O despertador se anunciou no horário costumeiro, fazendo com que May abrisse os olhos enquanto se levantava dando um curto bocejo. Sentia-se animada, afinal, o encontro que teria ao início da tarde era sua maior expectativa para aquele dia. Pegou algumas roupas limpas da gaveta, saindo do quarto rumo ao banheiro para tomar seu banho matinal. Cumprimentou sua tia com um adorável “bom dia”. A mulher estranhou um pouco, mas logo pareceu satisfeita ao imaginar que a sobrinha havia tido finalmente uma boa noite de sono. A alegria de May era notável.
Ao interior do banheiro, despia-se, entrando sob a água quente do chuveiro. Ficava a planejar mentalmente alguns assuntos que poderia citar com Dnieper, que roupa iria vestir, além de tentar imaginar para onde seria levada por ele. Mas é claro, também não se esquecia de seus receios e dúvida que, segundo Ukraynn, seriam todos resolvidos naquela mesma tarde.
Ficou tão perdida entre pensamentos que sua tia viera lhe cobrar o término do banho que já havia demorando demais. Assim desligou o chuveiro, colocando suas roupas limpas, peças bastante simples para ficar mais a vontade dentro da própria casa.
Foi à cozinha tomar o café da manhã, fazendo-o de um modo meio apressado. Conversava um pouco sua tia e a informava que iria sair depois do almoço. Por May nunca possuir tal costume, a mulher estranhou. - E para onde você vai?
Mastigar o pão fora a deixa que encontrara para tardar a responder, nem mesmo May sabia para onde iria. - Vou dar um passeio. - Claro que também não poderia dizer que iria se encontrar com um homem que havia conversado pouquíssimas vezes.
A tia mais nada disse. Afinal, achava que um passeio pudesse fazer bem à jovem. - Apenas volte antes de escurecer.
May concordou com a cabeça. Realmente não pretendia demorar tanto assim para voltar. Talvez fosse melhor apenas esclarecer suas dúvidas e já voltar para a casa. Enfim, nada mais comentou com aquele assunto. Terminado o café, a jovem foi lavar a louça, ajudando também a tia fazer o almoço.
Conforme as horas iam se passando, May ficava mais e mais ansiosa. Também almoçou de maneira mais ágil que normalmente, correndo para o quarto se arrumar. Estava bastante indecisa quanto ao que vestir, retirando várias peças de seu guarda-roupa, colocando-as uma por vez sobre o próprio corpo para ter uma idéia de como ficaria. Por fim, optou por um vestido bege, bastante delicado e meio curto, com finas rendas que iam até um pouco acima de seus joelhos. Para esconder as pernas, até então expostas, colocava uma meia branca, comprida e semitransparente, deixando combinar perfeitamente com o sapato também branco que possuía um laço cor de areia como um único detalhe sutil. De acessórios, colocou apenas uma pulseira simples e um colar com pingente de cruz, presenteado por sua amada avó. Também deixava os cabelos levemente presos por uma tiara de mesmo tom do vestido, dando um toque final. Por último se maquiava, contornando os olhos castanhos de preto, pintando as bochechas de um tom avermelhado, além do batom caramelo que deixou seus lábios levemente brilhantes. Colocava a alça da bolsa sobre um dos ombros, lançando um último olhar de análise para o próprio visual.
Era difícil se lembrar qual havia sido a última vez em que se arrumara de maneira tão caprichada. Tinha sido em sua formatura do ginásio. Perfumou-se, terminando finalmente com sua produção. Estava linda, com uma aparência de boneca. Saiu do quarto e foi se despedir de sua tia, prometendo novamente voltar antes do anoitecer. Pegou as chaves, saindo pelo portão e o trancando, desta vez não era preciso pulá-lo.
Colocou as chaves ao interior da bolsa, subindo pela rua em direção àquela mureta na qual havia encontrado com Dnieper durante a madrugada. E lá estava ele, parado no mesmo lugar, de olhos fechados de modo que aproveitasse melhor a brisa do início da tarde. A rua estava um tanto movimentada, o que dava a May ainda mais segurança. Respirou fundo e foi até ele, cumprimentando-o com um simpático “Boa tarde, Dnieper”. Estava estranhamente se sentindo feliz em vê-lo, tendo as bochechas um pouco mais avermelhadas do que havia maquiado.
Boa tarde, senhorita Beauronne - Ele abriu os olhos ao ouvir a jovem lhe dirigir a palavra, assim retribuindo a sorrir para ela de um modo bastante gentil.
Pode me chamar apenas de May. - Realmente iria se sentir desconfortável caso pudesse chamá-lo pelo primeiro nome e ele não fizesse o mesmo, apenas por formalidade.
Gostaria de já irmos? - Ele desencostou da parede, mesmo que aguardasse pela decisão da jovem.
Sim, tenho que voltar antes do anoitecer.
Claro, creio que não iremos demorar. - Dnieper então iniciou seus próprios passos pela rua, em um caminho oposto da qual ficava a casa de May. Esperava ser logo acompanhado por ela.
Assim foi feito pela garota, seguindo-o embora ficasse um pouco atrás dele enquanto se deixava guiar. Corava um pouco mais ao imaginar se Dnieper havia a achado bonita. Aos poucos, a jovem ia criando um pouco mais de coragem para encará-lo. Ele parecia um tanto distraído com o caminho que seguiam, assim aparentemente sem notar que estava sendo observado por May.
Achava curioso o fato do homem não possuir uma única marca sequer no rosto, além de seus olhos serem dourados, algo que deixava a jovem ainda mais intrigada. Até às vezes anteriores, achou que ele usava alguma espécie de lente, mas agora observando mais atentamente, ficara na dúvida. Assim caminharam por várias ruas, em silêncio.
Estamos quase chegando. - Dnieper virava com o rosto para a jovem por fim, fazendo-a despertar de todos os seus pensamentos. May desviava rapidamente o olhar em uma fútil tentativa de disfarçar o que estava fazendo até então. O homem de nada pareceu perceber.
Ah, tudo bem. - Não dizia mais nada por timidez, dando apenas continuidade a seus passos.
Viraram mais algumas ruas e o caminho começava a se tornar um tanto familiar para May. Já começava a sentir o coração bater de maneira um pouco mais intensa apenas por cogitar a possibilidade de estarem indo a um certo lugar, já visitado pela jovem alguns dias atrás. Seria mesmo possível? Andaram por mais um quarteirão e viraram à esquerda.
Chegamos. - O mais alto parou, sorrindo para a jovem de um jeito estranhamente inocente, como se não notasse a expressão de espanto que May agora conservava. Estavam em frente ao hospital em que falecera sua avó.
O que viemos fazer aqui? - Ela olhou para Dnieper, indagando com certo temor. Não queria entrar naquele lugar, já que somente do lado de fora era capaz de sentir como se uma aura ruim lhe rodeasse. Não gostava de hospitais, ainda mais de um designado somente a pessoas que sofriam vítimas do câncer, local da morte de sua avó.
Pensei que queria respostas May. - O homem retribuiu ao olhar, mas agora de um jeito que parecesse preocupado com o incômodo que a jovem apresentava. - Mas se você não se sentir bem com isso...
Não, está tudo bem. - Interrompeu-o sem nem ao menos antes refletir sobre aquilo. Havia ido lá para obter suas respostas de fato, e achou que não iria se perdoar caso renegasse sua própria decisão. Provavelmente se viesse por se render naquele momento, um terrível pesadelo estaria a esperando de noite. - Vamos.
Dnieper apenas voltou a sorrir, concordando com a cabeça. Seguia então pela entrada do hospital, mais uma vez esperando ser seguido por May. Ela respirava fundo e ia logo atrás dele.
