A água quente do chuveiro lhe escorria pelo corpo, molhando também os lisos cabelos louros e seu rosto que conservava os olhos fechados. Ficava ali por vários minutos, refletindo enquanto respirava calmamente, no intuito de reunir tranquilidade que lhe dispunha para fazer o que precisava ainda naquele fim de tarde. O vapor invadia todo banheiro, embaçando o vidro que agora refletia apenas uma imagem turva do homem despido.
Vinha por abrir os olhos azuis ao desligar o chuveiro, deixando com que suas mãos tateassem por cima do box em busca de uma toalha. Após encontrá-la, levou-a aos cabelos para retirar o excesso de água, passando então a enxugar sua face e o restante do corpo.
Aproximava-se do espelho embaçado, deslizando a mão sobre sua superfície até ver o próprio reflexo mais nítido. Lawrence Austell ainda se mantinha perdido entre pensamentos. Vestiu roupas sociais, já que pretendia sair. Iria à igreja, porém, antes precisava fazer uma ligação. Suspirou, saindo do banheiro enquanto arrumava a gravata lilás que lhe envolvia o pescoço, dirigindo-se à sala de seu apartamento, que ficava no 16º andar. Ao pegar o celular discava primeiro os códigos de área, depois o número. Sua ligação era dirigida para o interior.
Alô? - Disse a voz de uma senhora, do outro lado da linha. O som de um televisor ligado era claramente ouvido ao fundo, provavelmente sintonizado em um programa de auditório, com várias vozes, aplausos e, por vezes, alguns risos.
Oi... como a senhora está? - Lawrence se sentava no sofá, fitando por um momento o carpete azul marinho que revestia o chão de sua sala. Parecia escolher suas próprias palavras com bastante cuidado, e também certo receio.
Estou bem. - Era a resposta da mulher.
Que bom... - Alguns segundos eram tomados pelo silêncio, enquanto o louro novamente tentava selecionar novas palavras para manter a conversa.
Era só isso? - Ela perguntava ríspida.
Não... também liguei para saber como o meu pai está...
Ele está bem. - A senhora parecia aumentar um pouco o som do televisor. Aquilo fizera com que o coração de Law viesse por disparar.
Que bom... - Ele se afundava um pouco mais no sofá enquanto continuava a fitar o chão. - Então... boa semana... e feliz aniversário mãe.
A mulher desligava o telefone sem mais nada dizer.
Cabisbaixo, Lawrence afastava o celular do próprio ouvido pelo soar do som repetitivo de ligação perdida, deixando o aparelho cair sobre o sofá ao sentir os próprios olhos se encherem de lágrimas. Rapidamente, levou ambas as mãos ao rosto, impedindo que as gotas lhe deslizassem pela face. Seria forte, já que durante toda a vida havia cedido ao choro. Sempre era daquela maneira e provavelmente jamais mudaria, seus pais nunca deixariam de menosprezá-lo.
Respirou fundo, recompondo-se, repreendendo também a si mesmo por ter mais uma vez acreditado que poderia ouvir uma única palavra gentil de sua mãe. Levantou-se do sofá, pegando o celular e o guardando no bolso da calça. Imaginava que o mais sensato naquele momento era esquecer sobre o assunto.
Colocava seu par de sapatos negros e o relógio sobre o pulso esquerdo, saindo do apartamento ao pegar as chaves para trancar a porta de entrada, assim logo o fazendo. O elevador pouco demorou a chegar no 16º andar, partindo para o térreo tendo Lawrence agora em seu interior. Passava pela recepção, cumprimentando o porteiro com um aceno cordial, logo alcançando a rua bastante movimenta.
Possuía um bom carro, mas decidira ir a pé para a igreja que não ficava muito longe dali. Com o fim da tarde, o sol começava a se pôr lentamente no horizonte, fazendo com que o vento reagisse com maior intensidade, atingindo seus cabelos louros que agora se agitavam. Aquilo ao menos parecia capaz de amenizar o tom avermelhado que seus olhos ainda continham.
