O caixão ainda aberto conservava dentro de si mais uma vítima do passar do tempo. Uma velha senhora mergulhada em flores brancas e alaranjadas, que possuía os anos expressos em cada traço de seu rosto. Pessoas vestidas de preto a rodeavam, distraídas em um coro de conversas aleatórias sem qualquer relação com aquela a quem deveriam prestar homenagem. Mas uma pessoa em particular não parecia querer se deixar levar pelo entretenimento dos diversos assuntos que ali surgiam. Estava sentada sobre um dos bancos gélidos da sala, cabisbaixa, tendo os cabelos louros e lisos lhe ocultando a face, como se tentasse esconder o fluxo de lágrimas que insistiam em deslizar por seu rosto, caindo aos pingos sobre o colo da jovem.
Sua vestimenta era da cor tradicional para a ocasião. Um vestido negro sem muitos detalhes lhe cobria até as canelas, e os pés eram envolvidos por um par de sapatilhas de um tom cinza claro.
Segurava um pequeno lenço branco, este que possuía um delicado bordado em forma de pássaro. Por vezes, a garota o levava até o rosto molhado em tentativas fúteis de secar o choro. Aquele lenço era um presente muito especial, já que a feitora de seu bordado estava agora ao interior de tal caixão.
O padre chegou, cessado com o ritmo de conversas por um breve momento. Todos se levantavam, dando as mãos para fazerem uma pequena prece, enquanto as lágrimas continuavam transbordando dos olhos castanhos da garota. Os outros já tinham desistido de consolá-la, embora ninguém havia sido muito insistente.
Que aquela alma de luz pudesse descansar em paz no paraíso, deixando saudades para aqueles que ficaram.
Terminada a oração costumeira do padre, o caixão fora finalmente lacrado. A jovem lançou um último olhar para o rosto de sua avó, já que depois de tal instante, só poderia revê-lo em lembranças.
Alguns homens pegaram o caixão, levando-o para fora da sala enquanto eram seguidos pelos demais. A menina ainda derramava suas lágrimas mesmo sabendo que um choro não fosse capaz de ressuscitar alguém.
Percorreram um longo caminho por entre as lápides dos mais antigos hóspedes do cemitério, até chegarem a uma cova já a espera para engolir seu novo caixão. Desceram-no com cuidado e os coveiros passavam a cobri-lo com terra. Algumas pessoas ainda se conservavam em silêncio, enquanto outras insistiam em conversar.
A garota estava ali fisicamente, mas em pensamento estava muito longe, no passado, lembrando-se das tardes de sábado que passava com sua avó materna, ocasiões que sempre terminavam com um delicioso bolo de cenoura, e das boas histórias antigas que ouvia antes de ir dormir. Mas também se lembrava de alguns dias anteriores a aquele do presente momento, quando sua avó já estava desacordada sobre a cama do hospital, sem grandes chances de abrir os olhos novamente.
A agonia de se perder alguém tão querido era algo indescritível, de modo que apenas aquela jovem de quinze anos soubesse o quanto seu coração já sufocava em saudades.
O vento parecia receoso, vinha oscilante, apreensivo, gélido, como se estivesse se deixando contagiar pelos sentimentos da menina. Ele fazia com que os compridos cabelos dela se agitassem, e trazia também consigo uma pequena surpresa: uma voz doce, serena, de ressonância perfeita e que, de repente, parecia acalmar o vento de seus medos, este que agora passava a ser uma amena brisa, dançava. Era um homem cantarolando, palavras que tomavam forma em outra língua, aparentemente francês.
Como o vento, a jovem também parecia ser tranquilizada por aquela voz, e de alguma maneira, sentia-se consolada por palavras que nem ao menos sabia o significado. Na verdade, era aquela voz que lhe hipnotizava, que preenchia os espaços vazios deixados pela agonia da perda. A brisa também se demonstrava mais generosa, trazendo calor. Todos estavam em perfeita harmonia: a brisa, o coração pulsante da menina, a voz do rapaz.