De fato, não deveria haver um lugar melhor para se obter respostas sobre a morte de sua avó do que o próprio local de seu falecimento. Porém, não havia como Dnieper saber sobre aquilo, pelo menos até onde May podia supor. Talvez fosse apenas uma coincidência.
Você pode me fazer um favor, May? - O homem mais uma vez se voltava para a pequenina, esperando uma resposta positiva dela para poder então prosseguir com sua fala. - Diga à recepcionista que você visitará o quarto de número 27, da paciente Anna Alsteran. Estarei te esperando no corredor, sim?
Desta vez sem aguardar por uma resposta, Dnieper partia em direção o extenso corredor enquanto May permanecia imóvel por um instante. Não entendera bem aquilo, e não fazia idéia de quem era a tal de Anna Alsteran, porém, achou melhor fazer como ele lhe havia dito. Foi até a recepcionista e passou a ela as informações. Esta então a olhou com bastante surpresa.
Que bom que alguém decidiu vir visitá-la. Ela não recebe ninguém há meses. - A recepcionista também não pareceu muito interessada em saber se a jovem era algum parente ou apenas conhecida da paciente Anna. Pelo jeito que ela falava dava a entender até mesmo que qualquer visita já era mais do que válido.
Recebeu um crachá de visitante, juntamente com informações de como chegar ao quarto. May agradeceu e se virou, seguindo então a caminho do corredor. Ficou se perguntando por que Dnieper também não pegara um crachá. Sua avó havia ficado no quarto de número 6, de modo que para May as coincidências pareciam ter acabado. Avistou seu guia já no meio do corredor.
Ukraynn havia parado de andar e sorria para May enquanto ela se aproximava. Era então que o homem era surpreendido por três crianças que vinham correndo, pulando nele por entre vários risos. Ele se fazia de surpreendido, logo vindo por rir com elas de maneira animada. - Oh, olá! Como vão vocês?
Dnie, que saudades! Você demorou para vir nos visitar! - Dizia uma das meninas fazendo uma cara manhosa, enquanto puxava de leve o tecido do sobretudo de Dnieper.
As três crianças vestiam uma roupa hospitalar azul claro. Eram magras e pareciam não possuir um único pêlo no corpo, de modo que não tivessem cabelos, cílios ou sobrancelhas. De suas peles um tanto pálidas, apenas se destacavam alguns vermelhões que mais pareciam queimaduras. Ver tais crianças naquelas condições fez com que May sentisse seu coração sendo esmagado por uma angustia muito intensa, a sensação de pena.
Ah, peço desculpas de joelhos! - Levando as palavras ao sentido literal, Dnieper vinha por se ajoelhar de modo que diminuísse a própria altura perante as crianças embora ainda ficasse consideravelmente maior que elas. - Podem me perdoar?
Bobo, é claro que sim. - A outra menina, um pouco menor do que a primeira, falava enquanto chacoalhava Dnieper de leve. Vinha por rir acompanhada pelas outras duas crianças e também pelo homem.
Você sabe que nós entendemos Dnie. Mas venha um dia cantar para nós, por favor! - Desta vez quem se pronunciava era o menino, ainda menor que as duas outras garotas. Dnieper apenas voltou a sorrir. May permanecia vidrada naquela cena, que era comovente e bela demais.
Vinha então uma enfermeira, chamando pelos pequeninos. Ela se aproximava e pegava uma das crianças pela mão. - Vamos. Vocês precisam se alimentar.
Até mais, Dnie! - As três crianças pareceram falar juntas, acenando para ele com carinho. A enfermeira não dirigia um único olhar para o homem que ainda se mantinha ajoelhado, o que foi julgado por May total indelicadeza por parte daquela mulher. Como alguém poderia ignorar uma atitude tão linda e gentil como aquela?
A enfermeira passou então por May dando um suave suspiro, cumprimentando somente a ela. Seguia pelo caminho levando as crianças até virar para outro corredor.
Vamos então? - Dnieper se levantava ainda sorrindo. Não parecia ter se incomodado pela falta de gentileza da enfermeira.
A jovem concordou, aproximando então do mais alto. - Olhe, sua atitude foi muito bonita. Aquelas crianças parecem mesmo gostar de você. - Queria compensar aquela situação, mostrando a Dnieper que seu gesto para com as crianças era realmente digno de admiração. Achava que se todas as pessoas tratassem as vítimas de uma doença tão terrível com tanto carinho como ele demonstrara por aquelas crianças, o mundo com certeza seria muito melhor. Nem mesmo May se sentia capaz de demonstrar tanto afeto por qualquer um dos pacientes daquele hospital, com exceção de sua falecia avó. Talvez a comoção lhe impedisse de ser forte o suficiente para tratar aquelas vítimas de um destino cruel do mesmo jeito que trataria qualquer pessoa sadia.
Ficou lisonjeado, May. - Demonstrava-se de fato muito agradecido, seguindo pelo corredor até o quarto número 27. - Poderia abrir a porta para mim, por gentileza?
A garota apenas o fez, sem muito refletir o porquê daquele pedido. Abriu a porta e assim deixou com que Dnieper entrasse primeiro, seguindo-o então mesmo que um tanto sem jeito. Permanecia atrás dele, voltando logo a fechar a porta.
Boa tarde Anna. - Dnieper voltava a falar de um modo sereno, dirigindo o olhar para a única cama não vazia daquele quarto.
Eis que May dirigia um primeiro olhar para a aquela com quem o homem dirigira a palavra. Havia uma senhora negra sobre a cama, deitada e coberta até o peito com um lençol. Parecia muito fraca, e custava para virar um pouco a cabeça para olhar seus visitantes. Quase toda a sua cabeça estava enfaixada, ocultando também seu olho esquerdo, apenas o direto permanecia exposto. Pela aparência, May julgaria que aquela mulher deveria ter por volta de seus 90 anos. Porém, logo também supôs que ela não deveria ser tão velha assim. Provavelmente era apenas mais uma consequência daquela doença.
Quando o único olho da senhora fitou Dnieper, os lábios dela se esforçavam para se contorcerem em um sorriso. O rosto dela era cheio de imperfeições. - Olá, meu querido - A voz de Anna também soava com esforço, quase em um suspiro.
Como a senhora está? - Dnieper inclinou levemente com a cabeça para o lado, mantendo sempre a expressão gentil.
Sinto a vida cada vez mais deixar o meu corpo. - A mulher parecia sorrir ainda mais, falando de maneira um tanto pausada. - Confesso que estou ansiosa.
Ukraynn apenas manteve a mesma expressão, enquanto May pareceu ficar muito surpreendida com tal comentário feito pela senhora. Ela estava... ansiosa para morrer?
Anna, quero que conheça uma pessoa. - Dnieper saiu da frente de May, deixando-a agora a vista da paciente. A garota pareceu ficar um pouco tímida, mas a cumprimentou com um “olá” mais gentil que lhe fosse capaz naquele momento. Assim o homem prosseguia com as apresentações. - O nome dela é May.
Prazer em conhecê-la May... Eu me chamo Anna. - A senhora ergueu de maneira lenta uma das mãos em direção a jovem, mas logo se deteve, voltando a repousá-la sobre a cama.
O prazer é todo meu. - May vinha por sorrir para ela, demonstrando uma felicidade sincera em também conhecê-la.
Muito cuidado menininha... Esse garanhão ao seu lado aí não é nada fácil. - Dizia Anna, voltando com o olhar para Dnieper.
Oh, não diga algo assim Anna! Eu fico realmente muito sem jeito. - Ele vinha por rir, mas quem parecia de fato ficar sem jeito com tal comentário era May, que sentia as bochechas ficaram totalmente rosadas.