Não prestava muita atenção nas ruas, já que elas lhe eram muito rotineiras. Chegou à igreja em poucos minutos, esta que conservava as portas abertas para a missa das 19:00 horas que estava prestes a ter início. Lawrence entrou e logo foi se acomodar por entre um dos bancos mais próximos ao altar. Desta vez não estava acompanhado de sua pasta de trabalho ou de seus livros de capa preta, já que recentemente havia entrado de férias do consultório, onde às vezes conseguia pacientes. Aliás, aqueles dias estavam sendo um tanto que tediosos para o jovem psicólogo. Começava ele a achar que ouvir os problemas dos outros o fazia esquecer seus próprios, e se fosse assim, preferia logo voltar ao trabalho.
Olhou para o lado, fitando os bancos que havia ao lado do seu. Avistava a jovem de cabelos negros e olhos dourados, já sentada, quieta, olhando para frente de maneira fixa. Conseguia sem grandes esforços se lembrar do nome dela: Sozh Ukraynn.
Nunca havia conhecido qualquer garota com uma personalidade tão curiosa. No consultório, costumava atender crianças e adolescentes de idade semelhante a que Sozh aparentava ter. De um modo geral todas sofriam com problemas familiares, ou em alguns casos, não tinham autoconfiança. Mas aquela menina em particular, parecia ter algo a mais.
Ficava perdido novamente entre pensamentos, sem notar que poderia estar tendo uma atitude bastante indelicada, encarando a jovem durante todo aquele momento. Quando se deu conta, disfarçou, mas Sozh não parecia ter tomado conhecimento que estava sendo até então observada, ou então, ignorara Lawrence completamente.
O padre subiu ao altar para dar uma pequena introdução à cerimônia, recebendo a atenção do louro que agora também olhava para frente. Alguns minutos se passaram e o soar do sino que anunciava às 19:00 horas passava a ecoar por todo local. As badaladas faziam com que o padre se calasse, assim como todos os outros presentes. O psicólogo abaixou a cabeça, desviando o olhar novamente para Sozh, mesmo que de maneira mais discreta.
Ela continuava imóvel e de olhos fixos no altar. Seu rosto não possuía expressão alguma.
"Porque estou tão incomodado?" - Pensava Law consigo mesmo, não sendo capaz de encontrar uma resposta válida para sua própria pergunta. Decidira então esquecer o assunto, deixar aquela jovem com seus próprios problemas.
A cerimônia prosseguiu como de costume e cerca de uma hora depois, já estava próxima ao encerramento. Todos se ajoelharam para suas orações finais, e assim era feito pelo psicólogo que juntava suas mãos e as colocava sobre o banco da frente, fechando os olhos. Mesmo com toda aquela situação, o homem rezava por seus pais, desejando-lhes saúde e muitas felicidades, apenas fazendo o pedido de que um dia pudesse ter um bom relacionamento com ambos, e obter suas bênçãos. A missa por fim chegava ao final e as pessoas aos poucos iam se levantando, deixando o local sagrado. Após terminar com sua prece, o louro também se colocava de pé, lançando um último olhar para o banco da jovem. Ela ainda estava ali ajoelhada e rezando.
Ao se deixar perder novamente entre pensamentos, Lawrence dera o tempo necessário para Sozh também se levantar. A garota permanecia como se nada fosse capaz de abatê-la, entretanto, o brilho de seus olhos dourados já não existia mais.
A garota passava a ir em direção a saída do local, sendo então seguia pelo psicólogo. - Ei... - Ele chamava pela menina, que parecia não ter lhe dado a mínima atenção, continuando com seus passos por entre os bancos. - Lady Ukraynn...
Era então que a pequenina parava, virando-se calmamente para encará-lo. Nada lhe dizia.
Lembra-se de mim? Eu ainda te devo um grande favor. - O louro sorriu de maneira simpática, mas afinal, o que estava fazendo? Não conseguia compreender a si mesmo, uma vez que havia decidido não mais de deixar intrigar por aquela menina. Mas era fato que ainda estava muito agradecido por ela lhe ter devolvido seu livro, e ainda queria poder retribuí-la de alguma maneira... ou estava apenas usando aquela como uma desculpa fútil para poder saciar sua própria curiosidade em relação a personalidade daquela garota!?
