Um feixe de luz transpassava pela janela do quarto, iluminando o ambiente pouco a pouco conforme o raiar do dia, até o sono do louro ser incomodado e assim vir a despertar. Abriu os olhos devagar enquanto se levantava, havia dormido tarde na noite anterior, então ainda sentia os efeitos da sonolência. Seus cabelos dourados se encontravam bastante bagunçados. Bocejou, esfregando os olhos a caminho do banheiro. Lavou o rosto e se fitou brevemente no espelho. Imaginava o que poderia fazer para o café da manhã.
Foi para a cozinha a passos lentos. Ao abrir a geladeira, deu-se conta que não tinha muitos suprimentos, anotando mentalmente que precisava ir ao mercado ainda naquele dia. Pão com geléia de amora lhe era suficiente, e assim sua refeição matinal fora preparada.
Sua cozinha, embora pequena, era aconchegante. A bancada se prolongava até um dos cantos, contendo sobre ela a cafeteira, o microondas e algumas louças que tinham sido lavadas no dia anterior. Próximos, estavam a pia e o fogão de quatro bocas, do outro lado havia a geladeira. O azulejo branco era decorado com alguns detalhes em rubro, que combinavam perfeitamente com a pintura de um tom vermelho fosco que se estendia até o teto. Era uma cozinha modesta, mas ideal para Lawrence que morava sozinho.
Comeu as últimas fatias de pão que continham no pacote, guardando o que sobrara da geléia. Ia então tomar um banho, mas ao passar pela sala, viu algo que o fez parar para refletir por alguns instantes. Quase esquecera o motivo pelo qual tivera ido dormir tão tarde: um de seus livros de capa negra, aquele que ainda se encontrava aberto sobre a escrivaninha. As últimas palavras ali escritas eram: “Mas ela possuía um grande pecado, aquele que lhe impedia de sorrir”, e mesmo que Lawrence tivesse pensado durante horas, nada além daquilo havia progredido. “O grande pecado da jovem”... pensara em várias possibilidades, mas nenhuma que lhe fosse realmente convincente para escrever no papel.
Por fim, o psicólogo despertava de seus devaneios, assim voltando ao rumo anterior, indo ao banheiro para tomar banho, fazendo-o em pouco tempo. Vestindo agora uma calça comprida azul marinho e uma camiseta branca sem muitos detalhes, o rapaz estava pronto para sair. Colocou os sapatos, pegou sua carteira, estava com um estilo um pouco mais descontraído do qual costumava ser visto normalmente. Iria apenas ao mercado afinal, e talvez almoçasse em algum estabelecimento.
Descendo com o elevador até o estacionamento do prédio, entrou em seu carro, dava a partida e assim saia em direção ao local que programara. Seus minutos seguintes se resumiram em comprar os alimentos necessários para se manter durante aquela semana.
Dentro de pouco menos que uma hora, o homem já estava colocando as compras no porta-malas de seu carro e assim partira com ele para fora do estacionamento do mercado. Tendo se alimentado de apenas algumas fatias de pão no café da manhã, Lawrence começava a sentir novamente os efeitos da fome, parando para almoçar em um dos restaurantes centrais da cidade. Escolheu um prato com uma refeição simples, acompanhado por um copo de refrigerante. Sentava-se em uma das últimas mesas. Sozinho, comia calado, interagindo apenas com seus próprios pensamentos. Suas férias estavam sendo realmente tediosas.
Lawrence não tinha muitos amigos na cidade, a maioria de seus colegas de trabalho eram casados, ou possuíam outros compromissos que os impedissem de aceitar um convite de acompanhar o louro até uma lanchonete, ou em qualquer outro passeio que fosse. Era certo que às vezes se sentia um tanto solitário, mas também já estava bastante familiarizado com aquela sensação. Com calma, terminava de almoçar, abandonando o prato sobre a mesa e indo pagar no caixa o valor referente àquela refeição. Tendo assim o feito, voltou para o carro, retornando para o próprio apartamento. Pegou as compras e subiu até seu andar pelo elevador.