A senhora também vinha por rir, mas logo se interrompia pelo iniciar de uma sequência de próprias tosses. Virava-se levemente para o lado, parecendo se contorcer enquanto gemia. Parecia começar a ter também uma crise de dor. May sentiu o coração disparar com tal cena, sem saber o que fazer para acudir a mulher. Virava o rosto para Dnieper que apenas havia fechado os olhos e conservava um sorriso por entre os lábios, mesmo que amenizado.
Dnie... você... - Dizia a mulher entre suspiros e tossidos secos. - ... cantaria para mim?
Ele abriu os olhos dourados que pareciam mais brilhantes do que de costume, pareciam agora fixos na mulher que se contorcia, embora viesse a falar primeiramente apenas com a menina. - May, você poderia chamar as enfermeiras enquanto isso?
A garota se aproximou do botão vermelho que ficava mais próximo, indo apertá-lo para solicitar auxílio médico, quando fora interrompida pela voz de Dnieper que soava mais uma vez. - Não. Chame-as pessoalmente, por favor.
May lhe dirigiu um olhar muito surpreso, sem compreender qual a necessidade de perder tempo indo pedir socorro às enfermeiras pessoalmente quando o botão de emergência estava bem ali. Ficou parada por um instante, refletindo, mas enfim optou por seguir o comando de Dnieper que, no conceito de May, deveria saber muito bem o que estava fazendo. Ela concordou com a cabeça e saiu do quarto, deixando a porta aberta. Passava então a correr pelo corredor.
Era então que Dnieper começava a cantar, deixando sua voz transpassar através de seus lábios em uma melodia suave, pronunciando novamente palavras que May não era capaz de compreender. Seu recitar parecia ecoar por cada canto daquele vasto corredor, aumentando a entonação de sua voz conforme cada passo que a jovem dava desesperada em busca das enfermeiras.
Conforme corria, sentia a canção de Dnieper ficar um pouco mais baixa, embora ainda fosse perfeitamente capaz de se deixar invadir por aquele recitar. Virou para outro corredor, sem saber para onde ir. Havia ficado perdida ao interior daquele hospital em meio à pressa de pedir ajuda. Continuava a correr. Era então que ouvia uma das enfermeiras pronunciar a palavra “Dnie”.
Estavam três delas reunidas em um ambiente que parecia uma cozinha, tomando café enquanto conversaram. May foi lhes informar o que estava acontecendo no quarto 27, mas se encolheu para fora do cômodo, mantendo-se então do lado da porta.
Ouvi as crianças dizerem este nome de novo, acreditam? Não é a primeira vez. - Quem falava era a mesma enfermeira que viera buscar os pequeninos.
Realmente, muitos pacientes dizem que já receberam uma visita dele, e todos o descrevem exatamente da mesma maneira. - Dizia sua outra companheira de serviço, mantendo o ritmo da conversa.
Creio que os remédios estejam fazendo com que os pacientes acreditem em tudo que ouvem por aí, de modo que isso deva ser apenas um boato que se espalhou... Ou é algum tipo de assombração! - A terceira enfermeira se pronunciava e assim as três passavam a rir.
O que vocês estão dizendo? - Era May quem falava desta vez. Quando se deu conta, já havia entrado na cozinha e indagado que tipo de piada era aquela. Realmente não fazia sentindo algum. Olhava-as incrédulas, e as enfermeiras a fitavam mais incrédulas ainda. Enfim, May balançou a cabeça, aquilo não importava afinal. Nem deveria ter perdido tempo com aquilo, já que Anna precisava de auxílio médico urgente. - A senhora do quarto 27 está passando muito mal.
Somente uma das enfermeiras se levantou, enquanto as outras duas permaneceram juntas aos seus cafés. - Eu vou ver.
Partiram então rumo ao quarto de Anna, embora May parecesse ter passos muito mais apressados do que a enfermeira. No meio do percurso, a jovem ouvia Dnieper finalizar com sua canção. Demoraram poucos instantes para chegarem ao cômodo 27.
May entrou primeiro, fazendo apenas uma pequena curva já que a porta do quarto se encontrava aberta. Viu Dnieper imóvel no mesmo lugar em que estava antes da garota deixar o quarto. Ele estava de olhos fixos em Anna, e sorria.
Ao virar o rosto para a cama, May tombou levemente para trás, sendo obrigada a parar ali mesmo onde estava, perto a porta. Já a enfermeira corria para a senhora, esta que estava com o pescoço completamente dobrado para o lado e seu único olho exposto, quase que virado para trás. Estava morta. A enfermeira passava a apertar o botão de emergência inúmeras vezes.
May muito abalada começou a chorar, dirigindo um olhar assustado para Dnieper. O que ele havia feito com ela? Teria pedido para May sair do quarto de propósito?
Apertar o botão de emergência não faria diferença. - Dizia Dnieper voltando com seu modo de falar sereno, como se tivesse adivinhado os pensamentos da jovem embora ainda continuasse com o olhar fixo sobre a cama onde se encontrava o corpo da senhora. - Agora olhe.
A garota voltou então com os olhos também para a cama, vendo uma espécie de esfera de luz sair de sobre aquele corpo velho, lentamente. Era branca e possuía um brilho muito forte, passando a pairar sobre ar e assim deixava a enfermeira para trás. Por onde passava um contorno cintilante permanecia. Algumas enfermeiras entraram no quarto esbarrando em May, mas a garota se mantinha imóvel, de olhos vidrados a aquela esfera luminosa que agora ia na direção de Dnieper.
Quando tal luz chegou bem próxima a ele, o homem a tocava de maneira bastante delicada apenas com o dedo indicador, parecendo começar a sorrir ainda mais. Lentamente, aquela esfera de luz foi tomando a forma de uma silhueta humana, que pairava sobre o chão, como se flutuasse, ficando um pouco mais acima que Ukraynn. Aos poucos o brilho foi baixando, e May era capaz de ver uma moça ali, parada em frente a Dnieper.
Ela era negra, e vestia um vestido verde muito bonito que lhe cobria também os pés. Possuía cabelos cacheados e volumosos que iam até seus ombros. A mulher sorria, levando uma das mãos de encontro a que havia sido tocada por Dnieper, entrelaçando seus dedos aos do homem. Ela levava devagar o próprio rosto da direção do dele, e assim ambos fechavam os olhos, May sentiu o coração disparar.
A bela negra dava em Dnieper um carinhoso beijo sobre a bochecha que pareceu persistir durante consideráveis segundos. Era então que ela dizia algo ao seu ouvido sem cochichar, de modo que May também fosse capaz de ouvir. - Não adianta deixar de mentir para os outros, se você continua a mentir para si mesmo.
O homem perdeu o sorriso no mesmo instante, abrindo os olhos que agora conservavam um olhar perdido. May ficou a imaginar porque tais palavras ditas pela mulher tinham abalado Dnieper de tal modo. Porém, depois de alguns segundos, ele voltou a sorrir de maneira bondosa, fechando os olhos mais uma vez. - Obrigado, Anna.
A negra então se desencostou dele se voltando para May, esta que ainda permanecia vidrada com tal cena. Dnieper havia a chamado de Anna, deixando a jovem completamente confusa. Poderia aquele ser o espírito daquela senhora que a pouco havia falecido? Era como um sonho, inacreditável demais para ser real.
Morrer é apenas um novo começo, e a sensação é de extrema paz. - Dizia a negra de um modo gentil, dirigindo a garota um olhar encantador.
May ouviu as palavras dela com atenção, refletindo e logo lhe dando um aceno positivo com a cabeça. Vinha também por sorrir, enxugando as lágrimas que por vezes ainda deslizavam por seu rosto, deixando a maquiagem de seus olhos levemente borrada. - Muito obrigada.
