia bem mais importante. - Claro, eu...

May, venha me ajudar a preparar o almoço. - Era sua tia quem agora interrompia, aparecendo através da janela da casa, enxugando um prato.

Não posso ir depois, tia? Estou conversando com um amigo. - Pedia a jovem por entre um marcante choramingo.

Amigo? - A tia deu um sarcástico riso, saindo da janela. - Venha logo.

Aquilo de fato era uma ordem, para a infelicidade de May. A menina olhou para Dnieper com tristeza, pois o tinha feito esperar tanto para depois ter que dispensá-lo.

Se puder sair comigo esta noite, há um lugar que eu gostaria muito de levá-la. - O moreno realmente não parecia aborrecido com a situação, o que trouxe um grande alívio para May. Ela então voltou a sorrir, confirmando ao pedido dele por meio de um aceno positivo com a cabeça, sem muito refletir a respeito.

Sim, eu vou.

Ótimo, passarei aqui por volta das 22:00hs, para buscá-la. - Informou Ukraynn de um modo aparentemente animado, afastando-se de May em alguns passos para trás, agora em despedida. - Então, até mais tarde.

Até. - May dava um aceno para ele, abrindo novamente o portão de sua casa para entrar. Estava feliz, já que finalmente poderia retribuir um favor a Dnieper. Mas o que será que ele viria a lhe pedir? May se sentia muito curiosa para descobrir. Após ver Dnieper dobrar a esquina, a garota trancou o portão, entrando novamente em sua residência, indo ajudar a tia com o almoço, conforme ela havia pedido.

Ao entrar na cozinha, a menina se dirigiu à tutora com um olhar receoso, imaginando que levaria uma bronca por estar conversando com um homem ainda desconhecido pela família, mesmo que para May, Dnieper não fosse mais um estranho. - Tia, ele é só um amigo... - Tentava iniciar uma justificativa, bastante acanhada.

De quem você está falando? - A tia arqueava uma das sobrancelhas para cima, como se não compreendesse as palavras da sobrinha.

Do homem com quem eu estava conversando lá fora, quando a senhora me chamou... - Explicou May, estranhando bastante a reação da tia.

Que homem May? Não havia ninguém com você lá fora.

Após aquelas palavras, nada mais foi dito entre as duas durante todo o preparo do almoço. Como sua tia não havia visto Dnieper? Aquilo realmente não fazia o menor sentido, embora não fosse a primeira vez que algo semelhante acontecia. No velório de sua avó, a tia de May não ouvira a canção de Dnieper, assim como as enfermeiras do hospital também pareceram ignorá-lo, além de chamá-lo de “assombração”.

Não deixou de pensar naquilo, mesmo após cortar todos os legumes, a pedido de sua tutora. Nenhuma hipótese que lhe vinha em mente parecia fazer grande sentido. Enfim, com o almoço pronto, May e sua tia iniciaram a refeição, passando a conversar sobre assuntos variados, mesmo que por vezes os pensamentos da menina vagassem em direção ao encontro que teria à noite.

Aliás, à noite? Um encontro com um homem às 22:00hs? Sua tia jamais deixaria. Ficou pálida ao lembrar deste detalhe, engasgando-se com o suco. Terminara o seu almoço o mais rápido possível, pedindo licença ao se retirar da mesa, correndo para o próprio quarto, ainda atônita.

O que eu vou fazer? - Sentava-se na cama, ao se fechar no cômodo. Estava com um grande problema: como iria sair sem a permissão de sua tia? E pior, como fora marcar um encontro com Dnieper, sem antes receber tal permissão? Não iria conseguir encará-lo mais, já imaginando sua estupidez, indo contar para Dnieper que não poderia mais sair e a expressão decepcionado, ou talvez aborrecida, que ele faria. May havia lhe dito que retribuiria ao favor, mas depois das 22:00hs, não dava.

Sentiu seus olhos se encherem de lágrimas, com certeza após uma mancada como esta, Dnieper passaria a rejeitá-la. Mas... e se May fugisse de casa, do mesmo modo que fizera naquela outra vez, que achou que ainda estivesse sonhando? O rosto da garota ficou inteiramente vermelho, imaginando-se pular a janela do quarto, e depois o portão. Aquilo não era coisa de delinquente? E o que será que tia faria caso descobrisse?

A tarde avançou até a noite chegar. Às 21:00hs a tutora de May já havia ido dormir e cerca de meia hora depois, a adolescente já estava vestida para sair, encontrando-se emocionalmente muito nervosa. Veio por se arrumar com a luz de seu quarto apagada e em total silêncio, para não despertar qualquer desconfiança em sua tia, ou sequer acordá-la. Sobre sua cama, May colocava várias almofadas embaixo das cobertas, para imitar seu próprio corpo em repouso.

Com o relógio já próximo de marcar 22:00hs, a adrenalina de May lhe contaminou o sangue, fazendo-a tremer um pouco enquanto suas mãos abriam a janela: estava na hora de pulá-la. Sentindo um imenso frio na barriga, a menina fitou a rua. Para o alívio de May, Dnieper ainda não estava ali, já que seria constrangedor que ele a visse fugindo de casa como uma menina rebelde, além de que ela jamais conseguiria se explicar.

Hesitando durante mais alguns minutos, por fim tomou coragem, pulando a janela para o seu jardim. Vestia uma calça preta, um pouco apertada e sem detalhes, calçando uma bota de mesma coloração e um salto pouco considerável. Usava uma jaqueta de um rosa claro e, por baixo desta, uma blusa branca com estampa de um fofo gatinho, queria contradizer seu ato delinquente ao menos com um visual mais meigo. Seus cabelos eram divididos por duas fitas vermelhas, cada uma sobre cada lado de sua cabeça e para a maquiagem, escolheu uma sombra rosada, em contraste com o blush rubro e o batom amarronzado.

Pulava agora o portão, usando o muro do vizinho para se esconder, caso sua tia olhasse a rua pela janela. Logo Dnieper também chegava, mesmo que o horário do encontro ainda não tivesse sido alcançado. Ambos se cumprimentaram com um “Boa noite”, enquanto May tentava disfarçar todo o seu nervosismo.

Podemos ir? - Perguntou Ukraynn, agora se colocando ao lado da mais jovem, esta que acenava com a cabeça de maneira positiva e assim começaram a caminhar.

A menina o seguia em alguns passos atrás, sem nada conseguir dizer, envergonhada na presença do mais velho, embora tivesse passado o dia todo cogitando assuntos que pudessem conversar. Em um determinado momento, May erguia os olhos para o rapaz, vendo-o de costas, e mesmo que não pudesse ver o rosto dele, tinha certeza de que Dnieper estava sorrindo.

Embora a timidez, por que May se sentia tão bem quando estava perto dele? Mesmo que nada soubesse sobre Dnieper, além de seu nome, que era um viajante e... May desviou com o olhar para um dos pulsos do mais alto, coberto com a manga de sua veste. O que seria aquela cicatriz? Parecia um corte profundo... Teria Dnieper feito aquilo em si mesmo? Tornando a abaixar o rosto, sentiu um sentimento de tristeza lhe invadir o peito, afinal, temia em confirmar aquela suspeita, mas a garota jamais teria coragem de lhe perguntar sobre aquilo.

Chegamos. - May esbarrou em Dnieper, já que ele havia repentinamente parado de caminhar. As bochechas da menina esquentaram, mesmo que ela logo desviasse o olhar para o local onde agora se encontravam.