Ao ter todos os alimentos guardados, Lawrence veio por se deitar no sofá. Pelo tédio, acabou adormecendo novamente. Depois de algumas horas o louro despertou, lamentando, pois imaginou que provavelmente teria bastante dificuldade para dormir quando a noite chegasse. O tempo parecia um pouco mais escuro, mesmo que o sol já houvesse se posto, muitas nuvens fechavam o céu.
O que poderia fazer para tornar seu dia mais útil? Ficou a refletir durante alguns minutos, até desviar os olhos para o livro de capa negra, aquele ainda aberto sobre a escrivaninha e que continha as últimas palavras: “Mas ela possuía um grande pecado, aquele que lhe impedia de sorrir”.
Não conseguiria escrever nada além de tal frase caso não visse novamente a menina da igreja. Lawrence se levantou do sofá, decidido a ir à missa daquele dia, mesmo depois de olhar no relógio e constatar que faltavam cerca de alguns minutos para a cerimônia ter início. Trocou de roupa, colocando vestes mais formais, seu terno negro e uma gravata de um verde claro. Lavou o rosto, penteando os cabelos sem grande dedicação. Com a ameaça evidente de chuva, decidiu ir de carro, pegando também um guarda-chuva.
Embora considerasse sua própria fé bastante fiel, ir à igreja não lhe era um costume frequente, fazendo-o apenas quando se sentia triste ou desanimado, como estava no dia anterior. Aquela era uma das primeiras vezes que ia por outro motivo: tédio e, principalmente, curiosidade. Sentia-se cada vez mais intrigado sobre a jovem e o grande pecado que ela dizia possuir.
Em pouco tempo, Lawrence já estava estacionando em frente à igreja, descendo do carro enquanto abria o guarda-chuva para se proteger dos primeiros pingos d’água que começavam a cair. O sino que anunciava às 19hs já havia soado, o que significava ao psicólogo que ele perdera o começo da cerimônia. Entrou por fim na igreja, fechando o guarda-chuva pouco umedecido. A maioria dos bancos já estavam ocupados pelos fieis, restando para o louro apenas os lugares mais longes do altar. Sentou-se em silêncio, repousando o guarda-chuva no chão.
O coro de crianças se iniciava e o louro buscava com os olhos por aquela garota, Sozh Ukraynn. Achou-a sentada na primeira fileira, mas por estar muito atrás dela, não era possível para Law ver o rosto da menina, ou ainda que roupas ela vestia.
Os minutos seguintes prosseguiram com o cantar das crianças, finalizado quando o padre subiu ao altar. Todos então olharam para ele, inclusive o psicólogo. - Rogai por vossas famílias. - Dizia o sacerdote com sua voz firme e experiente, que ecoava pelo local. - Pois uma família assim sempre será, não importam as desavenças.
Lawrence abaixou o olhar, passando a fitar o guarda-chuva ainda ao chão. Passou a lamentar por ter ido à missa justo naquele dia. Se o assunto seria mesmo aquele, era preferível para o louro ter guardado suas próprias intrigas quanto à jovem para outra ocasião. Pensar em “família” era algo realmente muito delicado para Lawrence.
(...) Ó pais, que dedicais toda a vida em prol de seus filhos. Perdoais mesmo aqueles que se desviaram da luz: Deus os mostrará o caminho da retidão, mesmo que os demônios insistam em engolfá-los. (...)
Aquilo lhe soava familiar. Sua mãe havia alegado que eram as influências do diabo sobre Lawrence, enquanto seu pai dizia que não possuía mais filho, o deserdara. Aos poucos, os pensamentos do louro iam regredindo até alcançarem uma memória antiga, de uma tarde chuvosa. Seus pais colocavam quase todos os pertences do único filho na rua, expulsando-o de seu lar. O garoto louro, que havia acabado de entrar para o 3º ano do colegial, chorava desesperadamente ao tentar recolher suas coisas e dizia aos berros o quanto amava seus pais.
O padre continuava suas preces, porém, a mente de Lawrence se encontrava muito distante dali, sentindo os próprios olhos se encherem de lágrimas, era como se pudesse sentir todo aquele desespero novamente.
(...) Irmãos de mesmo sangue, que alimentam a rivalidade entre si, cairás em um ciclo vicioso de amarguras e rancores, gerando um mal irremediável. Somente o perdão vos libertará. (...)