... Não estou interessada. - Ela se virou, dando mais alguns passos até ser novamente abordada pelo homem.
Não posso nem ao menos ser seu amigo? - Indagava Lawrence em um tom ainda animado e verdadeiro. Buscava manter nos diálogos com Sozh, palavras que normalmente usava com seus jovens pacientes.
A garota novamente se virou, encarando o maior de um jeito um pouco mais sério, e de certo modo, ameaçador, algo que fizera com que o homem sentisse um desagradável arrepio lhe percorrer a espinha. Ele não compreendia, pois a expressão da jovem continuava a mesma, porém, era algo presente naqueles olhos dourados.
Ter amigos não é algo permitido para uma pecadora como eu. - Novamente, Sozh voltava com o rosto para frente, reiniciando seus passos em direção a saída.
Lawrence permaneceu imóvel durante um breve instante, com as palavras travadas na garganta, sem possuir qualquer resposta imediata que pudesse parar aquela menina. Era então que notava estar sendo observado pela maioria das pessoas que estavam ali, desde o próprio padre, até os fieis que a pouco tinham terminados com suas orações.
Louco... - Uma senhora ria baixinho, enquanto pronunciara aquela palavra para o psicólogo, em um tom de deboche.
Sentiu-se ofendido, sem compreender o porquê daquilo. Lançou a todos um olhar de desagrado, como se estivessem o caçoando apenas por conversar com aquela jovem enquanto outros o olhavam assustados. Deixou o local, agora novamente a procura de Sozh que havia perdido de vista por um instante. Localizava-a um pouco mais adiante e assim corria até ela, alcançando-lhe logo a frente de modo que a garota viesse por cessar com seus passos mais uma vez.
Não há pecado que te impeça de ter amigos! - Estava a repreendendo, e falava aquilo com um tom de seriedade para que pudesse de algum modo convencê-la.
A garota arregalou os olhos, demonstrando-se surpresa pela fala de Lawrence. Ele ficara satisfeito, uma vez que notara por fim uma expressão na face da jovem. Mas aquilo durara apenas alguns segundos, de modo que ela logo voltasse ao seu jeito sério. - Você não sabe o que está dizendo...
Você não costuma conversar sobre os seus problemas com alguém, não é? - Estava apenas deduzindo para tentar manter o ritmo da conversa.
Qual a necessidade disso? - Aos poucos ela parecia ficar levemente aborrecida, mas para Lawrence já era tarde demais para esquecer o assunto. Como psicólogo, achou que aquela jovem poderia estar passando por sérios problemas e seu ideal de dever o fazia querer ajudá-la de alguma maneira. Como ser humano, sua curiosidade havia sido ainda mais atiçada pelo tal pecado citado pela jovem.
Sou psicólogo, essa é a minha profissão. Conversar sobre seus problemas com outra pessoa é essencial, já que, uma vez que você guarda tudo para si mesma, uma hora ou outra poderá acabar fazendo alguma bobagem... - Tentava falar de um modo sutil, mas que a jovem pudesse compreender.
É mesmo...? - Ela inclinava levemente a cabeça para o lado, continuando a encará-lo de maneira fixa. - ... E com quem que um psicólogo conversa sobre seus próprios problemas?
Desta vez, era Lawrence quem ficava surpreso. Em toda a sua vida, jamais havia recebido uma resposta com aquela.
Sem fala, a jovem novamente se pronunciava em seu lugar, mesmo que falando de um tom mais baixo que o anterior. Ela voltava a caminhar, passando por Law enquanto lhe dirigia um primeiro sorriso, mesmo que este não parecia ser alegre. - Uma hora ou outra você poderá acabar fazendo alguma bobagem.
O rapaz sentiu o arrepio novamente lhe invadir o corpo, sentindo as mãos passarem a tremer de leve. Foram necessários alguns segundos para se recompor. Cerrava os punhos ao se virar mais uma vez para Sozh. - Quando você vem à igreja?
Ela parou apenas para lhe responder. - Venho todos os dias.