Foi movida por uma curiosidade instintiva, afastando-se lentamente daquelas pessoas vestidas de negro. Estar ali não faria a menor diferença. Era então que se deixava guiar por aquele cantar, sentindo-o ficar cada vez mais intenso à medida que se aproximava.
Deparou-se então com um anjo, de asas tão grandes que ocultava parte da luz do sol. Eram asas de pedra, de uma estátua em forma de ser celestial. Encostado a ela se mantinha um homem de sobretudo preto, estava sorrindo e conservava os olhos fechados, enquanto sentia a própria voz soar por entre os lábios pálidos. Seus longos cabelos negros estavam presos por uma fina fita vermelha e acompanhavam a brisa amena, deixando apenas algumas madeixas soltas lhe caindo levemente sobre a face. Era um sujeito muito alto e de rosto afinado. Seu delicado nariz sustentava um pequeno óculos, de lentes redondas e sem hastes.
A jovem estava envolvida demais com tal melodia para recuar. Apenas permaneceu ali, parada durante os instantes seguintes em que o homem terminava sua canção. Veio o silêncio, e a garota pareceu despertar finalmente de seu transe, sentindo um arrepio lhe percorrer a espinha. O rapaz então abriu os olhos, dourados como ouro e cintilantes como uma estrela, repousando-os de imediato sobre a garota que se mantinha a poucos metros de distância. Veio por sorrir ainda mais, sem demonstrar qualquer surpresa por não estar mais sozinho.
A menina corou rapidamente, já que não possuía uma justificativa plausível para estar ali o observando, além da única que lhe era realmente verdadeira. - Achei sua canção linda.
O homem inclinou a cabeça levemente para o lado, dirigindo-lhe agora um olhar bastante gentil.
Muito obrigado, senhorita. - Ele se desencostou da grande estátua, vindo por se curvar diante à garota em um cumprimento cordial. Falava sempre de maneira calma e educada. - A propósito, prazer em conhecê-la, meu nome é Dnieper Ukraynn.
Era uma garota evidentemente tímida, evitando olhar diretamente para aqueles olhos brilhantes do homem, assim, fitava apenas o chão. - Igualmente, me chamo May Beauronne.
O homem voltava para perto da estátua, cruzando os braços enquanto observava a jovem por um breve momento. Passados consideráveis segundos de análise, voltava a se pronunciar da mesma maneira anterior. - Quanto à pessoa que você perdeu... tenho certeza de que ela está em um lugar bem bonito agora.
May, como se chamava a menina, erguia a cabeça com um olhar de surpresa. Por um pequeno instante, havia se esquecido de todo aquele sentimento angustiante do luto. Estranhamente, pôde se sentir mais leve, e se dar conta que sua própria vida não terminava junto com a do ente falecido. - Como você...
Seus olhos estão bem vermelhos. - O rapaz interrompia a pergunta dela já com a resposta, mantendo o sorriso gentil ainda moldado por entre os lábios.
Obrigada... também tenho certeza de que ela está em um lugar muito bonito. - Pela primeira vez em dias, a jovem dava um sorriso, mesmo que amenizado, era doce e verdadeiro. Foi então que ouvira seu próprio nome sendo pronunciado ao longe. Provavelmente o enterro já havia terminado, o que significa hora de partir. Era sua tia chamando, a tutora de May, uma mulher impaciente e sem muita sensibilidade. Deixá-la esperando era um grande problema, sumir sem avisá-la era um pior ainda.
Cuide-se, senhorita. - O homem a cumprimentou novamente, desta vez em despedida. Ela retribuiu, desejando, quem sabe em algum outro dia, poder reencontrá-lo.
Foi se afastando, dando um último aceno tímido para o sujeito. Quis retribuir a simpatia dele, além de se sentir agradecida, já que com tão pouco o tal Dnieper fora capaz de curar pelo menos parte de sua tristeza. Longe da vista do homem, May então se colocou a correr, alcançando a tia que já conservava um olhar de reprovação.
Despediram-se então dos demais que assistiram ao enterro, entrando no carro e assim partindo rumo à residência em que ambas moravam.
O que foi fazer sozinha no meio de um cemitério? - Indagava a tia um tanto frustrada, ao volante, mesmo que não lançasse mais qualquer olhar à sobrinha.
