quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Capítulo 2: Sete badaladas

Os vitrais eram invadidos pelo último raiar do sol que falecia ao horizonte, iluminando parte do altar coberto por flores, seda e ouro. Ao teto, belas nuvens sem vida, detalhando o céu pintado em um azul esplendoroso, estatuetas de anjos presas a longos pilares. As portas do extenso local se encontravam entreabertas, e de longe já se era possível ouvir o coro de crianças que soava por entre tanta riqueza. Impossível era descrever tal sensação de misticismo, esperança, e de fé que envolvia os corações de cada um dos presentes naquela cerimônia. Todos permaneciam quietos, em bancos ordenados, e de joelhos quando as crianças vieram por se calar. Perpetuavam com o silêncio físico, mas suas crenças e louvores se propagavam por meio de pensamentos, a fala da alma.

Em uma das primeiras fileiras, encontrava-se uma jovem garota, de rosto bastante delicado, pele de um branco suave, levemente corada nas bochechas. Possuía longos cílios, tão negros como seus finos cabelos que lhe morriam na nuca. Seus lábios eram estreitos, avermelhados e também deprimidos. A garota de traços de boneca parecia ter no máximo quatorze anos. Mantinha os olhos fechados e a cabeça baixa junto às delicadas mãos que estavam encapadas por finas luvas brancas, entrelaçando seus próprios dedos uns nos outros. Usava um vestido também branco, que parecida ser feito de seda. Ele lhe cobria as coxas e moldava sua cintura, sendo sustentado pelo não generoso busto da jovem, deixando seus ombros nus.

Seus pés eram mantidos por um longo par de botas da mesma cor da vestimenta, que escondia aqueles joelhos machucados, que agora iam contra o suporte de madeira do banco a sua frente. Ela provavelmente possuía o maior pecado dentre todas as pessoas ali presentes, algo que a perseguia em cada passo, à espreita em cada sombra.

Vagarosamente, todos iam abandonando suas preces, voltando a se sentar. A jovem fazia o mesmo, abrindo então seus olhos. Eram olhos cor de ouro, de um brilho intenso e penetrante. Sentava-se em seu lugar. Logo o coro se reiniciava, e o sino, este que agora passava a anunciar às dezenove horas. Uma primeira badalada, duas, três, as vozes das crianças pareciam sumir. O som produzido pelo sino se sobressaltava, ecoando no interior da mente da garota, trazendo-lhe a lembrança de seu grande pecado. Uma quarta badalada e via sangue tingir de rubro o chão frio de pedra, penas negras planavam com a brisa amena. Os olhos da garota se encontravam vidrados, perdidos no soar daquele sino e em uma visão eterna. Uma quinta balada, uma sexta abaixou a cabeça, desejando que aquilo passasse logo. Finalmente, a sétima badalada, tudo acabara. A voz do sino já havia se calado e sua visão também.

Você está bem? - Perguntou um desconhecido sentado ao lado da jovem, fitando-a preocupado. Mas a jovem apenas ergueu a cabeça novemente, voltando com a atenção para o louvor das crianças, respondendo ao sujeito de maneira bem direta.

Estou.

O homem achou a garota bastante fria, e um tanto estranha também. Viu-a juntar as mãos sobre o colo, conservando o rosto de menina praticamente sem qualquer expressão. A cor curiosa daqueles olhos dourados chamava muito a atenção. O sujeito também reparava que do outro lado da jovem não havia mais ninguém sentado. - Veio sozinha?

Sim.

Recebendo mais uma resposta seca e nenhum único olhar, o homem imaginou que o inciar de uma conervsa seria do desagrado da garota. Respeitando-a então, também voltava a se distrair com as crianças, que pareciam cantar alegremente uma canção de esperança.

Passaram-se vários minutos até que o padre viesse por subir ao altar, passando a conduzir tal cerimônia com novos louvores. Foi então que finalmente a jovem desviava um pouco o olhar, repousando-o sobre o homem que tinha ao lado, mesmo que de maneira discreta. Ele era louro, de rosto robusto e olhos de um azul intenso que se destacavam ainda mais pela pele bastante branca que possuía, além de combinarem perfeitamente com a coloração da gravata que ele usava. Estava muito bem vestido com um terno de tons escuros, o que lhe dava uma aparência séria.