A mulher apenas dirigiu um último olhar carinhoso para ambos, e assim voltava lentamente para a sua forma original de esfera e brilhando intensamente mais uma vez, desaparecendo até sua luz não poder ser mais vista. Dnieper lentamente abaixava a própria mão que, até então, permanecia junto a do espírito. As enfermeiras puxaram a cama para fora do quarto, levando-o as pressas pelo corredor.
Vamos embora? - Dizia Dnieper enquanto se aproximava da jovem e assim logo saia do quarto.
Sim. - May concordou, afinal, não havia mais o que ser feito ali. Seguiu Dnieper até a saída do hospital, não sabendo ao certo o que comentar sobre o momento que acabava de presenciar. Tudo aquilo parecia para ela ainda inacreditável demais. - Eu... nunca havia visto nada parecido antes.
Foi uma boa experiência? - O homem seguia pelo mesmo caminho no qual tinham vindo, provavelmente já pretendendo acompanhar May até em casa também, embora ainda faltasse bastante tempo para o anoitecer.
Foi única. - A jovem sentiu o interior do peito ser invadido por uma estranha alegria. Aquele espírito realmente parecia muito feliz, e May achou que havia se deixado contagiar por tal sentimento. – Ela era muito bonita.
Era sim. - O homem mantinha o ritmo costumeiro de seus passos, tendo sempre a mesma expressão adorável estampada sobre a face.
Andaram mais alguns quarteirões agora em silêncio, chegando até a mureta que cercava aquelas belas árvores que agora brilhavam sob a luz do sol. Não tinha quase ninguém perambulando pelas ruas naquele momento, de modo que May e Dnieper ficassem de certa maneira sozinhos. Eis então que a jovem passou a cogitar uma possibilidade. Dnieper parecia visitar aquele hospital com bastante frequência, o mesmo que sua avó ficara como paciente durante algumas semanas atrás. Seria possível que ele...!? - Dnieper...
Sim? - O mais alto virava um pouco o rosto para May, esperando que ela voltasse a se pronunciar.
Você conheceu a minha avó?
O homem parou de andar, a garota fez o mesmo. Dnieper se virou para ela, olhando-a de um modo muito gentil, mais uma vez dando aquela entonação serena a própria voz. – Ela costumava contar sobre sua neta encantadora, meiga, e às vezes um pouco tímida também. Disse que a cada dia que se passava a via crescer mais bela e forte. Apenas sentia por não poder estar aqui fisicamente, quando esta menina se tornasse uma grande mulher.
May ouvia as palavras dele, sentindo os olhos novamente se encherem de lágrimas. Foi se aproximando do sujeito lentamente, vindo por abraçá-lo enquanto escondia o rosto choroso sobre um pouco abaixo do peito dele.
Ela te amava muito May. - Dnieper não parecia surpreso, ou incomodado por tal abraço repentino por parte da menina. Levava uma das mãos até os cabelos dela, afagando-os de leve como se tentasse confortá-la de alguma maneira. - Não tenha dúvidas de que ela está rogando por você lá do céu.
A jovem chorava baixinho, agarrando-se ao sobretudo do homem. Ficava daquela maneira durante alguns instantes, até resolver se pronunciar mesmo tendo agora uma voz trêmula. - Ela morreu sorrindo? Assim como Anna?
Ela morreu com um dos sorrisos mais belos que eu já vi. - Continuava a lhe acariciar os cabelos gentilmente.
Era por isso que você cantava francês no dia do velório dela... - May levava uma das mãos ao rosto, tentando impedir com que as próprias lágrimas continuassem a deslizar por sua face. - Minha avó era francesa.
Dnieper apenas concordou suavemente com a cabeça, mantendo-se da mesma maneira enquanto esperava com que a jovem viesse por se afastar por conta própria. Assim era feito por ela após mais alguns minutos, largando por fim o sobretudo do homem. Ele também se afastava, deixando de tocar os cabelos de May. - Está brava comigo por não ter te contado antes?
Não, não estou. - A garota se recompôs, secando as lágrimas e logo esboçou também um carinhoso sorriso para o mais alto. Não havia por que e nem como ficar brava com ele. Achou que todas as surpresas fizeram parte das valiosas lições que havia aprendido naquela tarde. - Muito obrigada.
Voltaram então a seguir pelo caminho, descendo a rua até a casa de May, sem abordarem mais qualquer assunto. A menina ficava a relembrar tal visão que tivera daquele espírito, tão lindo e sorridente, exalando uma pureza estonteante. Eis então que lhe surgia uma pequena curiosidade, embora de inicio receasse em perguntá-la para o homem que seguia pelo caminho, um pouco mais a frente que ela. Estufou o peito em coragem, assim o chamando pelo nome logo seguindo com sua pergunta. - Dnieper... por que você...
Eu disse que não demoraríamos muito, não disse? - Ele parava em frente ao pequeno portão da casa de May, voltando-se para ela com sua expressão de bondade rotineira.
A jovem o fitou por um instante, imaginando que ele a havia cortado de propósito, como se aquilo já fosse até um costume. Mesmo assim, insistiu com a pergunta. - Por que você não pode mentir?
Dnieper retribuiu ao olhar de May, não parecendo surpreso. Mantinha o sorriso. Ele apenas tardoue em lhe responder, como se refltisse por um instante quais seriam as palavras certas para se pronunciar. Mas a menina só o indagava para descobrir se aquilo era mesmo verídico, afinal, se Dnieper não pudesse mentir, também não poderia o fazer quanto àquela pergunta.
...É por causa disso. - Palavras mesmo, o homem pouco dizia. Puxou de leve a manga do próprio sobretudo e da camisa do punho direito, revelando à jovem que seu pulso continha uma profunda cicatriz na horizontal, como se tivesse sofrido um corte muito intenso no passado.
Sem saber o que comentar, a garota apenas corou, sentindo um pouco de vergonha de si mesma por ter feito uma pergunta apenas para satisfazer sua própria curiosidade, e que levasse uma resposta tão pessoal de Dnieper. - Me perdoe, por favor. Eu... não fazia idéia.
Está tudo bem, May. - O mais alto deixava com que as mangas lhe caíssem novamente sobre o pulso, voltando a ocultar sua cicatriz. Ele realmente não parecia abalado, mas já vinha por se despedir. - Tenha um bom fim de tarde, sim?
P-para você também... - Ela continuava sem jeito e envergonhada. Se houvesse algo que pudesse fazer para reparar aquela indelicadeza... Além se sentir em dívida com ele. Na verdade, nem sabia por onde começar a agradecê-lo. - Dnieper... muito obrigada por tudo. Na verdade, eu gostaria de lhe retribuir de alguma forma.
Ele sorriu ainda mais, e seus olhos dourados pareciam cintilar. - Na verdade, há algo bastante simples que você possa fazer por mim. Mas ficará para outro dia, se estiver mesmo disposta, serei eternamente grato.
May concordou com a cabeça, não ousando mais fazer qualquer outra pergunta, ainda um pouco receosa de lhe fazer mais alguma indelicada. - Você já sabe onde eu moro, pode vir me visitar quando quiser. - Ela voltou a ficar com as bochechas vermelhas, retirando as chaves da pequena bolsa para disfarçar. Destrancou o portão, adentrando em seu jardim. - E mais uma vez, obrigada por tudo. Até logo. - Dnieper se despediu também com um "até logo", e May lhe dava um último aceno, entrando para dentro de casa. Sorria para ele de maneira meiga, e assim o viu partir.