Fui cumprimentar o homem que cantava aquela bela canção, não muito longe de onde estávamos. - May observava a paisagem que corria através do vidro do carro, tentando relembrar como era aquela melodia tão encantadora.
Pare de brincadeiras, menina! - A tia pareceu ficar ainda mais irritada. - Eu não ouvi canção alguma.
Sua vestimenta era da cor tradicional para a ocasião. Um vestido negro sem muitos detalhes lhe cobria até as canelas, e os pés eram envolvidos por um par de sapatilhas de um tom cinza claro.
Segurava um pequeno lenço branco, este que possuía um delicado bordado em forma de pássaro. Por vezes, a garota o levava até o rosto molhado em tentativas fúteis de secar o choro. Aquele lenço era um presente muito especial, já que a feitora de seu bordado estava agora ao interior de tal caixão.
O padre chegou, cessado com o ritmo de conversas por um breve momento. Todos se levantavam, dando as mãos para fazerem uma pequena prece, enquanto as lágrimas continuavam transbordando dos olhos castanhos da garota. Os outros já tinham desistido de consolá-la, embora ninguém havia sido muito insistente.
Que aquela alma de luz pudesse descansar em paz no paraíso, deixando saudades para aqueles que ficaram.
Terminada a oração costumeira do padre, o caixão fora finalmente lacrado. A jovem lançou um último olhar para o rosto de sua avó, já que depois de tal instante, só poderia revê-lo em lembranças.
Alguns homens pegaram o caixão, levando-o para fora da sala enquanto eram seguidos pelos demais. A menina ainda derramava suas lágrimas mesmo sabendo que um choro não fosse capaz de ressuscitar alguém.
Percorreram um longo caminho por entre as lápides dos mais antigos hóspedes do cemitério, até chegarem a uma cova já a espera para engolir seu novo caixão. Desceram-no com cuidado e os coveiros passavam a cobri-lo com terra. Algumas pessoas ainda se conservavam em silêncio, enquanto outras insistiam em conversar.
A garota estava ali fisicamente, mas em pensamento estava muito longe, no passado, lembrando-se das tardes de sábado que passava com sua avó materna, ocasiões que sempre terminavam com um delicioso bolo de cenoura, e das boas histórias antigas que ouvia antes de ir dormir. Mas também se lembrava de alguns dias anteriores a aquele do presente momento, quando sua avó já estava desacordada sobre a cama do hospital, sem grandes chances de abrir os olhos novamente.
A agonia de se perder alguém tão querido era algo indescritível, de modo que apenas aquela jovem de quinze anos soubesse o quanto seu coração já sufocava em saudades.
O vento parecia receoso, vinha oscilante, apreensivo, gélido, como se estivesse se deixando contagiar pelos sentimentos da menina. Ele fazia com que os compridos cabelos dela se agitassem, e trazia também consigo uma pequena surpresa: uma voz doce, serena, de ressonância perfeita e que, de repente, parecia acalmar o vento de seus medos, este que agora passava a ser uma amena brisa, dançava. Era um homem cantarolando, palavras que tomavam forma em outra língua, aparentemente francês.
Como o vento, a jovem também parecia ser tranquilizada por aquela voz, e de alguma maneira, sentia-se consolada por palavras que nem ao menos sabia o significado. Na verdade, era aquela voz que lhe hipnotizava, que preenchia os espaços vazios deixados pela agonia da perda. A brisa também se demonstrava mais generosa, trazendo calor. Todos estavam em perfeita harmonia: a brisa, o coração pulsante da menina, a voz do rapaz.
Foi movida por uma curiosidade instintiva, afastando-se lentamente daquelas pessoas vestidas de negro. Estar ali não faria a menor diferença. Era então que se deixava guiar por aquele cantar, sentindo-o ficar cada vez mais intenso à medida que se aproximava.