A menina ficou perplexa, sem conseguir se pronunciar. Em um primeiro momento, seu coração pulsou mais forte, e entre constantes gaguejos, tentou perguntar: - Dnie... o que fazemos aqui...? - Ela olhava para o homem, sem entender. Estavam diante da residência da avó de May.

Capítulo 8: Troca de feridas

No decorrer de alguns minutos, o fluxo de lágrimas foi parando sozinho, até que o lenço tocasse o rosto do psicólogo pela última vez. Com o estacionamento vazio, Lawrence deixou o carro por fim, trancando-o, e sem demora se colocou ao interior do elevador, rumo ao 16° andar. Chegando em seu apartamento, foi tomar um banho quente, visando esquentar o corpo que a pouco tinha sofrido a ação de toda aquela chuva.

Já no chuveiro, Lawrence se sentia completamente relaxado, deixando com que as intensas gotas d’água lhe atingissem as costas e o vapor viesse por subir. Depois do banho, colocou roupas mais leves para dormir, embora não o pretendesse fazer naquele momento. Ao sair do banheiro, foi quase que instantaneamente para a sala e se sentou junto da escrivaninha, colocando seus óculos de grau, pretendendo começar a escrever. Com a caneta em mãos, fitou por um instante aquela última frase, “Mas ela possuía um grande pecado, aquele que lhe impedia de sorrir”, e por fim se sentiu capaz de prosseguir com a escrita de seu livro. Começava a escrever de maneira bastante rápida, como se uma voz ao interior de sua mente lhe ditasse todas as palavras.

“Estava a caminho da escola, seu primeiro dia no ensino médio. Desceu pelo viaduto até uma das ruas centrais da cidade, e uma das mais movimentadas também. Havia pouco tempo antes de sua primeira aula ter início e nenhum carro parou para lhe dar passagem. Assim se decorreram inúmeros minutos até que Naru conseguisse passar para a outra calçada, e mesmo assim tivera que ir correndo.

Não sabia exatamente onde se localizava seu colégio. As placas a cada esquina informavam o nome das ruas, mas as pessoas que pela menina passavam, não pareciam tão dispostas a lhe dar qualquer informação. Aconteceu que, ao finalmente conseguir achar a escola, a jovenzinha se deparou com um novo desafio: encontrar sua sala de aula.

Entre voltas e voltas pelos corredores, sobe e desce de escadas, mais alguns minutos se decorreram até a adolescente encontrar sua nova turma, na sala 1B, terceiro andar, mas antes de entrar na sala, deu uma rápida espiada através da fresta que a porta conservava. Sentados em carteiras ordenadas, diversos alunos se encontravam, alguns com a atenção bastante dispersa, enquanto outros ficavam a cochichar, tudo isso enquanto o professor se pronunciava. Os jovens, de um modo geral, pareciam ter um padrão: boa aparecia, roupas bem passadas e uma expressão semelhante à arrogância.

Acho que terei problemas com esses filhinhos de papai. - Comentou Naru consigo mesma, dando um suspiro ao reunir forças para terminar de abrir aquela porta. Era a aluna nova, transferida no meio do ano letivo para aquela escola particular. Assim que o professor se deparou com ela, cessou com a aula no mesmo instante, dirigindo-lhe a palavra com o cenho levemente franzido, reflexo da arrogância dos alunos.

Aluno atrasado não pode entrar durante a aula. - O professor mpedia com que a pequena garota adentrasse ao recinto, fechando a porta sem antes ouvir qualquer justificativa, deixando apenas soar as risadas e deboches dos outros alunos. Naru deu uma bufada sutil, em reprovação. A sensação que sentira era de total perda de tempo, sendo obrigada a descer novamente os três lances de escadas, até a saída do colégio. Passou por um extenso pátio, este que se limitava por altas grades, capazes de impedir a fuga dos mais delinqüentes. A garota se viu completamente sozinha ali, já que todos os outros alunos estavam em aula.

Assim que atravessou o pátio, saiu através de um portão que dava para a rua. Ao lado do edifício do colégio, localizava-se uma bonita praça, de área não muito grande. Pequenos arbustos se espalhavam, em meio a flores brancas e amarelas, dando privacidade para aqueles que queriam estudar ao ar livre, ou simplesmente, namorar. Contudo, conforme os passos de Naru alcançaram a grana da modesta praça, em exploração, a garota descobriu que aquele lugar poderia ter outra função, diferente das usadas pela maioria: a praça também poderia servir como um refúgio, para aqueles que queriam simplesmente se esconder do mundo. Sentado em um dos bancos, um garoto fitava o chão, com ambas as mãos levadas ao rosto. Ele chorava em silêncio, alheio a qualquer presença que naquele instante passou a dividir.

A garota se aproximou sorrateira, sentindo um misto de surpresa e curiosidade em relação a aquele rapaz. Eis então que o som de passos sobre a grana denunciara ao menino que ele não se encontrava mais sozinho. Erguendo o rosto em um movimento meio assustado, o jovem se surpreendeu com aquela desconhecida, tratando rapidamente de secar as lágrimas que ainda deslizavam pelo seu rosto.

Pode continuar, se quiser. - Disse a menina, meio ríspida, ao se sentar em um banco ao lado do dele. Mas aquela era apenas a sua maneira de dizer que não queria incomodá-lo.

Agora não tendo mais o rosto coberto pelas mãos, Naru pôde analisar as características do outro: seus olhos eram azuis e pele oleosa o suficiente para lhe castigar com diversas espinhas sobre a face, aparentava ter por volta de 17 anos e usava o um uniforme escolar, com o mesmo brasão bordado no peito de Naru. Eis que o garoto passou a olhá-la também, deixando um meigo sorriso se formar por entre seus lábios. - Como você se chama? - Perguntou com sutileza, achando aquele jeito inicial da jovem, intrigante. A maioria chegaria perguntando o motivo pelo qual o rapaz chorava.

Me chamo Naru... Naru H. Kysonz. - A menina desviou o olhar, tentando parecer indiferente enquanto balançava as pernas, mas ela se sentia bastante intrigada em relação ao garoto também, e ele pareceu capaz de perceber isso.

Prazer em conhecê-la, senhorita Naru. E eu me chamo (...)

Neste exato momento em sua narração, o louro teve que conter a caneta que insistia em continuar, arregalando os olhos os perceber o que quase havia acabado de escrever, para completar aquela sentença. "Lawrence Austell", era este o nome que quase havia dado para aquele novo personagem. O que aquilo poderia significar? Não precisou refletir muito sobre aquela questão, para se lembrar de suas próprias épocas escolares, depois de ser expulso de casa e seu segredo pessoal vir à tona, os colegas de classe jamais o perdoaram, fazendo de Lawrence uma constante vítima de chacotas e gozação. Muitas vezes, ele fugia das aulas, correndo para uma praça que ficava ao lado do colégio, deixando com que apenas os arbustos fossem testemunha de seu choro silencioso. Sem perceber de início, o escritor havia se auto-descrito, algo que nunca havia acontecido antes, em seus livros anteriores.

Pegou um novo papel, do intuito de usá-lo como rascunho. Em letras maiúsculas, escreveu o nome que seus pais lhe deram, para criar mais um anagrama.

L A W R E N C E A U S T E L L

Depois de várias tentativas, finalmente conseguiu juntar as letras para formar um novo nome, ficando satisfeito com o resultado. Voltando-se novamente para o seu livro, o psicólogo prosseguiu com o parágrafo. Lawrence Austell, aos 17 anos e no auge de suas armaguras, agora recebia uma nova nomeação: Walter Lucelanes.