O psicólogo estava tão preocupado em conter as próprias lágrimas que nem ao menos conseguira ouvir com atenção os dizeres seguintes do padre ou o quanto já chovia lá fora, como também não percebera que aquela menina chamada Sozh havia de repente levantado de seu banco. Lawrence apenas a viu quando ela passou ao seu lado, a passos apressados e com os lábios retorcidos em uma expressão infeliz. Seus olhos pareciam estar levemente avermelhados, como se ela estivesse prestes a chorar, assim como Lawrence. Sozh saiu para a chuva, sumindo em segundos da visão do louro.
Ele então se levantou também, pegando seu guarda-chuva. Algumas pessoas lhe lançaram um olhar de repreendimento, como se estivessem ofendidas pelo homem se levantar enquanto o padre ainda falava, algo que, estranhamente, notou que não fizeram com a jovem. Enfim, ignorou a todos, partindo rumo a saída, abrindo o guarda-chuva ao alcançar a parte externa da igreja. Chovia forte e às vezes os trovões se manifestavam ao longe. Lawrence deu alguns passos até avistar a jovem sentada em um dos bancos do pequeno jardim que ali na igreja havia. A garota estava sozinha, de cabeça baixa e completamente encharcada.
Canteiros de flores brancas e amarelas cercavam o jardim, e uma bela fonte de água se localizava no centro: tinha a forma de um anjo feminino, de asas pequenas e rosto infantil. Law se aproximou de Sozh, que aparentemente ainda não tinha se dado conta da presença dele. Muitas gotas d’água deslizavam pelo rosto da menina, até o seu queixo, deixando o rapaz em dúvida se aqueles eram realmente pingos de chuvas, ou se não, lágrimas. Ela se vestia quase da mesma maneira que todas as outras vezes que fora vista pelo psicólogo: usava um belo vestido branco.
Em um movimento gentil, o louro segurou o guarda-chuva para mais perto da pequenina, protegendo-a da chuva enquanto permitia a si mesmo de se molhar. - Sei que está um pouco tarde para isso, mas pode ficar com o meu guarda-chuva se quiser.
Sozh pareceu surpresa, erguendo rapidamente o rosto para o homem que tinha ao lado. Seus olhos dourados realmente se encontravam bem avermelhados e cheios de lágrimas também, estas que escapavam, misturando-se com os pingos de chuva que ainda escorriam pelo seu rosto.
Novamente ela abaixou o rosto, passando o braço sobre ambos os olhos em uma rápida tentativa de cessar com o fluxo de lágrimas. Em instantes voltava com aquela expressão indiferente. - Não precisa. - Respondeu a garota.
Lawrence deu um simpático sorriso, já que estava começando a se acostumar com o jeito de Sozh. Quanto às lágrimas que havia acabado de ver nos olhos dela... tinham apenas o deixado ainda mais intrigado. - Posso me sentar?
... Pode. - Mesmo que tardou para se pronunciar, a menina dava sua permissão e assim o louro se sentava, segurando o guarda-chuva entre ambos, de modo que abrigasse aos dois da chuva.
Ficavam em silêncio por um longo momento, escutando as gostas caírem do céu e o vento fazer com que os galhos das árvores se agitassem intensamente. Era então que Lawrence voltava a se pronunciar por fim, desta vez em um tom bastante sereno. - Você estava chorando agora a pouco, não estava?
... Por que acha isso? - A menina tentou parecer firme em sua resposta.
Porque seus olhos estão bem avermelhados ainda. - Lawrence se voltou para ela, mantendo sempre a expressão gentil.
... Os seus também estão.
O sorriso do louro veio por se suavizar naquele mesmo instante, afinal, tinha tido mais um de seus argumentos derrubados pela jovem. Tentou disfarçar com um novo sorriso forçado, logo ignorando aquele último comentário feito por Sozh.
Onde estão os seus pais? - Law indagava em um tom bondoso, enquanto tentava descobrir de uma maneira mais discreta o motivo pelo qual ela chorava.
Eu não tenho pais. - Respondeu a menina, seca.
Você não sabe onde eles estão?
Eu não tenho pais. - Repetiu ela mais uma vez.
Lawrence imaginou que acabaria a aborrecendo ainda mais caso continuasse insistindo em fazer tal pergunta, por isso, tentou mudar um pouco sua questão, mesmo que ainda mantivesse o mesmo foco. - Você tem família?