Deparou-se então com um anjo, de asas tão grandes que ocultava parte da luz do sol. Eram asas de pedra, de uma estátua em forma de ser celestial. Encostado a ela se mantinha um homem de sobretudo preto, estava sorrindo e conservava os olhos fechados, enquanto sentia a própria voz soar por entre os lábios pálidos. Seus longos cabelos negros estavam presos por uma fina fita vermelha e acompanhavam a brisa amena, deixando apenas algumas madeixas soltas lhe caindo levemente sobre a face. Era um sujeito muito alto e de rosto afinado. Seu delicado nariz sustentava um pequeno óculos, de lentes redondas e sem hastes.
A jovem estava envolvida demais com tal melodia para recuar. Apenas permaneceu ali, parada durante os instantes seguintes em que o homem terminava sua canção. Veio o silêncio, e a garota pareceu despertar finalmente de seu transe, sentindo um arrepio lhe percorrer a espinha. O rapaz então abriu os olhos, dourados como ouro e cintilantes como uma estrela, repousando-os de imediato sobre a garota que se mantinha a poucos metros de distância. Veio por sorrir ainda mais, sem demonstrar qualquer surpresa por não estar mais sozinho.
A menina corou rapidamente, já que não possuía uma justificativa plausível para estar ali o observando, além da única que lhe era realmente verdadeira. - Achei sua canção linda.
O homem inclinou a cabeça levemente para o lado, dirigindo-lhe agora um olhar bastante gentil.
Muito obrigado, senhorita. - Ele se desencostou da grande estátua, vindo por se curvar diante à garota em um cumprimento cordial. Falava sempre de maneira calma e educada. - A propósito, prazer em conhecê-la, meu nome é Dnieper Ukraynn.
Era uma garota evidentemente tímida, evitando olhar diretamente para aqueles olhos brilhantes do homem, assim, fitava apenas o chão. - Igualmente, me chamo May Beauronne.
O homem voltava para perto da estátua, cruzando os braços enquanto observava a jovem por um breve momento. Passados consideráveis segundos de análise, voltava a se pronunciar da mesma maneira anterior. - Quanto à pessoa que você perdeu... tenho certeza de que ela está em um lugar bem bonito agora.
May, como se chamava a menina, erguia a cabeça com um olhar de surpresa. Por um pequeno instante, havia se esquecido de todo aquele sentimento angustiante do luto. Estranhamente, pôde se sentir mais leve, e se dar conta que sua própria vida não terminava junto com a do ente falecido. - Como você...
Seus olhos estão bem vermelhos. - O rapaz interrompia a pergunta dela já com a resposta, mantendo o sorriso gentil ainda moldado por entre os lábios.
Obrigada... também tenho certeza de que ela está em um lugar muito bonito. - Pela primeira vez em dias, a jovem dava um sorriso, mesmo que amenizado, era doce e verdadeiro. Foi então que ouvira seu próprio nome sendo pronunciado ao longe. Provavelmente o enterro já havia terminado, o que significa hora de partir. Era sua tia chamando, a tutora de May, uma mulher impaciente e sem muita sensibilidade. Deixá-la esperando era um grande problema, sumir sem avisá-la era um pior ainda.
Cuide-se, senhorita. - O homem a cumprimentou novamente, desta vez em despedida. Ela retribuiu, desejando, quem sabe em algum outro dia, poder reencontrá-lo.
Foi se afastando, dando um último aceno tímido para o sujeito. Quis retribuir a simpatia dele, além de se sentir agradecida, já que com tão pouco o tal Dnieper fora capaz de curar pelo menos parte de sua tristeza. Longe da vista do homem, May então se colocou a correr, alcançando a tia que já conservava um olhar de reprovação.
Despediram-se então dos demais que assistiram ao enterro, entrando no carro e assim partindo rumo à residência em que ambas moravam.
O que foi fazer sozinha no meio de um cemitério? - Indagava a tia um tanto frustrada, ao volante, mesmo que não lançasse mais qualquer olhar à sobrinha.
Fui cumprimentar o homem que cantava aquela bela canção, não muito longe de onde estávamos. - May observava a paisagem que corria através do vidro do carro, tentando relembrar como era aquela melodia tão encantadora.
Pare de brincadeiras, menina! - A tia pareceu ficar ainda mais irritada. - Eu não ouvi canção alguma.


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