Prazer em conhecê-la, senhorita Naru. Eu me chamo Walter Lucelanes. Você é uma aluna nova?

Sim, transferida. - Naru respondia apenas o básico, ainda sem muito olhar para Walter.

Espero que possamos ser amigos. - Disse o rapaz mantendo o sorriso. Walter não possuía amigos, ou melhor, nunca possuíra qualquer um em quem realmente pudesse confiar. Mas de um modo curioso, aquela garota tinha despertado a sua simpatia neste sentido.

Uma pecadora como eu não pode ter amigos. - A menina tornou a olhar para frente, ficando com um olhar bastante distante. Enquanto isso, o mais velho inclinou com a cabeça levemente para o lado, sem muito compreender exatamente o que Naru queria dizer com aquilo.

Ei, não há pecado que te impeça de ter amigos! - O garoto falou sério, ainda olhando para ela, com toda a sinceridade de seu coração. Ele próprio possuía seus próprios pecados, mas seria este o motivo por ser condenado a sempre se sentir tão solitário? Aquilo lhe soava injusto demais.

A garota perdeu a fala, voltando-se para Walter, surpresa, embora logo ela tentasse se fazer de indiferente novamente. - Você não sabe o que está dizendo.

Inconscientemente, Lawrence passava a sorrir conforme a caneta continuava a deslizar pelo papel. Estava gostando de relembrar seu conversa com Sozh, a inspiração para Naru, e agora por meio da imaginação do escritor, suas versões alternativas reproduziam aquele encontro.

Você nunca fala sobre os seus problemas com alguém? - O adolescente indagou, ainda mais curioso em relação à menina. Não conseguia nem ao menos cogitar o que poderia vir a ser o pecado citado por Naru.

Qual a necessidade disso? - A expressão dela se tornou aborrecida, embora logo tornasse a se pronunciar, devolvendo ao louro outro questionamento. - E você? Fala sobre os seus?

Aquela parecia mesmo Sozh, sempre capaz de derrubar os argumentos dos outros.

Não... - Walter encolheu os ombros, ficando um pouco mais sem jeito. Nunca conversava sobre seus problemas, guardando tudo para si mesmo, ao interior de seu coração.

Lawrence tornou a sorrir. As amarguras na qual enfrentara ao longo de sua adolescência, todas guardadas consigo e jamais divididas com alguém, foram justamente o motivo pelo qual o louro se tornara psicólogo: queria ser exatamente o alguém que ele próprio nunca tivera, alguém que estivesse ali para ouvir, mesmo que pouco pudesse fazer para ajudar ao outro. Como teria sido se aos 17 anos Lawrence tivesse encontrado alguém para dividir as tristezas. Eis que, sem pensar, acabou voltando a escrever em seu livro.

Naru, por que eu e você não dividimos os nossos problemas um com o outro?

Estranhamente, Lawrence sentia seus lábios se contraírem em um sorriso. Toda a mágoa que cultivou sozinho durante anos, deixando seu coração cativo, havia se dissipado em apenas uma tarde. Mesmo que jamais deixaria de sonhar com um bom relacionamento com seus pais, Lawrence não mais deixaria aquilo lhe corroer por dentro, nem mais o impedir de compreender e admirar a si mesmo. A ferida aberta finalmente tinha se tornado apenas uma cicatriz. A pessoa na qual Lawrence procurou durante desde jovem, para dividir suas amarguras, havia finalmente sido encontrada: Sozh, e em troca passou a ansiar por ouvir as amarguras dela também.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Capítulo 7: Pingos de chuva e lágrimas

Um feixe de luz transpassava pela janela do quarto, iluminando o ambiente pouco a pouco conforme o raiar do dia, até o sono do louro ser incomodado e assim vir a despertar. Abriu os olhos devagar enquanto se levantava, havia dormido tarde na noite anterior, então ainda sentia os efeitos da sonolência. Seus cabelos dourados se encontravam bastante bagunçados. Bocejou, esfregando os olhos a caminho do banheiro. Lavou o rosto e se fitou brevemente no espelho. Imaginava o que poderia fazer para o café da manhã.

Foi para a cozinha a passos lentos. Ao abrir a geladeira, deu-se conta que não tinha muitos suprimentos, anotando mentalmente que precisava ir ao mercado ainda naquele dia. Pão com geléia de amora lhe era suficiente, e assim sua refeição matinal fora preparada.

Sua cozinha, embora pequena, era aconchegante. A bancada se prolongava até um dos cantos, contendo sobre ela a cafeteira, o microondas e algumas louças que tinham sido lavadas no dia anterior. Próximos, estavam a pia e o fogão de quatro bocas, do outro lado havia a geladeira. O azulejo branco era decorado com alguns detalhes em rubro, que combinavam perfeitamente com a pintura de um tom vermelho fosco que se estendia até o teto. Era uma cozinha modesta, mas ideal para Lawrence que morava sozinho.

Comeu as últimas fatias de pão que continham no pacote, guardando o que sobrara da geléia. Ia então tomar um banho, mas ao passar pela sala, viu algo que o fez parar para refletir por alguns instantes. Quase esquecera o motivo pelo qual tivera ido dormir tão tarde: um de seus livros de capa negra, aquele que ainda se encontrava aberto sobre a escrivaninha. As últimas palavras ali escritas eram: “Mas ela possuía um grande pecado, aquele que lhe impedia de sorrir”, e mesmo que Lawrence tivesse pensado durante horas, nada além daquilo havia progredido. “O grande pecado da jovem”... pensara em várias possibilidades, mas nenhuma que lhe fosse realmente convincente para escrever no papel.

Por fim, o psicólogo despertava de seus devaneios, assim voltando ao rumo anterior, indo ao banheiro para tomar banho, fazendo-o em pouco tempo. Vestindo agora uma calça comprida azul marinho e uma camiseta branca sem muitos detalhes, o rapaz estava pronto para sair. Colocou os sapatos, pegou sua carteira, estava com um estilo um pouco mais descontraído do qual costumava ser visto normalmente. Iria apenas ao mercado afinal, e talvez almoçasse em algum estabelecimento.

Descendo com o elevador até o estacionamento do prédio, entrou em seu carro, dava a partida e assim saia em direção ao local que programara. Seus minutos seguintes se resumiram em comprar os alimentos necessários para se manter durante aquela semana.

Dentro de pouco menos que uma hora, o homem já estava colocando as compras no porta-malas de seu carro e assim partira com ele para fora do estacionamento do mercado. Tendo se alimentado de apenas algumas fatias de pão no café da manhã, Lawrence começava a sentir novamente os efeitos da fome, parando para almoçar em um dos restaurantes centrais da cidade. Escolheu um prato com uma refeição simples, acompanhado por um copo de refrigerante. Sentava-se em uma das últimas mesas. Sozinho, comia calado, interagindo apenas com seus próprios pensamentos. Suas férias estavam sendo realmente tediosas.

Lawrence não tinha muitos amigos na cidade, a maioria de seus colegas de trabalho eram casados, ou possuíam outros compromissos que os impedissem de aceitar um convite de acompanhar o louro até uma lanchonete, ou em qualquer outro passeio que fosse. Era certo que às vezes se sentia um tanto solitário, mas também já estava bastante familiarizado com aquela sensação. Com calma, terminava de almoçar, abandonando o prato sobre a mesa e indo pagar no caixa o valor referente àquela refeição. Tendo assim o feito, voltou para o carro, retornando para o próprio apartamento. Pegou as compras e subiu até seu andar pelo elevador.