Agora ao interior da própria casa, cumprimentava sua tia que subia para o quarto, jogando-se na cama enquanto vinha por abraçar o próprio travesseiro. Estava muito feliz e satisfeita com o dia que tivera, em uma experiência que com certeza jamais iria se esquecer. Imaginou sua avó sorrindo para ela do céu e como seria seu próprio encontro com Dnieper, que aliás já estava ansiosa por ele.
Ao interior do banheiro, despia-se, entrando sob a água quente do chuveiro. Ficava a planejar mentalmente alguns assuntos que poderia citar com Dnieper, que roupa iria vestir, além de tentar imaginar para onde seria levada por ele. Mas é claro, também não se esquecia de seus receios e dúvida que, segundo Ukraynn, seriam todos resolvidos naquela mesma tarde.
Ficou tão perdida entre pensamentos que sua tia viera lhe cobrar o término do banho que já havia demorando demais. Assim desligou o chuveiro, colocando suas roupas limpas, peças bastante simples para ficar mais a vontade dentro da própria casa.
Foi à cozinha tomar o café da manhã, fazendo-o de um modo meio apressado. Conversava um pouco sua tia e a informava que iria sair depois do almoço. Por May nunca possuir tal costume, a mulher estranhou. - E para onde você vai?
Mastigar o pão fora a deixa que encontrara para tardar a responder, nem mesmo May sabia para onde iria. - Vou dar um passeio. - Claro que também não poderia dizer que iria se encontrar com um homem que havia conversado pouquíssimas vezes.
A tia mais nada disse. Afinal, achava que um passeio pudesse fazer bem à jovem. - Apenas volte antes de escurecer.
May concordou com a cabeça. Realmente não pretendia demorar tanto assim para voltar. Talvez fosse melhor apenas esclarecer suas dúvidas e já voltar para a casa. Enfim, nada mais comentou com aquele assunto. Terminado o café, a jovem foi lavar a louça, ajudando também a tia fazer o almoço.
Conforme as horas iam se passando, May ficava mais e mais ansiosa. Também almoçou de maneira mais ágil que normalmente, correndo para o quarto se arrumar. Estava bastante indecisa quanto ao que vestir, retirando várias peças de seu guarda-roupa, colocando-as uma por vez sobre o próprio corpo para ter uma idéia de como ficaria. Por fim, optou por um vestido bege, bastante delicado e meio curto, com finas rendas que iam até um pouco acima de seus joelhos. Para esconder as pernas, até então expostas, colocava uma meia branca, comprida e semitransparente, deixando combinar perfeitamente com o sapato também branco que possuía um laço cor de areia como um único detalhe sutil. De acessórios, colocou apenas uma pulseira simples e um colar com pingente de cruz, presenteado por sua amada avó. Também deixava os cabelos levemente presos por uma tiara de mesmo tom do vestido, dando um toque final. Por último se maquiava, contornando os olhos castanhos de preto, pintando as bochechas de um tom avermelhado, além do batom caramelo que deixou seus lábios levemente brilhantes. Colocava a alça da bolsa sobre um dos ombros, lançando um último olhar de análise para o próprio visual.
Era difícil se lembrar qual havia sido a última vez em que se arrumara de maneira tão caprichada. Tinha sido em sua formatura do ginásio. Perfumou-se, terminando finalmente com sua produção. Estava linda, com uma aparência de boneca. Saiu do quarto e foi se despedir de sua tia, prometendo novamente voltar antes do anoitecer. Pegou as chaves, saindo pelo portão e o trancando, desta vez não era preciso pulá-lo.
Colocou as chaves ao interior da bolsa, subindo pela rua em direção àquela mureta na qual havia encontrado com Dnieper durante a madrugada. E lá estava ele, parado no mesmo lugar, de olhos fechados de modo que aproveitasse melhor a brisa do início da tarde. A rua estava um tanto movimentada, o que dava a May ainda mais segurança. Respirou fundo e foi até ele, cumprimentando-o com um simpático “Boa tarde, Dnieper”. Estava estranhamente se sentindo feliz em vê-lo, tendo as bochechas um pouco mais avermelhadas do que havia maquiado.
Boa tarde, senhorita Beauronne - Ele abriu os olhos ao ouvir a jovem lhe dirigir a palavra, assim retribuindo a sorrir para ela de um modo bastante gentil.
Pode me chamar apenas de May. - Realmente iria se sentir desconfortável caso pudesse chamá-lo pelo primeiro nome e ele não fizesse o mesmo, apenas por formalidade.
Gostaria de já irmos? - Ele desencostou da parede, mesmo que aguardasse pela decisão da jovem.
Sim, tenho que voltar antes do anoitecer.
Claro, creio que não iremos demorar. - Dnieper então iniciou seus próprios passos pela rua, em um caminho oposto da qual ficava a casa de May. Esperava ser logo acompanhado por ela.
Assim foi feito pela garota, seguindo-o embora ficasse um pouco atrás dele enquanto se deixava guiar. Corava um pouco mais ao imaginar se Dnieper havia a achado bonita. Aos poucos, a jovem ia criando um pouco mais de coragem para encará-lo. Ele parecia um tanto distraído com o caminho que seguiam, assim aparentemente sem notar que estava sendo observado por May.
Achava curioso o fato do homem não possuir uma única marca sequer no rosto, além de seus olhos serem dourados, algo que deixava a jovem ainda mais intrigada. Até às vezes anteriores, achou que ele usava alguma espécie de lente, mas agora observando mais atentamente, ficara na dúvida. Assim caminharam por várias ruas, em silêncio.
Estamos quase chegando. - Dnieper virava com o rosto para a jovem por fim, fazendo-a despertar de todos os seus pensamentos. May desviava rapidamente o olhar em uma fútil tentativa de disfarçar o que estava fazendo até então. O homem de nada pareceu perceber.
Ah, tudo bem. - Não dizia mais nada por timidez, dando apenas continuidade a seus passos.
Viraram mais algumas ruas e o caminho começava a se tornar um tanto familiar para May. Já começava a sentir o coração bater de maneira um pouco mais intensa apenas por cogitar a possibilidade de estarem indo a um certo lugar, já visitado pela jovem alguns dias atrás. Seria mesmo possível? Andaram por mais um quarteirão e viraram à esquerda.
Chegamos. - O mais alto parou, sorrindo para a jovem de um jeito estranhamente inocente, como se não notasse a expressão de espanto que May agora conservava. Estavam em frente ao hospital em que falecera sua avó.
O que viemos fazer aqui? - Ela olhou para Dnieper, indagando com certo temor. Não queria entrar naquele lugar, já que somente do lado de fora era capaz de sentir como se uma aura ruim lhe rodeasse. Não gostava de hospitais, ainda mais de um designado somente a pessoas que sofriam vítimas do câncer, local da morte de sua avó.
Pensei que queria respostas May. - O homem retribuiu ao olhar, mas agora de um jeito que parecesse preocupado com o incômodo que a jovem apresentava. - Mas se você não se sentir bem com isso...
Não, está tudo bem. - Interrompeu-o sem nem ao menos antes refletir sobre aquilo. Havia ido lá para obter suas respostas de fato, e achou que não iria se perdoar caso renegasse sua própria decisão. Provavelmente se viesse por se render naquele momento, um terrível pesadelo estaria a esperando de noite. - Vamos.
Dnieper apenas voltou a sorrir, concordando com a cabeça. Seguia então pela entrada do hospital, mais uma vez esperando ser seguido por May. Ela respirava fundo e ia logo atrás dele.
De fato, não deveria haver um lugar melhor para se obter respostas sobre a morte de sua avó do que o próprio local de seu falecimento. Porém, não havia como Dnieper saber sobre aquilo, pelo menos até onde May podia supor. Talvez fosse apenas uma coincidência.