Então nos veremos em breve, Lady Ukraynn, tenha uma boa noite. - Lawrence lhe dava um simpático aceno, forçando a naturalidade, vendo-a retomar com seus passos e assim se afastar, até estar distante o suficiente para o próprio homem seguir seu caminho. Em poucos minutos já subia as ruas de volta para seu apartamento, ainda refletindo sobre aquelas últimas palavras da menina. Não acreditava que seu próprio argumento havia sido derrubado por ela com tanta facilidade.
Seus pensamentos não desviavam daquele assunto nem mesmo após chegar ao prédio e subir até o 16º andar pelo elevador. Retirava a chave do bolso e destrancava a porta da frente de seu apartamento. Acendia a luz da sala ao entrar, e o vento noturno começava a soprar de leve contra o vidro da janela que ali havia.
O louro suspirou, indo para o quarto trocar suas roupas. Colocava vestes mais confortáveis, pois com elas já pretendia passar o resto da noite. Uma calça comprida e blusa de mangas até os punhos, ambas de um tom azul suave. Voltou para a sala, desta vez dirigindo o olhar para sua escrivaninha que ficava ao lado da janela. Sobre ela havia inúmeros livros de capa negra, além de várias canetas espalhadas, uma luminária e os óculos que agora eram pegos e colocados sobre a face de Lawrence, no mesmo instante em que este pagava um dos livros e passava a folheá-lo, relendo alguns trechos.
Tal livro, como os demais que havia ali sobre a escrivaninha, tinha sido escrito pelo próprio psicólogo. Era um romance, redigido com base nos relatos feitos por uma de suas pacientes. Aquele era seu hobbie secreto, algo que nunca havia mostrado para ninguém por não se achar criativo o suficiente para criar uma história própria. Apenas contava de uma maneira narrativa o que lhe era contado, permitindo a sua imaginação somente enfeitar às vezes para dar continuidade com o enredo da história.
Sentou-se na cadeira, abandonando o livro enquanto pegava outro, este que era aberto em sua primeira página, que não continha uma única palavra sequer. A mão direita do homem escolhia por uma caneta qualquer, destampando-a e logo a levando de encontro com o papel branco, porém, não os encostava durante vários minutos.
Law então buscava por outro papel, um solto, para mero rascunho. Nele, escrevia em letras de forma e separadas, um nome completo:
S O Z H U K R A Y N N
Refletia, deixando-se invadir por alguma idéia ao tentar organizar aquelas letras para formar um novo nome. Um anagrama. Fazia isso para disfarçar o nome das pessoas que se baseava para criar seus romances, mas ao menos não lhes tirar o mérito. Depois de um tempo considerável, conseguia organizá-las até forma um que lhe agradasse: Naru H. Kysonz.
Voltava então para o livro, deixando a caneta finalmente deslizar pelo papel, formando um rastro em tinta preta. Ia organizando as palavras mentalmente e as marcava para sempre naquele livro.
“Os prédios da cidade pareciam competir para ver qual deles alcançaria os céus. Ao iniciar da manhã, o sol se escondia por detrás das nuvens, o vento parecia cansado, carregado. Com tanta energia, o movimento da metrópole jamais cessaria: ele duraria até o anoitecer e do anoitecer até o dia raiar novamente. Incontáveis carros iam e vinham, circulando pelas vias. Era segunda-feira.
Sentada à beira de um alto viaduto estava uma jovem garota, Naru H. Kysonz. Ela possuía cabelos negros e curtos, pele de um branco suave, rosto de menina tão delicado quanto porcelana. Mas não sorria, seus olhos amarelos analisavam a cidade agitada. Naru colocou uma curta madeixa de seus cabelos por trás da orelha e ajeitou a mochila escolar sobre as costas, os carros passavam e ninguém parecia sequer notar a presença dela. Em meio a tanta correria, a cidade não teria tempo de dar atenção a aquela pequena garotinha”
Lembrou-se da mulher que havia lhe chamado de “louco” sem motivo, imaginando que todas as pessoas daquela sua cidade descrita eram tão insensíveis quanto ela. Mais uma vez, ficava perdido entre pensamentos, sem mais saber o que escrever. Minutos se passaram até a caneta tocar o papel novamente em uma única frase.
“Mas ela possuía um grande pecado, aquele que lhe impedia de sorrir.”