Ao ter todos os alimentos guardados, Lawrence veio por se deitar no sofá. Pelo tédio, acabou adormecendo novamente. Depois de algumas horas o louro despertou, lamentando, pois imaginou que provavelmente teria bastante dificuldade para dormir quando a noite chegasse. O tempo parecia um pouco mais escuro, mesmo que o sol já houvesse se posto, muitas nuvens fechavam o céu.

O que poderia fazer para tornar seu dia mais útil? Ficou a refletir durante alguns minutos, até desviar os olhos para o livro de capa negra, aquele ainda aberto sobre a escrivaninha e que continha as últimas palavras: “Mas ela possuía um grande pecado, aquele que lhe impedia de sorrir”.

Não conseguiria escrever nada além de tal frase caso não visse novamente a menina da igreja. Lawrence se levantou do sofá, decidido a ir à missa daquele dia, mesmo depois de olhar no relógio e constatar que faltavam cerca de alguns minutos para a cerimônia ter início. Trocou de roupa, colocando vestes mais formais, seu terno negro e uma gravata de um verde claro. Lavou o rosto, penteando os cabelos sem grande dedicação. Com a ameaça evidente de chuva, decidiu ir de carro, pegando também um guarda-chuva.

Embora considerasse sua própria fé bastante fiel, ir à igreja não lhe era um costume frequente, fazendo-o apenas quando se sentia triste ou desanimado, como estava no dia anterior. Aquela era uma das primeiras vezes que ia por outro motivo: tédio e, principalmente, curiosidade. Sentia-se cada vez mais intrigado sobre a jovem e o grande pecado que ela dizia possuir.

Em pouco tempo, Lawrence já estava estacionando em frente à igreja, descendo do carro enquanto abria o guarda-chuva para se proteger dos primeiros pingos d’água que começavam a cair. O sino que anunciava às 19hs já havia soado, o que significava ao psicólogo que ele perdera o começo da cerimônia. Entrou por fim na igreja, fechando o guarda-chuva pouco umedecido. A maioria dos bancos já estavam ocupados pelos fieis, restando para o louro apenas os lugares mais longes do altar. Sentou-se em silêncio, repousando o guarda-chuva no chão.

O coro de crianças se iniciava e o louro buscava com os olhos por aquela garota, Sozh Ukraynn. Achou-a sentada na primeira fileira, mas por estar muito atrás dela, não era possível para Law ver o rosto da menina, ou ainda que roupas ela vestia.

Os minutos seguintes prosseguiram com o cantar das crianças, finalizado quando o padre subiu ao altar. Todos então olharam para ele, inclusive o psicólogo. - Rogai por vossas famílias. - Dizia o sacerdote com sua voz firme e experiente, que ecoava pelo local. - Pois uma família assim sempre será, não importam as desavenças.

Lawrence abaixou o olhar, passando a fitar o guarda-chuva ainda ao chão. Passou a lamentar por ter ido à missa justo naquele dia. Se o assunto seria mesmo aquele, era preferível para o louro ter guardado suas próprias intrigas quanto à jovem para outra ocasião. Pensar em “família” era algo realmente muito delicado para Lawrence.

(...) Ó pais, que dedicais toda a vida em prol de seus filhos. Perdoais mesmo aqueles que se desviaram da luz: Deus os mostrará o caminho da retidão, mesmo que os demônios insistam em engolfá-los. (...)

Aquilo lhe soava familiar. Sua mãe havia alegado que eram as influências do diabo sobre Lawrence, enquanto seu pai dizia que não possuía mais filho, o deserdara. Aos poucos, os pensamentos do louro iam regredindo até alcançarem uma memória antiga, de uma tarde chuvosa. Seus pais colocavam quase todos os pertences do único filho na rua, expulsando-o de seu lar. O garoto louro, que havia acabado de entrar para o 3º ano do colegial, chorava desesperadamente ao tentar recolher suas coisas e dizia aos berros o quanto amava seus pais.

O padre continuava suas preces, porém, a mente de Lawrence se encontrava muito distante dali, sentindo os próprios olhos se encherem de lágrimas, era como se pudesse sentir todo aquele desespero novamente.

(...) Irmãos de mesmo sangue, que alimentam a rivalidade entre si, cairás em um ciclo vicioso de amarguras e rancores, gerando um mal irremediável. Somente o perdão vos libertará. (...)

O psicólogo estava tão preocupado em conter as próprias lágrimas que nem ao menos conseguira ouvir com atenção os dizeres seguintes do padre ou o quanto já chovia lá fora, como também não percebera que aquela menina chamada Sozh havia de repente levantado de seu banco. Lawrence apenas a viu quando ela passou ao seu lado, a passos apressados e com os lábios retorcidos em uma expressão infeliz. Seus olhos pareciam estar levemente avermelhados, como se ela estivesse prestes a chorar, assim como Lawrence. Sozh saiu para a chuva, sumindo em segundos da visão do louro.

Ele então se levantou também, pegando seu guarda-chuva. Algumas pessoas lhe lançaram um olhar de repreendimento, como se estivessem ofendidas pelo homem se levantar enquanto o padre ainda falava, algo que, estranhamente, notou que não fizeram com a jovem. Enfim, ignorou a todos, partindo rumo a saída, abrindo o guarda-chuva ao alcançar a parte externa da igreja. Chovia forte e às vezes os trovões se manifestavam ao longe. Lawrence deu alguns passos até avistar a jovem sentada em um dos bancos do pequeno jardim que ali na igreja havia. A garota estava sozinha, de cabeça baixa e completamente encharcada.

Canteiros de flores brancas e amarelas cercavam o jardim, e uma bela fonte de água se localizava no centro: tinha a forma de um anjo feminino, de asas pequenas e rosto infantil.
Law se aproximou de Sozh, que aparentemente ainda não tinha se dado conta da presença dele. Muitas gotas d’água deslizavam pelo rosto da menina, até o seu queixo, deixando o rapaz em dúvida se aqueles eram realmente pingos de chuvas, ou se não, lágrimas. Ela se vestia quase da mesma maneira que todas as outras vezes que fora vista pelo psicólogo: usava um belo vestido branco.

Em um movimento gentil, o louro segurou o guarda-chuva para mais perto da pequenina, protegendo-a da chuva enquanto permitia a si mesmo de se molhar. - Sei que está um pouco tarde para isso, mas pode ficar com o meu guarda-chuva se quiser.

Sozh pareceu surpresa, erguendo rapidamente o rosto para o homem que tinha ao lado. Seus olhos dourados realmente se encontravam bem avermelhados e cheios de lágrimas também, estas que escapavam, misturando-se com os pingos de chuva que ainda escorriam pelo seu rosto.

Novamente ela abaixou o rosto, passando o braço sobre ambos os olhos em uma rápida tentativa de cessar com o fluxo de lágrimas. Em instantes voltava com aquela expressão indiferente. - Não precisa. - Respondeu a garota.

Lawrence deu um simpático sorriso, já que estava começando a se acostumar com o jeito de Sozh. Quanto às lágrimas que havia acabado de ver nos olhos dela... tinham apenas o deixado ainda mais intrigado. - Posso me sentar?

... Pode. - Mesmo que tardou para se pronunciar, a menina dava sua permissão e assim o louro se sentava, segurando o guarda-chuva entre ambos, de modo que abrigasse aos dois da chuva.

Ficavam em silêncio por um longo momento, escutando as gostas caírem do céu e o vento fazer com que os galhos das árvores se agitassem intensamente. Era então que Lawrence voltava a se pronunciar por fim, desta vez em um tom bastante sereno. - Você estava chorando agora a pouco, não estava?