Sozh abaixou a cabeça, fitando os próprios pés por um instante. Tardou um pouco, mas acabou lhe respondendo. - Tenho dois irmãos mais velhos...
Fora impossível para o psicólogo deixar de se sentir satisfeito naquele momento, já que finalmente tinha conseguido com que a jovem ao menos começasse a ceder às perguntas. - Você tem um bom relacionamento com eles?
Novamente, a resposta demorava a ser pronunciada. - ... Apenas com um...
E com o outro?
A pequenina abaixou ainda mais a cabeça, deixando com que os cabelos lhe caíssem parcialmente sobre os olhos. Pela primeira vez, sua voz vinha por soar triste e receosa. - Ele... quer me matar.
Ao ouvir tais dizeres, Lawrence sentiu a própria expressão de seu rosto paralisar. Aquela havia sido uma resposta realmente inesperada, e pelo tom de sua voz, não pareciam ser palavras exageradas. O psicólogo achou que aquilo deveria ser de fato sério. - E por que ele quer te matar?
Eu fiz algo ruim para ele... - A garota falava de maneira pausada, como se analisasse com cuidado cada palavra antes de pronunciá-la. - ... Mesmo que a minha intenção tenha sido de apenas protegê-lo.
Lawrence mordeu de leve o próprio lábio inferior para impedir que sua próxima pergunta saltasse de seus lábios. Quase a havia questionado se aquilo que Sozh acabara de lhe contar possuía alguma relação com o tal pecado, aquele que intrigava tanto ao psicólogo. Mas tal questão provavelmente soaria muito inconveniente e talvez Sozh voltasse a se tornar reservada. Ambos então ficaram em silêncio, ouvindo o barulho da chuva, que, aliás, já tinha diminuído de modo considerável.
Você tem família? - A menina levantou o rosto, voltando com o olhar para o homem que tinha ao lado, fazendo-lhe a mesma pergunta que a pouco tinha sido dirigida a ela. O louro não respondeu de imediato, deixando apenas seus olhos se encontrarem com os da jovem. Em súbito, era como se aquela lembrança de seus pais tivesse lhe voltado a mente, aquele dia em que mais chorara na vida.
Eu... - Começava a dizer ele, embora não conseguisse pronunciar nada mais além daquilo. Não compreendia. Tantas outras pessoas já tinham lhe perguntado sobre a família ou até mesmo algo mais específico: seus pais. Lawrence nunca paralisara daquela maneira em que se encontrava agora. Sempre dava uma resposta qualquer e vaga, mas era como se aqueles olhos dourados da garota fizessem com que o psicólogo recordasse de todo sofrimento, como se ela fosse capaz de o hipnotizar.
Sozh levou delicadamente a mão até o rosto de Lawrence, tocando-lhe de leve a testa com as pontas dos dedos. De início, o louro sentiu sua própria respiração parar, enquanto seus olhos continuaram virados nos dela e seu coração disparava. Mas então, lentamente, começou a sentir um calor lhe invadir o peito, que parecia dissolvesse cada mágoa que ali havia. Paz: a palavra que melhor descrevia a sensação ali sentida pelo homem. Seu coração batia em um ritmo tranquilo. Todo o desespero de sua lembrança, o rancor de seus pais que era alimentado durante anos, amenizavam-se aos poucos. Os olhos azuis de Law se encheram de novas lágrimas, mas sua respiração voltava serena.
Eis que soava o sino das 20 horas, fazendo com que o coração do louro mais uma vez batesse rapidamente, agora em surpresa. Afastando-se um pouco da jovem, ela retirou a mão de sobre a testa do homem. Era como se ele tivesse acabado de despertar de um transe.
As pessoas começavam a sair da igreja. Lawrence se levantou, mantendo-se próximo a menina de modo que o guarda-chuva ainda pudesse proteger a ambos. Tentava se recompor, mas seus olhos ainda estavam cheios de lágrimas. - Bom... é melhor eu ir... - O psicólogo respirou fundo, voltando-se para a jovem por fim. Porém, ela estava de cabeça baixa. - ... Fique com o meu guarda-chuva. - Disse a ele.