Não podia mais prosseguir, uma vez que seus pensamentos ali terminavam. "Um pecado que impedisse a jovem de sorrir"... Sim, com certeza aquela lhe daria uma ótima história.
Vinha por abrir os olhos azuis ao desligar o chuveiro, deixando com que suas mãos tateassem por cima do box em busca de uma toalha. Após encontrá-la, levou-a aos cabelos para retirar o excesso de água, passando então a enxugar sua face e o restante do corpo.
Aproximava-se do espelho embaçado, deslizando a mão sobre sua superfície até ver o próprio reflexo mais nítido. Lawrence Austell ainda se mantinha perdido entre pensamentos. Vestiu roupas sociais, já que pretendia sair. Iria à igreja, porém, antes precisava fazer uma ligação. Suspirou, saindo do banheiro enquanto arrumava a gravata lilás que lhe envolvia o pescoço, dirigindo-se à sala de seu apartamento, que ficava no 16º andar. Ao pegar o celular discava primeiro os códigos de área, depois o número. Sua ligação era dirigida para o interior.
Alô? - Disse a voz de uma senhora, do outro lado da linha. O som de um televisor ligado era claramente ouvido ao fundo, provavelmente sintonizado em um programa de auditório, com várias vozes, aplausos e, por vezes, alguns risos.
Oi... como a senhora está? - Lawrence se sentava no sofá, fitando por um momento o carpete azul marinho que revestia o chão de sua sala. Parecia escolher suas próprias palavras com bastante cuidado, e também certo receio.
Estou bem. - Era a resposta da mulher.
Que bom... - Alguns segundos eram tomados pelo silêncio, enquanto o louro novamente tentava selecionar novas palavras para manter a conversa.
Era só isso? - Ela perguntava ríspida.
Não... também liguei para saber como o meu pai está...
Ele está bem. - A senhora parecia aumentar um pouco o som do televisor. Aquilo fizera com que o coração de Law viesse por disparar.
Que bom... - Ele se afundava um pouco mais no sofá enquanto continuava a fitar o chão. - Então... boa semana... e feliz aniversário mãe.
A mulher desligava o telefone sem mais nada dizer.
Cabisbaixo, Lawrence afastava o celular do próprio ouvido pelo soar do som repetitivo de ligação perdida, deixando o aparelho cair sobre o sofá ao sentir os próprios olhos se encherem de lágrimas. Rapidamente, levou ambas as mãos ao rosto, impedindo que as gotas lhe deslizassem pela face. Seria forte, já que durante toda a vida havia cedido ao choro. Sempre era daquela maneira e provavelmente jamais mudaria, seus pais nunca deixariam de menosprezá-lo.
Respirou fundo, recompondo-se, repreendendo também a si mesmo por ter mais uma vez acreditado que poderia ouvir uma única palavra gentil de sua mãe. Levantou-se do sofá, pegando o celular e o guardando no bolso da calça. Imaginava que o mais sensato naquele momento era esquecer sobre o assunto.
Colocava seu par de sapatos negros e o relógio sobre o pulso esquerdo, saindo do apartamento ao pegar as chaves para trancar a porta de entrada, assim logo o fazendo. O elevador pouco demorou a chegar no 16º andar, partindo para o térreo tendo Lawrence agora em seu interior. Passava pela recepção, cumprimentando o porteiro com um aceno cordial, logo alcançando a rua bastante movimenta.
Possuía um bom carro, mas decidira ir a pé para a igreja que não ficava muito longe dali. Com o fim da tarde, o sol começava a se pôr lentamente no horizonte, fazendo com que o vento reagisse com maior intensidade, atingindo seus cabelos louros que agora se agitavam. Aquilo ao menos parecia capaz de amenizar o tom avermelhado que seus olhos ainda continham.