... Por que acha isso? - A menina tentou parecer firme em sua resposta.

Porque seus olhos estão bem avermelhados ainda. - Lawrence se voltou para ela, mantendo sempre a expressão gentil.

... Os seus também estão.

O sorriso do louro veio por se suavizar naquele mesmo instante, afinal, tinha tido mais um de seus argumentos derrubados pela jovem. Tentou disfarçar com um novo sorriso forçado, logo ignorando aquele último comentário feito por Sozh.

Onde estão os seus pais? - Law indagava em um tom bondoso, enquanto tentava descobrir de uma maneira mais discreta o motivo pelo qual ela chorava.

Eu não tenho pais. - Respondeu a menina, seca.

Você não sabe onde eles estão?

Eu não tenho pais. - Repetiu ela mais uma vez.

Lawrence imaginou que acabaria a aborrecendo ainda mais caso continuasse insistindo em fazer tal pergunta, por isso, tentou mudar um pouco sua questão, mesmo que ainda mantivesse o mesmo foco. - Você tem família?

Sozh abaixou a cabeça, fitando os próprios pés por um instante. Tardou um pouco, mas acabou lhe respondendo. - Tenho dois irmãos mais velhos...

Fora impossível para o psicólogo deixar de se sentir satisfeito naquele momento, já que finalmente tinha conseguido com que a jovem ao menos começasse a ceder às perguntas. - Você tem um bom relacionamento com eles?

Novamente, a resposta demorava a ser pronunciada. - ... Apenas com um...

E com o outro?

A pequenina abaixou ainda mais a cabeça, deixando com que os cabelos lhe caíssem parcialmente sobre os olhos. Pela primeira vez, sua voz vinha por soar triste e receosa. - Ele... quer me matar.

Ao ouvir tais dizeres, Lawrence sentiu a própria expressão de seu rosto paralisar. Aquela havia sido uma resposta realmente inesperada, e pelo tom de sua voz, não pareciam ser palavras exageradas. O psicólogo achou que aquilo deveria ser de fato sério. - E por que ele quer te matar?

Eu fiz algo ruim para ele... - A garota falava de maneira pausada, como se analisasse com cuidado cada palavra antes de pronunciá-la. - ... Mesmo que a minha intenção tenha sido de apenas protegê-lo.

Lawrence mordeu de leve o próprio lábio inferior para impedir que sua próxima pergunta saltasse de seus lábios. Quase a havia questionado se aquilo que Sozh acabara de lhe contar possuía alguma relação com o tal pecado, aquele que intrigava tanto ao psicólogo. Mas tal questão provavelmente soaria muito inconveniente e talvez Sozh voltasse a se tornar reservada. Ambos então ficaram em silêncio, ouvindo o barulho da chuva, que, aliás, já tinha diminuído de modo considerável.

Você tem família? - A menina levantou o rosto, voltando com o olhar para o homem que tinha ao lado, fazendo-lhe a mesma pergunta que a pouco tinha sido dirigida a ela. O louro não respondeu de imediato, deixando apenas seus olhos se encontrarem com os da jovem. Em súbito, era como se aquela lembrança de seus pais tivesse lhe voltado a mente, aquele dia em que mais chorara na vida.

Eu... - Começava a dizer ele, embora não conseguisse pronunciar nada mais além daquilo. Não compreendia. Tantas outras pessoas já tinham lhe perguntado sobre a família ou até mesmo algo mais específico: seus pais. Lawrence nunca paralisara daquela maneira em que se encontrava agora. Sempre dava uma resposta qualquer e vaga, mas era como se aqueles olhos dourados da garota fizessem com que o psicólogo recordasse de todo sofrimento, como se ela fosse capaz de o hipnotizar.

Sozh levou delicadamente a mão até o rosto de Lawrence, tocando-lhe de leve a testa com as pontas dos dedos. De início, o louro sentiu sua própria respiração parar, enquanto seus olhos continuaram virados nos dela e seu coração disparava. Mas então, lentamente, começou a sentir um calor lhe invadir o peito, que parecia dissolvesse cada mágoa que ali havia. Paz: a palavra que melhor descrevia a sensação ali sentida pelo homem. Seu coração batia em um ritmo tranquilo. Todo o desespero de sua lembrança, o rancor de seus pais que era alimentado durante anos, amenizavam-se aos poucos. Os olhos azuis de Law se encheram de novas lágrimas, mas sua respiração voltava serena.

Eis que soava o sino das 20 horas, fazendo com que o coração do louro mais uma vez batesse rapidamente, agora em surpresa. Afastando-se um pouco da jovem, ela retirou a mão de sobre a testa do homem. Era como se ele tivesse acabado de despertar de um transe.

As pessoas começavam a sair da igreja. Lawrence se levantou, mantendo-se próximo a menina de modo que o guarda-chuva ainda pudesse proteger a ambos. Tentava se recompor, mas seus olhos ainda estavam cheios de lágrimas. - Bom... é melhor eu ir... - O psicólogo respirou fundo, voltando-se para a jovem por fim. Porém, ela estava de cabeça baixa. - ... Fique com o meu guarda-chuva. - Disse a ele.

Sozh ergueu um pouco o rosto e voltou a fitá-lo. Pareceu um pouco surpresa. - Não precisa...

O louro sorriu mais controlado, embora ainda lutasse para não deixar com que nenhuma lágrima lhe transbordasse os olhos, e para dissimular naturalidade. - Claro que precisa! Caso contrário você pode acabar pegando um resfriado. - Estendia o guarda-chuva para Sozh, oferecendo-o.

De início ela pareceu hesitar, mas acabou aceitando ao pegar o cabo do guarda-chuva e o trazendo para mais perto de si. - ...Obrigada. Eu o devolverei assim que possível.

Não se preocupe com isso, Lady Ukraynn.
- Lawrence foi se afastando, sentindo alguns pingos de água voltarem a lhe atingir. - Cuide-se e até logo. - Deu então um último aceno para ela. Sozh, que se manteve ali sentada no banco da praça, retribuiu ao aceno, um pouco sem jeito.

Lawrence entrou no carro e partiu. Deu um longo suspiro mais uma vez. Logo que virou a primeira esquina, sentiu as lágrimas começarem a deslizar por seu rosto, chorando de maneira descontrolada, sem nem ao menos saber ao certo o motivo. Mal conseguia ver o percurso de seu carro, levando alguns minutos a mais que o costume para fazer o trajeto até o apartamento. Entrou direto no estacionamento do prédio, manobrando o carro até sua vaga, assim o desligando.

Pegava um lenço que havia no porta-luvas, tentando cessar o choro com ele, mas era em vão. Porém, a cada lágrima que escapava de seus olhos, o psicólogo se sentia mais aliviado, como se toda a sua agonia de um traumatizante passado estivesse sendo lavado por seu choro. Minutos se passaram até que suas lágrimas foram por fim controladas. Estava em súbito predisposto, tranquilo e estranhamente, feliz. Não compreendia o que havia acabado de lhe acontecer, apenas sabia que todas as sensações de mágoa e rancor tinham desaparecido completamente do interior de seu coração.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Capítulo 6: Primeiros parágrafos de uma nova história

A água quente do chuveiro lhe escorria pelo corpo, molhando também os lisos cabelos louros e seu rosto que conservava os olhos fechados. Ficava ali por vários minutos, refletindo enquanto respirava calmamente, no intuito de reunir tranquilidade que lhe dispunha para fazer o que precisava ainda naquele fim de tarde. O vapor invadia todo banheiro, embaçando o vidro que agora refletia apenas uma imagem turva do homem despido.