Você pode me fazer um favor, May? - O homem mais uma vez se voltava para a pequenina, esperando uma resposta positiva dela para poder então prosseguir com sua fala. - Diga à recepcionista que você visitará o quarto de número 27, da paciente Anna Alsteran. Estarei te esperando no corredor, sim?
Desta vez sem aguardar por uma resposta, Dnieper partia em direção o extenso corredor enquanto May permanecia imóvel por um instante. Não entendera bem aquilo, e não fazia idéia de quem era a tal de Anna Alsteran, porém, achou melhor fazer como ele lhe havia dito. Foi até a recepcionista e passou a ela as informações. Esta então a olhou com bastante surpresa.
Que bom que alguém decidiu vir visitá-la. Ela não recebe ninguém há meses. - A recepcionista também não pareceu muito interessada em saber se a jovem era algum parente ou apenas conhecida da paciente Anna. Pelo jeito que ela falava dava a entender até mesmo que qualquer visita já era mais do que válido.
Recebeu um crachá de visitante, juntamente com informações de como chegar ao quarto. May agradeceu e se virou, seguindo então a caminho do corredor. Ficou se perguntando por que Dnieper também não pegara um crachá. Sua avó havia ficado no quarto de número 6, de modo que para May as coincidências pareciam ter acabado. Avistou seu guia já no meio do corredor.
Ukraynn havia parado de andar e sorria para May enquanto ela se aproximava. Era então que o homem era surpreendido por três crianças que vinham correndo, pulando nele por entre vários risos. Ele se fazia de surpreendido, logo vindo por rir com elas de maneira animada. - Oh, olá! Como vão vocês?
Dnie, que saudades! Você demorou para vir nos visitar! - Dizia uma das meninas fazendo uma cara manhosa, enquanto puxava de leve o tecido do sobretudo de Dnieper.
As três crianças vestiam uma roupa hospitalar azul claro. Eram magras e pareciam não possuir um único pêlo no corpo, de modo que não tivessem cabelos, cílios ou sobrancelhas. De suas peles um tanto pálidas, apenas se destacavam alguns vermelhões que mais pareciam queimaduras. Ver tais crianças naquelas condições fez com que May sentisse seu coração sendo esmagado por uma angustia muito intensa, a sensação de pena.
Ah, peço desculpas de joelhos! - Levando as palavras ao sentido literal, Dnieper vinha por se ajoelhar de modo que diminuísse a própria altura perante as crianças embora ainda ficasse consideravelmente maior que elas. - Podem me perdoar?
Bobo, é claro que sim. - A outra menina, um pouco menor do que a primeira, falava enquanto chacoalhava Dnieper de leve. Vinha por rir acompanhada pelas outras duas crianças e também pelo homem.
Você sabe que nós entendemos Dnie. Mas venha um dia cantar para nós, por favor! - Desta vez quem se pronunciava era o menino, ainda menor que as duas outras garotas. Dnieper apenas voltou a sorrir. May permanecia vidrada naquela cena, que era comovente e bela demais.
Vinha então uma enfermeira, chamando pelos pequeninos. Ela se aproximava e pegava uma das crianças pela mão. - Vamos. Vocês precisam se alimentar.
Até mais, Dnie! - As três crianças pareceram falar juntas, acenando para ele com carinho. A enfermeira não dirigia um único olhar para o homem que ainda se mantinha ajoelhado, o que foi julgado por May total indelicadeza por parte daquela mulher. Como alguém poderia ignorar uma atitude tão linda e gentil como aquela?
A enfermeira passou então por May dando um suave suspiro, cumprimentando somente a ela. Seguia pelo caminho levando as crianças até virar para outro corredor.
Vamos então? - Dnieper se levantava ainda sorrindo. Não parecia ter se incomodado pela falta de gentileza da enfermeira.
A jovem concordou, aproximando então do mais alto. - Olhe, sua atitude foi muito bonita. Aquelas crianças parecem mesmo gostar de você. - Queria compensar aquela situação, mostrando a Dnieper que seu gesto para com as crianças era realmente digno de admiração. Achava que se todas as pessoas tratassem as vítimas de uma doença tão terrível com tanto carinho como ele demonstrara por aquelas crianças, o mundo com certeza seria muito melhor. Nem mesmo May se sentia capaz de demonstrar tanto afeto por qualquer um dos pacientes daquele hospital, com exceção de sua falecia avó. Talvez a comoção lhe impedisse de ser forte o suficiente para tratar aquelas vítimas de um destino cruel do mesmo jeito que trataria qualquer pessoa sadia.
Ficou lisonjeado, May. - Demonstrava-se de fato muito agradecido, seguindo pelo corredor até o quarto número 27. - Poderia abrir a porta para mim, por gentileza?
A garota apenas o fez, sem muito refletir o porquê daquele pedido. Abriu a porta e assim deixou com que Dnieper entrasse primeiro, seguindo-o então mesmo que um tanto sem jeito. Permanecia atrás dele, voltando logo a fechar a porta.
Boa tarde Anna. - Dnieper voltava a falar de um modo sereno, dirigindo o olhar para a única cama não vazia daquele quarto.
Eis que May dirigia um primeiro olhar para a aquela com quem o homem dirigira a palavra. Havia uma senhora negra sobre a cama, deitada e coberta até o peito com um lençol. Parecia muito fraca, e custava para virar um pouco a cabeça para olhar seus visitantes. Quase toda a sua cabeça estava enfaixada, ocultando também seu olho esquerdo, apenas o direto permanecia exposto. Pela aparência, May julgaria que aquela mulher deveria ter por volta de seus 90 anos. Porém, logo também supôs que ela não deveria ser tão velha assim. Provavelmente era apenas mais uma consequência daquela doença.
Quando o único olho da senhora fitou Dnieper, os lábios dela se esforçavam para se contorcerem em um sorriso. O rosto dela era cheio de imperfeições. - Olá, meu querido - A voz de Anna também soava com esforço, quase em um suspiro.
Como a senhora está? - Dnieper inclinou levemente com a cabeça para o lado, mantendo sempre a expressão gentil.
Sinto a vida cada vez mais deixar o meu corpo. - A mulher parecia sorrir ainda mais, falando de maneira um tanto pausada. - Confesso que estou ansiosa.
Ukraynn apenas manteve a mesma expressão, enquanto May pareceu ficar muito surpreendida com tal comentário feito pela senhora. Ela estava... ansiosa para morrer?
Anna, quero que conheça uma pessoa. - Dnieper saiu da frente de May, deixando-a agora a vista da paciente. A garota pareceu ficar um pouco tímida, mas a cumprimentou com um “olá” mais gentil que lhe fosse capaz naquele momento. Assim o homem prosseguia com as apresentações. - O nome dela é May.
Prazer em conhecê-la May... Eu me chamo Anna. - A senhora ergueu de maneira lenta uma das mãos em direção a jovem, mas logo se deteve, voltando a repousá-la sobre a cama.
O prazer é todo meu. - May vinha por sorrir para ela, demonstrando uma felicidade sincera em também conhecê-la.
Muito cuidado menininha... Esse garanhão ao seu lado aí não é nada fácil. - Dizia Anna, voltando com o olhar para Dnieper.
Oh, não diga algo assim Anna! Eu fico realmente muito sem jeito. - Ele vinha por rir, mas quem parecia de fato ficar sem jeito com tal comentário era May, que sentia as bochechas ficaram totalmente rosadas.
A senhora também vinha por rir, mas logo se interrompia pelo iniciar de uma sequência de próprias tosses. Virava-se levemente para o lado, parecendo se contorcer enquanto gemia. Parecia começar a ter também uma crise de dor. May sentiu o coração disparar com tal cena, sem saber o que fazer para acudir a mulher. Virava o rosto para Dnieper que apenas havia fechado os olhos e conservava um sorriso por entre os lábios, mesmo que amenizado.