Não prestava muita atenção nas ruas, já que elas lhe eram muito rotineiras. Chegou à igreja em poucos minutos, esta que conservava as portas abertas para a missa das 19:00 horas que estava prestes a ter início. Lawrence entrou e logo foi se acomodar por entre um dos bancos mais próximos ao altar. Desta vez não estava acompanhado de sua pasta de trabalho ou de seus livros de capa preta, já que recentemente havia entrado de férias do consultório, onde às vezes conseguia pacientes. Aliás, aqueles dias estavam sendo um tanto que tediosos para o jovem psicólogo. Começava ele a achar que ouvir os problemas dos outros o fazia esquecer seus próprios, e se fosse assim, preferia logo voltar ao trabalho.
Olhou para o lado, fitando os bancos que havia ao lado do seu. Avistava a jovem de cabelos negros e olhos dourados, já sentada, quieta, olhando para frente de maneira fixa. Conseguia sem grandes esforços se lembrar do nome dela: Sozh Ukraynn.
Nunca havia conhecido qualquer garota com uma personalidade tão curiosa. No consultório, costumava atender crianças e adolescentes de idade semelhante a que Sozh aparentava ter. De um modo geral todas sofriam com problemas familiares, ou em alguns casos, não tinham autoconfiança. Mas aquela menina em particular, parecia ter algo a mais.
Ficava perdido novamente entre pensamentos, sem notar que poderia estar tendo uma atitude bastante indelicada, encarando a jovem durante todo aquele momento. Quando se deu conta, disfarçou, mas Sozh não parecia ter tomado conhecimento que estava sendo até então observada, ou então, ignorara Lawrence completamente.
O padre subiu ao altar para dar uma pequena introdução à cerimônia, recebendo a atenção do louro que agora também olhava para frente. Alguns minutos se passaram e o soar do sino que anunciava às 19:00 horas passava a ecoar por todo local. As badaladas faziam com que o padre se calasse, assim como todos os outros presentes. O psicólogo abaixou a cabeça, desviando o olhar novamente para Sozh, mesmo que de maneira mais discreta.
Ela continuava imóvel e de olhos fixos no altar. Seu rosto não possuía expressão alguma.
"Porque estou tão incomodado?" - Pensava Law consigo mesmo, não sendo capaz de encontrar uma resposta válida para sua própria pergunta. Decidira então esquecer o assunto, deixar aquela jovem com seus próprios problemas.
A cerimônia prosseguiu como de costume e cerca de uma hora depois, já estava próxima ao encerramento. Todos se ajoelharam para suas orações finais, e assim era feito pelo psicólogo que juntava suas mãos e as colocava sobre o banco da frente, fechando os olhos. Mesmo com toda aquela situação, o homem rezava por seus pais, desejando-lhes saúde e muitas felicidades, apenas fazendo o pedido de que um dia pudesse ter um bom relacionamento com ambos, e obter suas bênçãos. A missa por fim chegava ao final e as pessoas aos poucos iam se levantando, deixando o local sagrado. Após terminar com sua prece, o louro também se colocava de pé, lançando um último olhar para o banco da jovem. Ela ainda estava ali ajoelhada e rezando.
Ao se deixar perder novamente entre pensamentos, Lawrence dera o tempo necessário para Sozh também se levantar. A garota permanecia como se nada fosse capaz de abatê-la, entretanto, o brilho de seus olhos dourados já não existia mais.
A garota passava a ir em direção a saída do local, sendo então seguia pelo psicólogo. - Ei... - Ele chamava pela menina, que parecia não ter lhe dado a mínima atenção, continuando com seus passos por entre os bancos. - Lady Ukraynn...
Era então que a pequenina parava, virando-se calmamente para encará-lo. Nada lhe dizia.
Lembra-se de mim? Eu ainda te devo um grande favor. - O louro sorriu de maneira simpática, mas afinal, o que estava fazendo? Não conseguia compreender a si mesmo, uma vez que havia decidido não mais de deixar intrigar por aquela menina. Mas era fato que ainda estava muito agradecido por ela lhe ter devolvido seu livro, e ainda queria poder retribuí-la de alguma maneira... ou estava apenas usando aquela como uma desculpa fútil para poder saciar sua própria curiosidade em relação a personalidade daquela garota!?
... Não estou interessada. - Ela se virou, dando mais alguns passos até ser novamente abordada pelo homem.
Não posso nem ao menos ser seu amigo? - Indagava Lawrence em um tom ainda animado e verdadeiro. Buscava manter nos diálogos com Sozh, palavras que normalmente usava com seus jovens pacientes.