Vinha por abrir os olhos azuis ao desligar o chuveiro, deixando com que suas mãos tateassem por cima do box em busca de uma toalha. Após encontrá-la, levou-a aos cabelos para retirar o excesso de água, passando então a enxugar sua face e o restante do corpo.

Aproximava-se do espelho embaçado, deslizando a mão sobre sua superfície até ver o próprio reflexo mais nítido. Lawrence Austell ainda se mantinha perdido entre pensamentos. Vestiu roupas sociais, já que pretendia sair. Iria à igreja, porém, antes precisava fazer uma ligação. Suspirou, saindo do banheiro enquanto arrumava a gravata lilás que lhe envolvia o pescoço, dirigindo-se à sala de seu apartamento, que ficava no 16º andar. Ao pegar o celular discava primeiro os códigos de área, depois o número. Sua ligação era dirigida para o interior.

Alô? - Disse a voz de uma senhora, do outro lado da linha. O som de um televisor ligado era claramente ouvido ao fundo, provavelmente sintonizado em um programa de auditório, com várias vozes, aplausos e, por vezes, alguns risos.

Oi... como a senhora está? - Lawrence se sentava no sofá, fitando por um momento o carpete azul marinho que revestia o chão de sua sala. Parecia escolher suas próprias palavras com bastante cuidado, e também certo receio.

Estou bem. - Era a resposta da mulher.

Que bom... - Alguns segundos eram tomados pelo silêncio, enquanto o louro novamente tentava selecionar novas palavras para manter a conversa.

Era só isso? - Ela perguntava ríspida.

Não... também liguei para saber como o meu pai está...

Ele está bem. - A senhora parecia aumentar um pouco o som do televisor. Aquilo fizera com que o coração de Law viesse por disparar.

Que bom... - Ele se afundava um pouco mais no sofá enquanto continuava a fitar o chão. - Então... boa semana... e feliz aniversário mãe.

A mulher desligava o telefone sem mais nada dizer.

Cabisbaixo, Lawrence afastava o celular do próprio ouvido pelo soar do som repetitivo de ligação perdida, deixando o aparelho cair sobre o sofá ao sentir os próprios olhos se encherem de lágrimas. Rapidamente, levou ambas as mãos ao rosto, impedindo que as gotas lhe deslizassem pela face. Seria forte, já que durante toda a vida havia cedido ao choro. Sempre era daquela maneira e provavelmente jamais mudaria, seus pais nunca deixariam de menosprezá-lo.

Respirou fundo, recompondo-se, repreendendo também a si mesmo por ter mais uma vez acreditado que poderia ouvir uma única palavra gentil de sua mãe. Levantou-se do sofá, pegando o celular e o guardando no bolso da calça. Imaginava que o mais sensato naquele momento era esquecer sobre o assunto.

Colocava seu par de sapatos negros e o relógio sobre o pulso esquerdo, saindo do apartamento ao pegar as chaves para trancar a porta de entrada, assim logo o fazendo. O elevador pouco demorou a chegar no 16º andar, partindo para o térreo tendo Lawrence agora em seu interior. Passava pela recepção, cumprimentando o porteiro com um aceno cordial, logo alcançando a rua bastante movimenta.

Possuía um bom carro, mas decidira ir a pé para a igreja que não ficava muito longe dali. Com o fim da tarde, o sol começava a se pôr lentamente no horizonte, fazendo com que o vento reagisse com maior intensidade, atingindo seus cabelos louros que agora se agitavam. Aquilo ao menos parecia capaz de amenizar o tom avermelhado que seus olhos ainda continham.

Não prestava muita atenção nas ruas, já que elas lhe eram muito rotineiras. Chegou à igreja em poucos minutos, esta que conservava as portas abertas para a missa das 19:00 horas que estava prestes a ter início. Lawrence entrou e logo foi se acomodar por entre um dos bancos mais próximos ao altar. Desta vez não estava acompanhado de sua pasta de trabalho ou de seus livros de capa preta, já que recentemente havia entrado de férias do consultório, onde às vezes conseguia pacientes. Aliás, aqueles dias estavam sendo um tanto que tediosos para o jovem psicólogo. Começava ele a achar que ouvir os problemas dos outros o fazia esquecer seus próprios, e se fosse assim, preferia logo voltar ao trabalho.

Olhou para o lado, fitando os bancos que havia ao lado do seu. Avistava a jovem de cabelos negros e olhos dourados, já sentada, quieta, olhando para frente de maneira fixa. Conseguia sem grandes esforços se lembrar do nome dela: Sozh Ukraynn.

Nunca havia conhecido qualquer garota com uma personalidade tão curiosa. No consultório, costumava atender crianças e adolescentes de idade semelhante a que Sozh aparentava ter. De um modo geral todas sofriam com problemas familiares, ou em alguns casos, não tinham autoconfiança. Mas aquela menina em particular, parecia ter algo a mais.

Ficava perdido novamente entre pensamentos, sem notar que poderia estar tendo uma atitude bastante indelicada, encarando a jovem durante todo aquele momento. Quando se deu conta, disfarçou, mas Sozh não parecia ter tomado conhecimento que estava sendo até então observada, ou então, ignorara Lawrence completamente.

O padre subiu ao altar para dar uma pequena introdução à cerimônia, recebendo a atenção do louro que agora também olhava para frente. Alguns minutos se passaram e o soar do sino que anunciava às 19:00 horas passava a ecoar por todo local. As badaladas faziam com que o padre se calasse, assim como todos os outros presentes. O psicólogo abaixou a cabeça, desviando o olhar novamente para Sozh, mesmo que de maneira mais discreta.

Ela continuava imóvel e de olhos fixos no altar. Seu rosto não possuía expressão alguma.

"Porque estou tão incomodado?" - Pensava Law consigo mesmo, não sendo capaz de encontrar uma resposta válida para sua própria pergunta. Decidira então esquecer o assunto, deixar aquela jovem com seus próprios problemas.

A cerimônia prosseguiu como de costume e cerca de uma hora depois, já estava próxima ao encerramento. Todos se ajoelharam para suas orações finais, e assim era feito pelo psicólogo que juntava suas mãos e as colocava sobre o banco da frente, fechando os olhos. Mesmo com toda aquela situação, o homem rezava por seus pais, desejando-lhes saúde e muitas felicidades, apenas fazendo o pedido de que um dia pudesse ter um bom relacionamento com ambos, e obter suas bênçãos. A missa por fim chegava ao final e as pessoas aos poucos iam se levantando, deixando o local sagrado. Após terminar com sua prece, o louro também se colocava de pé, lançando um último olhar para o banco da jovem. Ela ainda estava ali ajoelhada e rezando.

Ao se deixar perder novamente entre pensamentos, Lawrence dera o tempo necessário para Sozh também se levantar. A garota permanecia como se nada fosse capaz de abatê-la, entretanto, o brilho de seus olhos dourados já não existia mais.

A garota passava a ir em direção a saída do local, sendo então seguia pelo psicólogo. - Ei... - Ele chamava pela menina, que parecia não ter lhe dado a mínima atenção, continuando com seus passos por entre os bancos. - Lady Ukraynn...

Era então que a pequenina parava, virando-se calmamente para encará-lo. Nada lhe dizia.