Bem próximo ao sujeito havia uma pasta de trabalho fechada, e sobre esta, três livros de capa negra e lisa, sem qualquer outro detalhe. A menina, desinteressada, voltava então com os olhos para o altar.

Muitos minutos novamente se passavam, e a cerimônia por fim terminou com uma última reza. Na medida em que as pessoas iam finalizando com suas preces, levantavam-se e deixavam o local. O mesmo acontecera com o louro, desencostando os joelhos de sobre o suporte de madeira do banco da frente, pegando seus materiais e se retirando com calma.

Já a garota ainda rezava de olhos mais uma vez fechados, distraída. Fora a última dentre todos os outros a terminar com suas orações, como de costume. A menina tinha uma prece em especial para fazer ao seu senhor. Queria esquecer a lembrança que sempre voltava para lhe atormentar, a lembrança das sete badaladas de um sino dourado. Tendo finalmente acabado, ela voltava a abrir os olhos, levantando-se enquanto ajeitava de leve as rendas do seu vestido. Eis que se deparava com um dos livros de capa negra que a pouco tempo havia visto ao lado do louro. Estava jogado ao chão. Provavelmente, ao se retirar do local, o homem o tinha deixado cair sem nem ao menos perceber.

A jovem pegou então tal livro, conservando-o fechado já que não possuía o menor interesse em ver o que continha em seu interior, e assim se retirava do recinto. Seguindo pelo corredor da igreja logo avistava o louro vindo em sua direção bastante apressado. Imaginou que ele deveria ter se dado conta da perda. A menina então estendia o livro para ele, sem nada dizer. Pretendia lhe devolver o livro afinal.

O homem pareceu um tanto surpreso em um primeiro momento, mas logo sorriu, aliviado. Pegava o próprio livro com bastante cuidado, passando a segurá-lo junto com os demais. - Muito obrigado.

De nada. - Um tanto indiferente a jovem voltava a caminhar, passando pelo sujeito pretendendo mais nada dizer.

Oh não, de maneira alguma! - Ele foi até ela, cortando-lhe a frente. Não pretendia deixá-la ir sem antes poder realmente agradecer. Retirou de um dos bolsos interno do paletó um pequeno cartão, entregando-o a jovem.

Ela pegou aquele pedaço de papel com um olhar mais uma vez desinteressado, mas logo passou a analisá-lo, tendo a atenção voltada para os desenhos decorativos que ali havia. - O que está escrito?

O louro realmente não esperava tal pergunta, o que lhe fazia deduzir que garota não sabia ler. Mesmo intrigado, achou indelicado perguntar algo sobre. - “Lawrence Austell, psicólogo”. E este aí embaixo é o número do meu telefone. Pode me ligar caso precisar de algo, quero poder te retribuir pelo favor.

Você não precisa me retribuir por nada. - A menina entregou o cartão de volta, já que o mesmo não lhe seria muito útil. Além disso, não havia devolvido o livro para o dono esperando algo em troca. Recomeçou com os próprios passos, ultrapassando o homem mais uma vez.

Lawrence pegou seu cartão de volta diante a recusa da garota, mas ainda se demonstrava muito grato a ela, já que aquele livro lhe era de fato muito precioso. - Qual o seu nome?

A garota parou de andar novamente por um breve momento, virando-se para trás enquanto vinha por encarar o homem. - Me chamo Sozh... Sozh Ukraynn.

O homem voltou a sorrir para ela, assim decidindo se despedir e não insistir mais, já que poderia desagradar a menina mais do que aparentemente já tinha. - Então, prazer em conhecê-la Lady Ukraynn. Cuide-se e até a próxima. - Ele mesmo passou a se afastar, dando um último cumprimento enquanto seguia pela direção oposta da dela. A jovem também voltava a seu caminho, prosseguindo com seus passos em direção a saída da igreja.

Por você ter me visto... talvez nem haja uma próxima vez. - Falava já longe do homem, deixando escapar um leve suspiro. Havia pensado alto, afinal.

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