Sozh ergueu um pouco o rosto e voltou a fitá-lo. Pareceu um pouco surpresa. - Não precisa...
O louro sorriu mais controlado, embora ainda lutasse para não deixar com que nenhuma lágrima lhe transbordasse os olhos, e para dissimular naturalidade. - Claro que precisa! Caso contrário você pode acabar pegando um resfriado. - Estendia o guarda-chuva para Sozh, oferecendo-o.
De início ela pareceu hesitar, mas acabou aceitando ao pegar o cabo do guarda-chuva e o trazendo para mais perto de si. - ...Obrigada. Eu o devolverei assim que possível.
Não se preocupe com isso, Lady Ukraynn. - Lawrence foi se afastando, sentindo alguns pingos de água voltarem a lhe atingir. - Cuide-se e até logo. - Deu então um último aceno para ela. Sozh, que se manteve ali sentada no banco da praça, retribuiu ao aceno, um pouco sem jeito.
Lawrence entrou no carro e partiu. Deu um longo suspiro mais uma vez. Logo que virou a primeira esquina, sentiu as lágrimas começarem a deslizar por seu rosto, chorando de maneira descontrolada, sem nem ao menos saber ao certo o motivo. Mal conseguia ver o percurso de seu carro, levando alguns minutos a mais que o costume para fazer o trajeto até o apartamento. Entrou direto no estacionamento do prédio, manobrando o carro até sua vaga, assim o desligando.
Pegava um lenço que havia no porta-luvas, tentando cessar o choro com ele, mas era em vão. Porém, a cada lágrima que escapava de seus olhos, o psicólogo se sentia mais aliviado, como se toda a sua agonia de um traumatizante passado estivesse sendo lavado por seu choro. Minutos se passaram até que suas lágrimas foram por fim controladas. Estava em súbito predisposto, tranquilo e estranhamente, feliz. Não compreendia o que havia acabado de lhe acontecer, apenas sabia que todas as sensações de mágoa e rancor tinham desaparecido completamente do interior de seu coração.
Foi para a cozinha a passos lentos. Ao abrir a geladeira, deu-se conta que não tinha muitos suprimentos, anotando mentalmente que precisava ir ao mercado ainda naquele dia. Pão com geléia de amora lhe era suficiente, e assim sua refeição matinal fora preparada.
Sua cozinha, embora pequena, era aconchegante. A bancada se prolongava até um dos cantos, contendo sobre ela a cafeteira, o microondas e algumas louças que tinham sido lavadas no dia anterior. Próximos, estavam a pia e o fogão de quatro bocas, do outro lado havia a geladeira. O azulejo branco era decorado com alguns detalhes em rubro, que combinavam perfeitamente com a pintura de um tom vermelho fosco que se estendia até o teto. Era uma cozinha modesta, mas ideal para Lawrence que morava sozinho.
Comeu as últimas fatias de pão que continham no pacote, guardando o que sobrara da geléia. Ia então tomar um banho, mas ao passar pela sala, viu algo que o fez parar para refletir por alguns instantes. Quase esquecera o motivo pelo qual tivera ido dormir tão tarde: um de seus livros de capa negra, aquele que ainda se encontrava aberto sobre a escrivaninha. As últimas palavras ali escritas eram: “Mas ela possuía um grande pecado, aquele que lhe impedia de sorrir”, e mesmo que Lawrence tivesse pensado durante horas, nada além daquilo havia progredido. “O grande pecado da jovem”... pensara em várias possibilidades, mas nenhuma que lhe fosse realmente convincente para escrever no papel.
Por fim, o psicólogo despertava de seus devaneios, assim voltando ao rumo anterior, indo ao banheiro para tomar banho, fazendo-o em pouco tempo. Vestindo agora uma calça comprida azul marinho e uma camiseta branca sem muitos detalhes, o rapaz estava pronto para sair. Colocou os sapatos, pegou sua carteira, estava com um estilo um pouco mais descontraído do qual costumava ser visto normalmente. Iria apenas ao mercado afinal, e talvez almoçasse em algum estabelecimento.
Descendo com o elevador até o estacionamento do prédio, entrou em seu carro, dava a partida e assim saia em direção ao local que programara. Seus minutos seguintes se resumiram em comprar os alimentos necessários para se manter durante aquela semana.