Lembra-se de mim? Eu ainda te devo um grande favor. - O louro sorriu de maneira simpática, mas afinal, o que estava fazendo? Não conseguia compreender a si mesmo, uma vez que havia decidido não mais de deixar intrigar por aquela menina. Mas era fato que ainda estava muito agradecido por ela lhe ter devolvido seu livro, e ainda queria poder retribuí-la de alguma maneira... ou estava apenas usando aquela como uma desculpa fútil para poder saciar sua própria curiosidade em relação a personalidade daquela garota!?

... Não estou interessada. - Ela se virou, dando mais alguns passos até ser novamente abordada pelo homem.

Não posso nem ao menos ser seu amigo? - Indagava Lawrence em um tom ainda animado e verdadeiro. Buscava manter nos diálogos com Sozh, palavras que normalmente usava com seus jovens pacientes.

A garota novamente se virou, encarando o maior de um jeito um pouco mais sério, e de certo modo, ameaçador, algo que fizera com que o homem sentisse um desagradável arrepio lhe percorrer a espinha. Ele não compreendia, pois a expressão da jovem continuava a mesma, porém, era algo presente naqueles olhos dourados.

Ter amigos não é algo permitido para uma pecadora como eu. - Novamente, Sozh voltava com o rosto para frente, reiniciando seus passos em direção a saída.

Lawrence permaneceu imóvel durante um breve instante, com as palavras travadas na garganta, sem possuir qualquer resposta imediata que pudesse parar aquela menina. Era então que notava estar sendo observado pela maioria das pessoas que estavam ali, desde o próprio padre, até os fieis que a pouco tinham terminados com suas orações.

Louco... - Uma senhora ria baixinho, enquanto pronunciara aquela palavra para o psicólogo, em um tom de deboche.

Sentiu-se ofendido, sem compreender o porquê daquilo. Lançou a todos um olhar de desagrado, como se estivessem o caçoando apenas por conversar com aquela jovem enquanto outros o olhavam assustados. Deixou o local, agora novamente a procura de Sozh que havia perdido de vista por um instante. Localizava-a um pouco mais adiante e assim corria até ela, alcançando-lhe logo a frente de modo que a garota viesse por cessar com seus passos mais uma vez.

Não há pecado que te impeça de ter amigos! - Estava a repreendendo, e falava aquilo com um tom de seriedade para que pudesse de algum modo convencê-la.

A garota arregalou os olhos, demonstrando-se surpresa pela fala de Lawrence. Ele ficara satisfeito, uma vez que notara por fim uma expressão na face da jovem. Mas aquilo durara apenas alguns segundos, de modo que ela logo voltasse ao seu jeito sério. - Você não sabe o que está dizendo...

Você não costuma conversar sobre os seus problemas com alguém, não é? - Estava apenas deduzindo para tentar manter o ritmo da conversa.

Qual a necessidade disso? - Aos poucos ela parecia ficar levemente aborrecida, mas para Lawrence já era tarde demais para esquecer o assunto. Como psicólogo, achou que aquela jovem poderia estar passando por sérios problemas e seu ideal de dever o fazia querer ajudá-la de alguma maneira. Como ser humano, sua curiosidade havia sido ainda mais atiçada pelo tal pecado citado pela jovem.

Sou psicólogo, essa é a minha profissão. Conversar sobre seus problemas com outra pessoa é essencial, já que, uma vez que você guarda tudo para si mesma, uma hora ou outra poderá acabar fazendo alguma bobagem... - Tentava falar de um modo sutil, mas que a jovem pudesse compreender.

É mesmo...? - Ela inclinava levemente a cabeça para o lado, continuando a encará-lo de maneira fixa. - ... E com quem que um psicólogo conversa sobre seus próprios problemas?

Desta vez, era Lawrence quem ficava surpreso. Em toda a sua vida, jamais havia recebido uma resposta com aquela.

Sem fala, a jovem novamente se pronunciava em seu lugar, mesmo que falando de um tom mais baixo que o anterior. Ela voltava a caminhar, passando por Law enquanto lhe dirigia um primeiro sorriso, mesmo que este não parecia ser alegre. - Uma hora ou outra você poderá acabar fazendo alguma bobagem.

O rapaz sentiu o arrepio novamente lhe invadir o corpo, sentindo as mãos passarem a tremer de leve. Foram necessários alguns segundos para se recompor. Cerrava os punhos ao se virar mais uma vez para Sozh. - Quando você vem à igreja?

Ela parou apenas para lhe responder. - Venho todos os dias.

Então nos veremos em breve, Lady Ukraynn, tenha uma boa noite. - Lawrence lhe dava um simpático aceno, forçando a naturalidade, vendo-a retomar com seus passos e assim se afastar, até estar distante o suficiente para o próprio homem seguir seu caminho. Em poucos minutos já subia as ruas de volta para seu apartamento, ainda refletindo sobre aquelas últimas palavras da menina. Não acreditava que seu próprio argumento havia sido derrubado por ela com tanta facilidade.

Seus pensamentos não desviavam daquele assunto nem mesmo após chegar ao prédio e subir até o 16º andar pelo elevador. Retirava a chave do bolso e destrancava a porta da frente de seu apartamento. Acendia a luz da sala ao entrar, e o vento noturno começava a soprar de leve contra o vidro da janela que ali havia.

O louro suspirou, indo para o quarto trocar suas roupas. Colocava vestes mais confortáveis, pois com elas já pretendia passar o resto da noite. Uma calça comprida e blusa de mangas até os punhos, ambas de um tom azul suave. Voltou para a sala, desta vez dirigindo o olhar para sua escrivaninha que ficava ao lado da janela. Sobre ela havia inúmeros livros de capa negra, além de várias canetas espalhadas, uma luminária e os óculos que agora eram pegos e colocados sobre a face de Lawrence, no mesmo instante em que este pagava um dos livros e passava a folheá-lo, relendo alguns trechos.

Tal livro, como os demais que havia ali sobre a escrivaninha, tinha sido escrito pelo próprio psicólogo. Era um romance, redigido com base nos relatos feitos por uma de suas pacientes. Aquele era seu hobbie secreto, algo que nunca havia mostrado para ninguém por não se achar criativo o suficiente para criar uma história própria. Apenas contava de uma maneira narrativa o que lhe era contado, permitindo a sua imaginação somente enfeitar às vezes para dar continuidade com o enredo da história.

Sentou-se na cadeira, abandonando o livro enquanto pegava outro, este que era aberto em sua primeira página, que não continha uma única palavra sequer. A mão direita do homem escolhia por uma caneta qualquer, destampando-a e logo a levando de encontro com o papel branco, porém, não os encostava durante vários minutos.

Law então buscava por outro papel, um solto, para mero rascunho. Nele, escrevia em letras de forma e separadas, um nome completo:

S O Z H U K R A Y N N

Refletia, deixando-se invadir por alguma idéia ao tentar organizar aquelas letras para formar um novo nome. Um anagrama. Fazia isso para disfarçar o nome das pessoas que se baseava para criar seus romances, mas ao menos não lhes tirar o mérito. Depois de um tempo considerável, conseguia organizá-las até forma um que lhe agradasse: Naru H. Kysonz.

Voltava então para o livro, deixando a caneta finalmente deslizar pelo papel, formando um rastro em tinta preta. Ia organizando as palavras mentalmente e as marcava para sempre naquele livro.

“Os prédios da cidade pareciam competir para ver qual deles alcançaria os céus. Ao iniciar da manhã, o sol se escondia por detrás das nuvens, o vento parecia cansado, carregado. Com tanta energia, o movimento da metrópole jamais cessaria: ele duraria até o anoitecer e do anoitecer até o dia raiar novamente. Incontáveis carros iam e vinham, circulando pelas vias. Era segunda-feira.