Dnie... você... - Dizia a mulher entre suspiros e tossidos secos. - ... cantaria para mim?
Ele abriu os olhos dourados que pareciam mais brilhantes do que de costume, pareciam agora fixos na mulher que se contorcia, embora viesse a falar primeiramente apenas com a menina. - May, você poderia chamar as enfermeiras enquanto isso?
A garota se aproximou do botão vermelho que ficava mais próximo, indo apertá-lo para solicitar auxílio médico, quando fora interrompida pela voz de Dnieper que soava mais uma vez. - Não. Chame-as pessoalmente, por favor.
May lhe dirigiu um olhar muito surpreso, sem compreender qual a necessidade de perder tempo indo pedir socorro às enfermeiras pessoalmente quando o botão de emergência estava bem ali. Ficou parada por um instante, refletindo, mas enfim optou por seguir o comando de Dnieper que, no conceito de May, deveria saber muito bem o que estava fazendo. Ela concordou com a cabeça e saiu do quarto, deixando a porta aberta. Passava então a correr pelo corredor.
Era então que Dnieper começava a cantar, deixando sua voz transpassar através de seus lábios em uma melodia suave, pronunciando novamente palavras que May não era capaz de compreender. Seu recitar parecia ecoar por cada canto daquele vasto corredor, aumentando a entonação de sua voz conforme cada passo que a jovem dava desesperada em busca das enfermeiras.
Conforme corria, sentia a canção de Dnieper ficar um pouco mais baixa, embora ainda fosse perfeitamente capaz de se deixar invadir por aquele recitar. Virou para outro corredor, sem saber para onde ir. Havia ficado perdida ao interior daquele hospital em meio à pressa de pedir ajuda. Continuava a correr. Era então que ouvia uma das enfermeiras pronunciar a palavra “Dnie”.
Estavam três delas reunidas em um ambiente que parecia uma cozinha, tomando café enquanto conversaram. May foi lhes informar o que estava acontecendo no quarto 27, mas se encolheu para fora do cômodo, mantendo-se então do lado da porta.
Ouvi as crianças dizerem este nome de novo, acreditam? Não é a primeira vez. - Quem falava era a mesma enfermeira que viera buscar os pequeninos.
Realmente, muitos pacientes dizem que já receberam uma visita dele, e todos o descrevem exatamente da mesma maneira. - Dizia sua outra companheira de serviço, mantendo o ritmo da conversa.
Creio que os remédios estejam fazendo com que os pacientes acreditem em tudo que ouvem por aí, de modo que isso deva ser apenas um boato que se espalhou... Ou é algum tipo de assombração! - A terceira enfermeira se pronunciava e assim as três passavam a rir.
O que vocês estão dizendo? - Era May quem falava desta vez. Quando se deu conta, já havia entrado na cozinha e indagado que tipo de piada era aquela. Realmente não fazia sentindo algum. Olhava-as incrédulas, e as enfermeiras a fitavam mais incrédulas ainda. Enfim, May balançou a cabeça, aquilo não importava afinal. Nem deveria ter perdido tempo com aquilo, já que Anna precisava de auxílio médico urgente. - A senhora do quarto 27 está passando muito mal.
Somente uma das enfermeiras se levantou, enquanto as outras duas permaneceram juntas aos seus cafés. - Eu vou ver.
Partiram então rumo ao quarto de Anna, embora May parecesse ter passos muito mais apressados do que a enfermeira. No meio do percurso, a jovem ouvia Dnieper finalizar com sua canção. Demoraram poucos instantes para chegarem ao cômodo 27.
May entrou primeiro, fazendo apenas uma pequena curva já que a porta do quarto se encontrava aberta. Viu Dnieper imóvel no mesmo lugar em que estava antes da garota deixar o quarto. Ele estava de olhos fixos em Anna, e sorria.
Ao virar o rosto para a cama, May tombou levemente para trás, sendo obrigada a parar ali mesmo onde estava, perto a porta. Já a enfermeira corria para a senhora, esta que estava com o pescoço completamente dobrado para o lado e seu único olho exposto, quase que virado para trás. Estava morta. A enfermeira passava a apertar o botão de emergência inúmeras vezes.
May muito abalada começou a chorar, dirigindo um olhar assustado para Dnieper. O que ele havia feito com ela? Teria pedido para May sair do quarto de propósito?
Apertar o botão de emergência não faria diferença. - Dizia Dnieper voltando com seu modo de falar sereno, como se tivesse adivinhado os pensamentos da jovem embora ainda continuasse com o olhar fixo sobre a cama onde se encontrava o corpo da senhora. - Agora olhe.
A garota voltou então com os olhos também para a cama, vendo uma espécie de esfera de luz sair de sobre aquele corpo velho, lentamente. Era branca e possuía um brilho muito forte, passando a pairar sobre ar e assim deixava a enfermeira para trás. Por onde passava um contorno cintilante permanecia. Algumas enfermeiras entraram no quarto esbarrando em May, mas a garota se mantinha imóvel, de olhos vidrados a aquela esfera luminosa que agora ia na direção de Dnieper.
Quando tal luz chegou bem próxima a ele, o homem a tocava de maneira bastante delicada apenas com o dedo indicador, parecendo começar a sorrir ainda mais. Lentamente, aquela esfera de luz foi tomando a forma de uma silhueta humana, que pairava sobre o chão, como se flutuasse, ficando um pouco mais acima que Ukraynn. Aos poucos o brilho foi baixando, e May era capaz de ver uma moça ali, parada em frente a Dnieper.
Ela era negra, e vestia um vestido verde muito bonito que lhe cobria também os pés. Possuía cabelos cacheados e volumosos que iam até seus ombros. A mulher sorria, levando uma das mãos de encontro a que havia sido tocada por Dnieper, entrelaçando seus dedos aos do homem. Ela levava devagar o próprio rosto da direção do dele, e assim ambos fechavam os olhos, May sentiu o coração disparar.
A bela negra dava em Dnieper um carinhoso beijo sobre a bochecha que pareceu persistir durante consideráveis segundos. Era então que ela dizia algo ao seu ouvido sem cochichar, de modo que May também fosse capaz de ouvir. - Não adianta deixar de mentir para os outros, se você continua a mentir para si mesmo.
O homem perdeu o sorriso no mesmo instante, abrindo os olhos que agora conservavam um olhar perdido. May ficou a imaginar porque tais palavras ditas pela mulher tinham abalado Dnieper de tal modo. Porém, depois de alguns segundos, ele voltou a sorrir de maneira bondosa, fechando os olhos mais uma vez. - Obrigado, Anna.
A negra então se desencostou dele se voltando para May, esta que ainda permanecia vidrada com tal cena. Dnieper havia a chamado de Anna, deixando a jovem completamente confusa. Poderia aquele ser o espírito daquela senhora que a pouco havia falecido? Era como um sonho, inacreditável demais para ser real.
Morrer é apenas um novo começo, e a sensação é de extrema paz. - Dizia a negra de um modo gentil, dirigindo a garota um olhar encantador.
May ouviu as palavras dela com atenção, refletindo e logo lhe dando um aceno positivo com a cabeça. Vinha também por sorrir, enxugando as lágrimas que por vezes ainda deslizavam por seu rosto, deixando a maquiagem de seus olhos levemente borrada. - Muito obrigada.
A mulher apenas dirigiu um último olhar carinhoso para ambos, e assim voltava lentamente para a sua forma original de esfera e brilhando intensamente mais uma vez, desaparecendo até sua luz não poder ser mais vista. Dnieper lentamente abaixava a própria mão que, até então, permanecia junto a do espírito. As enfermeiras puxaram a cama para fora do quarto, levando-o as pressas pelo corredor.