A garota novamente se virou, encarando o maior de um jeito um pouco mais sério, e de certo modo, ameaçador, algo que fizera com que o homem sentisse um desagradável arrepio lhe percorrer a espinha. Ele não compreendia, pois a expressão da jovem continuava a mesma, porém, era algo presente naqueles olhos dourados.
Ter amigos não é algo permitido para uma pecadora como eu. - Novamente, Sozh voltava com o rosto para frente, reiniciando seus passos em direção a saída.
Lawrence permaneceu imóvel durante um breve instante, com as palavras travadas na garganta, sem possuir qualquer resposta imediata que pudesse parar aquela menina. Era então que notava estar sendo observado pela maioria das pessoas que estavam ali, desde o próprio padre, até os fieis que a pouco tinham terminados com suas orações.
Louco... - Uma senhora ria baixinho, enquanto pronunciara aquela palavra para o psicólogo, em um tom de deboche.
Sentiu-se ofendido, sem compreender o porquê daquilo. Lançou a todos um olhar de desagrado, como se estivessem o caçoando apenas por conversar com aquela jovem enquanto outros o olhavam assustados. Deixou o local, agora novamente a procura de Sozh que havia perdido de vista por um instante. Localizava-a um pouco mais adiante e assim corria até ela, alcançando-lhe logo a frente de modo que a garota viesse por cessar com seus passos mais uma vez.
Não há pecado que te impeça de ter amigos! - Estava a repreendendo, e falava aquilo com um tom de seriedade para que pudesse de algum modo convencê-la.
A garota arregalou os olhos, demonstrando-se surpresa pela fala de Lawrence. Ele ficara satisfeito, uma vez que notara por fim uma expressão na face da jovem. Mas aquilo durara apenas alguns segundos, de modo que ela logo voltasse ao seu jeito sério. - Você não sabe o que está dizendo...
Você não costuma conversar sobre os seus problemas com alguém, não é? - Estava apenas deduzindo para tentar manter o ritmo da conversa.
Qual a necessidade disso? - Aos poucos ela parecia ficar levemente aborrecida, mas para Lawrence já era tarde demais para esquecer o assunto. Como psicólogo, achou que aquela jovem poderia estar passando por sérios problemas e seu ideal de dever o fazia querer ajudá-la de alguma maneira. Como ser humano, sua curiosidade havia sido ainda mais atiçada pelo tal pecado citado pela jovem.
Sou psicólogo, essa é a minha profissão. Conversar sobre seus problemas com outra pessoa é essencial, já que, uma vez que você guarda tudo para si mesma, uma hora ou outra poderá acabar fazendo alguma bobagem... - Tentava falar de um modo sutil, mas que a jovem pudesse compreender.
É mesmo...? - Ela inclinava levemente a cabeça para o lado, continuando a encará-lo de maneira fixa. - ... E com quem que um psicólogo conversa sobre seus próprios problemas?
Desta vez, era Lawrence quem ficava surpreso. Em toda a sua vida, jamais havia recebido uma resposta com aquela.
Sem fala, a jovem novamente se pronunciava em seu lugar, mesmo que falando de um tom mais baixo que o anterior. Ela voltava a caminhar, passando por Law enquanto lhe dirigia um primeiro sorriso, mesmo que este não parecia ser alegre. - Uma hora ou outra você poderá acabar fazendo alguma bobagem.
O rapaz sentiu o arrepio novamente lhe invadir o corpo, sentindo as mãos passarem a tremer de leve. Foram necessários alguns segundos para se recompor. Cerrava os punhos ao se virar mais uma vez para Sozh. - Quando você vem à igreja?
Ela parou apenas para lhe responder. - Venho todos os dias.
Então nos veremos em breve, Lady Ukraynn, tenha uma boa noite. - Lawrence lhe dava um simpático aceno, forçando a naturalidade, vendo-a retomar com seus passos e assim se afastar, até estar distante o suficiente para o próprio homem seguir seu caminho. Em poucos minutos já subia as ruas de volta para seu apartamento, ainda refletindo sobre aquelas últimas palavras da menina. Não acreditava que seu próprio argumento havia sido derrubado por ela com tanta facilidade.