Sentada à beira de um alto viaduto estava uma jovem garota, Naru H. Kysonz. Ela possuía cabelos negros e curtos, pele de um branco suave, rosto de menina tão delicado quanto porcelana. Mas não sorria, seus olhos amarelos analisavam a cidade agitada. Naru colocou uma curta madeixa de seus cabelos por trás da orelha e ajeitou a mochila escolar sobre as costas, os carros passavam e ninguém parecia sequer notar a presença dela. Em meio a tanta correria, a cidade não teria tempo de dar atenção a aquela pequena garotinha”

Lembrou-se da mulher que havia lhe chamado de “louco” sem motivo, imaginando que todas as pessoas daquela sua cidade descrita eram tão insensíveis quanto ela. Mais uma vez, ficava perdido entre pensamentos, sem mais saber o que escrever. Minutos se passaram até a caneta tocar o papel novamente em uma única frase.

“Mas ela possuía um grande pecado, aquele que lhe impedia de sorrir.”

Não podia mais prosseguir, uma vez que seus pensamentos ali terminavam. "Um pecado que impedisse a jovem de sorrir"... Sim, com certeza aquela lhe daria uma ótima história.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Capítulo 5: Ordem dada

Alguns postes de luz começavam a falhar, enquanto outros gastavam a maior parte de sua energia para ao menos mantê-la constante. A lua em seu estágio minguante também mal conseguia banhar os asfaltos com o seu brilho, de modo que todos os cantos parecessem abandonados, mergulhados na escuridão. Porém, nada daquilo incomodava o homem que vinha caminhando a passos calmos por entre as ruas obscuras, já que ele próprio parecia fazer parte das sombras e até mesmo gostar disso. Era Dnieper Ukraynn sempre a manter o sorriso.

Não sabia que horas eram, nem lhe fazia diferença saber.
Em meio às trevas, o rapaz também acabou se tornando uma delas.

Mas ele próprio ainda possuía um brilho maior do que a intensidade da própria lua: era o brilho de seus olhos dourados como ouro. Conforme o horizonte era alcançado as ruas pareciam ficar mais obscuras e os postes falhavam com frequência, alguns nem funcionavam mais. O homem continuava a andar em linha reta, como se o seu destino estivesse logo à frente, porém, nunca chegasse.

Fechou os olhos por um breve momento e por entre um curto suspiro começou a cantar. As palavras saltavam de seus lábios, acompanhando um ritmo imaginário enquanto cantarolava para a escuridão.

Prosseguia com a caminhada, deixando-se guiar pela canção que recitava. Não havia ninguém circulando pelas ruas além dele. O céu começava a clarear aos poucos, ficando levemente alaranjado enquanto o sol brilhava ao nascer. A voz de Dnieper preenchia os espaços vazios deixados pelas sombras e os exaustos postes de luz poderiam finalmente descansar. A brisa generosa pelo iniciar da manhã também era louvada pelas pequenas árvores, que se agitavam de maneira suave como se dançassem à melodia do homem.

Eis que seus passos cessavam, calando então a própria voz. Dnieper abria os olhos que se tornavam ainda mais dourados, fitando de imediato os dois rapazes que se encontravam a sua frente. Ambos possuíam cabelos negros, que ganhavam um tom levemente azulado ao serem banhados pelo brilho do sol, e olhos que eram de uma cor tão vermelha quanto sangue.

O menor deles parecia se vestir de maneira mais juvenil do que o outro. Usava uma calça preta justa, presa por um grande cinto e correntes prateadas que davam inúmeras voltas por sua cintura, um paletó de mesmo tom que lhe cobria até os pulsos, deixando somente os dois primeiros botões abertos para mostrar sua veste anterior, uma camisa de um cinza ofusco sem qualquer outro detalhe. Suas mãos eram detalhadas por muitos anéis e pulseiras prateadas que combinaram perfeitamente com a grande variedade de brincos que ele possuía em ambas as orelhas, e com o piercing em forma de argola que se encontrava presa ao lado direito de seu lábio inferior. Aparentava ter por volta de vinte anos e tinha os cabelos bastante bagunçados. Usava uma bota também negra, erguida em uma plataforma que o deixava um pouco mais alto do que realmente era, porém, não tão alto quanto o outro rapaz que o acompanhava. Este já parecia mais velho e formal, vestia-se com um terno preto e uma gravata vermelha, tendo os cabelos levemente puxados para trás. Seus olhos rubros se mantinham atrás de um pequeno óculos de armação prateada. Os dois sujeitos lançavam a Dnieper um olhar intimidador, mas o próprio apenas continuava a sorrir de maneira gentil.

Era então que o rapaz de terno ia com um dos joelhos ao chão, abaixando a cabeça enquanto deixava os cabelos lhe caírem levemente sobre a face.
- Ajoelhe-se também, Molise. - Falava para o outro que continuava a lançar a Dnieper um olhar de desagrado. Mas por fim, este de nome Molise cedia, ajoelhando-se também mesmo com total demonstração de relutância.

Eu já disse várias vezes que isso não é necessário. - Dizia Dnieper com seu costumeiro jeito educado, enquanto ele mesmo se curvava um pouco para frente de modo que pudesse cumprimentar aos rapazes. - Boa noite, Reno e Molise Reinbach.

Eles se levantavam, ficando em silêncio por um breve instante até que o mais velho, Reno, voltava-se a pronunciar desta vez se dirigindo a Dnieper. - Lord Ukraynn, eu e meu irmão viemos apenas lhe avisar uma coisa. - Desviou brevemente os olhos para o menor, embora soubesse perfeitamente que este se manteria apenas calado e a encarar o outro de maneira nada amigável. Enfim, Molise só estava ali por mera obrigação, quem daria o recado a Dnieper seria somente Reno mesmo. - Um anjo veio a este mundo, meu senhor. A querubim das letras.

Dnieper perdeu o sorriso por um breve momento, arregalando os olhos em um espanto muito raro de atingir aquele homem tão controlado. Segundos foram necessários para que ele conseguisse se recompor e assim retomar a expressão natural e gentil. - Se puderem fazer a gentileza de achá-la para mim...

Já imaginávamos que iria nos pedir isso. - Disse Reno, por fim vindo a encarar Dnieper mais uma vez. - Faremos o possível para encontrá-la.

Agradeço imensamente. E cuidem dela direitinho para mim, sim? - Inclinava levemente a cabeça para o lado, em uma expressão que parecia ter um tom divertido, mas é claro, carregava consigo seu tom de seriedade também. - Então, tenham um bom dia. - Dava um último cumprimento aos irmãos, voltando a retomar seus passos em linha reta, assim os ultrapassando e dando um último sorriso cordial.

Minutos se passaram e nada mais foi dito. Somente os passos de Dnieper podiam ser ouvidos pelos rapazes, diminuindo seu som à medida que se afastava, até por fim desaparecer. Era então que um irmão se voltava para o outro e Molise vinha por pronunciar suas primeiras palavras depois daquele encontro. - Demônios não existem para ficar atendendo caprichos de caras como aquele. - Cruzava os braços, parecendo realmente revoltado com tal situação.

Você sabe que isso não é verdade. - O mais velho suspirava, enquanto Molise parecia ficar ainda mais emburrado, já que sabia que sua própria fala não era mesmo válida.

Como nossa amada irmã foi se deixar levar por ele?

Eu e você já concordamos em não tocar mais nesse assunto. Não comece de novo. - Reno levava uma das mãos até os cabelos do irmão menor, bagunçando-os mais do que já estavam. - Agora vamos, temos um anjo para capturar.