Vamos embora? - Dizia Dnieper enquanto se aproximava da jovem e assim logo saia do quarto.
Sim. - May concordou, afinal, não havia mais o que ser feito ali. Seguiu Dnieper até a saída do hospital, não sabendo ao certo o que comentar sobre o momento que acabava de presenciar. Tudo aquilo parecia para ela ainda inacreditável demais. - Eu... nunca havia visto nada parecido antes.
Foi uma boa experiência? - O homem seguia pelo mesmo caminho no qual tinham vindo, provavelmente já pretendendo acompanhar May até em casa também, embora ainda faltasse bastante tempo para o anoitecer.
Foi única. - A jovem sentiu o interior do peito ser invadido por uma estranha alegria. Aquele espírito realmente parecia muito feliz, e May achou que havia se deixado contagiar por tal sentimento. – Ela era muito bonita.
Era sim. - O homem mantinha o ritmo costumeiro de seus passos, tendo sempre a mesma expressão adorável estampada sobre a face.
Andaram mais alguns quarteirões agora em silêncio, chegando até a mureta que cercava aquelas belas árvores que agora brilhavam sob a luz do sol. Não tinha quase ninguém perambulando pelas ruas naquele momento, de modo que May e Dnieper ficassem de certa maneira sozinhos. Eis então que a jovem passou a cogitar uma possibilidade. Dnieper parecia visitar aquele hospital com bastante frequência, o mesmo que sua avó ficara como paciente durante algumas semanas atrás. Seria possível que ele...!? - Dnieper...
Sim? - O mais alto virava um pouco o rosto para May, esperando que ela voltasse a se pronunciar.
Você conheceu a minha avó?
O homem parou de andar, a garota fez o mesmo. Dnieper se virou para ela, olhando-a de um modo muito gentil, mais uma vez dando aquela entonação serena a própria voz. – Ela costumava contar sobre sua neta encantadora, meiga, e às vezes um pouco tímida também. Disse que a cada dia que se passava a via crescer mais bela e forte. Apenas sentia por não poder estar aqui fisicamente, quando esta menina se tornasse uma grande mulher.
May ouvia as palavras dele, sentindo os olhos novamente se encherem de lágrimas. Foi se aproximando do sujeito lentamente, vindo por abraçá-lo enquanto escondia o rosto choroso sobre um pouco abaixo do peito dele.
Ela te amava muito May. - Dnieper não parecia surpreso, ou incomodado por tal abraço repentino por parte da menina. Levava uma das mãos até os cabelos dela, afagando-os de leve como se tentasse confortá-la de alguma maneira. - Não tenha dúvidas de que ela está rogando por você lá do céu.
A jovem chorava baixinho, agarrando-se ao sobretudo do homem. Ficava daquela maneira durante alguns instantes, até resolver se pronunciar mesmo tendo agora uma voz trêmula. - Ela morreu sorrindo? Assim como Anna?
Ela morreu com um dos sorrisos mais belos que eu já vi. - Continuava a lhe acariciar os cabelos gentilmente.
Era por isso que você cantava francês no dia do velório dela... - May levava uma das mãos ao rosto, tentando impedir com que as próprias lágrimas continuassem a deslizar por sua face. - Minha avó era francesa.
Dnieper apenas concordou suavemente com a cabeça, mantendo-se da mesma maneira enquanto esperava com que a jovem viesse por se afastar por conta própria. Assim era feito por ela após mais alguns minutos, largando por fim o sobretudo do homem. Ele também se afastava, deixando de tocar os cabelos de May. - Está brava comigo por não ter te contado antes?
Não, não estou. - A garota se recompôs, secando as lágrimas e logo esboçou também um carinhoso sorriso para o mais alto. Não havia por que e nem como ficar brava com ele. Achou que todas as surpresas fizeram parte das valiosas lições que havia aprendido naquela tarde. - Muito obrigada.
Voltaram então a seguir pelo caminho, descendo a rua até a casa de May, sem abordarem mais qualquer assunto. A menina ficava a relembrar tal visão que tivera daquele espírito, tão lindo e sorridente, exalando uma pureza estonteante. Eis então que lhe surgia uma pequena curiosidade, embora de inicio receasse em perguntá-la para o homem que seguia pelo caminho, um pouco mais a frente que ela. Estufou o peito em coragem, assim o chamando pelo nome logo seguindo com sua pergunta. - Dnieper... por que você...
Eu disse que não demoraríamos muito, não disse? - Ele parava em frente ao pequeno portão da casa de May, voltando-se para ela com sua expressão de bondade rotineira.
A jovem o fitou por um instante, imaginando que ele a havia cortado de propósito, como se aquilo já fosse até um costume. Mesmo assim, insistiu com a pergunta. - Por que você não pode mentir?
Dnieper retribuiu ao olhar de May, não parecendo surpreso. Mantinha o sorriso. Ele apenas tardoue em lhe responder, como se refltisse por um instante quais seriam as palavras certas para se pronunciar. Mas a menina só o indagava para descobrir se aquilo era mesmo verídico, afinal, se Dnieper não pudesse mentir, também não poderia o fazer quanto àquela pergunta.
...É por causa disso. - Palavras mesmo, o homem pouco dizia. Puxou de leve a manga do próprio sobretudo e da camisa do punho direito, revelando à jovem que seu pulso continha uma profunda cicatriz na horizontal, como se tivesse sofrido um corte muito intenso no passado.
Sem saber o que comentar, a garota apenas corou, sentindo um pouco de vergonha de si mesma por ter feito uma pergunta apenas para satisfazer sua própria curiosidade, e que levasse uma resposta tão pessoal de Dnieper. - Me perdoe, por favor. Eu... não fazia idéia.
Está tudo bem, May. - O mais alto deixava com que as mangas lhe caíssem novamente sobre o pulso, voltando a ocultar sua cicatriz. Ele realmente não parecia abalado, mas já vinha por se despedir. - Tenha um bom fim de tarde, sim?
P-para você também... - Ela continuava sem jeito e envergonhada. Se houvesse algo que pudesse fazer para reparar aquela indelicadeza... Além se sentir em dívida com ele. Na verdade, nem sabia por onde começar a agradecê-lo. - Dnieper... muito obrigada por tudo. Na verdade, eu gostaria de lhe retribuir de alguma forma.
Ele sorriu ainda mais, e seus olhos dourados pareciam cintilar. - Na verdade, há algo bastante simples que você possa fazer por mim. Mas ficará para outro dia, se estiver mesmo disposta, serei eternamente grato.
May concordou com a cabeça, não ousando mais fazer qualquer outra pergunta, ainda um pouco receosa de lhe fazer mais alguma indelicada. - Você já sabe onde eu moro, pode vir me visitar quando quiser. - Ela voltou a ficar com as bochechas vermelhas, retirando as chaves da pequena bolsa para disfarçar. Destrancou o portão, adentrando em seu jardim. - E mais uma vez, obrigada por tudo. Até logo. - Dnieper se despediu também com um "até logo", e May lhe dava um último aceno, entrando para dentro de casa. Sorria para ele de maneira meiga, e assim o viu partir.
Agora ao interior da própria casa, cumprimentava sua tia que subia para o quarto, jogando-se na cama enquanto vinha por abraçar o próprio travesseiro. Estava muito feliz e satisfeita com o dia que tivera, em uma experiência que com certeza jamais iria se esquecer. Imaginou sua avó sorrindo para ela do céu e como seria seu próprio encontro com Dnieper, que aliás já estava ansiosa por ele.


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