Seus pensamentos não desviavam daquele assunto nem mesmo após chegar ao prédio e subir até o 16º andar pelo elevador. Retirava a chave do bolso e destrancava a porta da frente de seu apartamento. Acendia a luz da sala ao entrar, e o vento noturno começava a soprar de leve contra o vidro da janela que ali havia.
O louro suspirou, indo para o quarto trocar suas roupas. Colocava vestes mais confortáveis, pois com elas já pretendia passar o resto da noite. Uma calça comprida e blusa de mangas até os punhos, ambas de um tom azul suave. Voltou para a sala, desta vez dirigindo o olhar para sua escrivaninha que ficava ao lado da janela. Sobre ela havia inúmeros livros de capa negra, além de várias canetas espalhadas, uma luminária e os óculos que agora eram pegos e colocados sobre a face de Lawrence, no mesmo instante em que este pagava um dos livros e passava a folheá-lo, relendo alguns trechos.
Tal livro, como os demais que havia ali sobre a escrivaninha, tinha sido escrito pelo próprio psicólogo. Era um romance, redigido com base nos relatos feitos por uma de suas pacientes. Aquele era seu hobbie secreto, algo que nunca havia mostrado para ninguém por não se achar criativo o suficiente para criar uma história própria. Apenas contava de uma maneira narrativa o que lhe era contado, permitindo a sua imaginação somente enfeitar às vezes para dar continuidade com o enredo da história.
Sentou-se na cadeira, abandonando o livro enquanto pegava outro, este que era aberto em sua primeira página, que não continha uma única palavra sequer. A mão direita do homem escolhia por uma caneta qualquer, destampando-a e logo a levando de encontro com o papel branco, porém, não os encostava durante vários minutos.
Law então buscava por outro papel, um solto, para mero rascunho. Nele, escrevia em letras de forma e separadas, um nome completo:
S O Z H U K R A Y N N
Refletia, deixando-se invadir por alguma idéia ao tentar organizar aquelas letras para formar um novo nome. Um anagrama. Fazia isso para disfarçar o nome das pessoas que se baseava para criar seus romances, mas ao menos não lhes tirar o mérito. Depois de um tempo considerável, conseguia organizá-las até forma um que lhe agradasse: Naru H. Kysonz.
Voltava então para o livro, deixando a caneta finalmente deslizar pelo papel, formando um rastro em tinta preta. Ia organizando as palavras mentalmente e as marcava para sempre naquele livro.
“Os prédios da cidade pareciam competir para ver qual deles alcançaria os céus. Ao iniciar da manhã, o sol se escondia por detrás das nuvens, o vento parecia cansado, carregado. Com tanta energia, o movimento da metrópole jamais cessaria: ele duraria até o anoitecer e do anoitecer até o dia raiar novamente. Incontáveis carros iam e vinham, circulando pelas vias. Era segunda-feira.
Sentada à beira de um alto viaduto estava uma jovem garota, Naru H. Kysonz. Ela possuía cabelos negros e curtos, pele de um branco suave, rosto de menina tão delicado quanto porcelana. Mas não sorria, seus olhos amarelos analisavam a cidade agitada. Naru colocou uma curta madeixa de seus cabelos por trás da orelha e ajeitou a mochila escolar sobre as costas, os carros passavam e ninguém parecia sequer notar a presença dela. Em meio a tanta correria, a cidade não teria tempo de dar atenção a aquela pequena garotinha”
Lembrou-se da mulher que havia lhe chamado de “louco” sem motivo, imaginando que todas as pessoas daquela sua cidade descrita eram tão insensíveis quanto ela. Mais uma vez, ficava perdido entre pensamentos, sem mais saber o que escrever. Minutos se passaram até a caneta tocar o papel novamente em uma única frase.
“Mas ela possuía um grande pecado, aquele que lhe impedia de sorrir.”
Não podia mais prosseguir, uma vez que seus pensamentos ali terminavam. "Um pecado que impedisse a jovem de sorrir"... Sim, com certeza aquela lhe daria uma ótima história.


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