Dentro de pouco menos que uma hora, o homem já estava colocando as compras no porta-malas de seu carro e assim partira com ele para fora do estacionamento do mercado. Tendo se alimentado de apenas algumas fatias de pão no café da manhã, Lawrence começava a sentir novamente os efeitos da fome, parando para almoçar em um dos restaurantes centrais da cidade. Escolheu um prato com uma refeição simples, acompanhado por um copo de refrigerante. Sentava-se em uma das últimas mesas. Sozinho, comia calado, interagindo apenas com seus próprios pensamentos. Suas férias estavam sendo realmente tediosas.
Lawrence não tinha muitos amigos na cidade, a maioria de seus colegas de trabalho eram casados, ou possuíam outros compromissos que os impedissem de aceitar um convite de acompanhar o louro até uma lanchonete, ou em qualquer outro passeio que fosse. Era certo que às vezes se sentia um tanto solitário, mas também já estava bastante familiarizado com aquela sensação. Com calma, terminava de almoçar, abandonando o prato sobre a mesa e indo pagar no caixa o valor referente àquela refeição. Tendo assim o feito, voltou para o carro, retornando para o próprio apartamento. Pegou as compras e subiu até seu andar pelo elevador.
Ao ter todos os alimentos guardados, Lawrence veio por se deitar no sofá. Pelo tédio, acabou adormecendo novamente. Depois de algumas horas o louro despertou, lamentando, pois imaginou que provavelmente teria bastante dificuldade para dormir quando a noite chegasse. O tempo parecia um pouco mais escuro, mesmo que o sol já houvesse se posto, muitas nuvens fechavam o céu.
O que poderia fazer para tornar seu dia mais útil? Ficou a refletir durante alguns minutos, até desviar os olhos para o livro de capa negra, aquele ainda aberto sobre a escrivaninha e que continha as últimas palavras: “Mas ela possuía um grande pecado, aquele que lhe impedia de sorrir”.
Não conseguiria escrever nada além de tal frase caso não visse novamente a menina da igreja. Lawrence se levantou do sofá, decidido a ir à missa daquele dia, mesmo depois de olhar no relógio e constatar que faltavam cerca de alguns minutos para a cerimônia ter início. Trocou de roupa, colocando vestes mais formais, seu terno negro e uma gravata de um verde claro. Lavou o rosto, penteando os cabelos sem grande dedicação. Com a ameaça evidente de chuva, decidiu ir de carro, pegando também um guarda-chuva.
Embora considerasse sua própria fé bastante fiel, ir à igreja não lhe era um costume frequente, fazendo-o apenas quando se sentia triste ou desanimado, como estava no dia anterior. Aquela era uma das primeiras vezes que ia por outro motivo: tédio e, principalmente, curiosidade. Sentia-se cada vez mais intrigado sobre a jovem e o grande pecado que ela dizia possuir.
Em pouco tempo, Lawrence já estava estacionando em frente à igreja, descendo do carro enquanto abria o guarda-chuva para se proteger dos primeiros pingos d’água que começavam a cair. O sino que anunciava às 19hs já havia soado, o que significava ao psicólogo que ele perdera o começo da cerimônia. Entrou por fim na igreja, fechando o guarda-chuva pouco umedecido. A maioria dos bancos já estavam ocupados pelos fieis, restando para o louro apenas os lugares mais longes do altar. Sentou-se em silêncio, repousando o guarda-chuva no chão.
O coro de crianças se iniciava e o louro buscava com os olhos por aquela garota, Sozh Ukraynn. Achou-a sentada na primeira fileira, mas por estar muito atrás dela, não era possível para Law ver o rosto da menina, ou ainda que roupas ela vestia.
Os minutos seguintes prosseguiram com o cantar das crianças, finalizado quando o padre subiu ao altar. Todos então olharam para ele, inclusive o psicólogo. - Rogai por vossas famílias. - Dizia o sacerdote com sua voz firme e experiente, que ecoava pelo local. - Pois uma família assim sempre será, não importam as desavenças.
Lawrence abaixou o olhar, passando a fitar o guarda-chuva ainda ao chão. Passou a lamentar por ter ido à missa justo naquele dia. Se o assunto seria mesmo aquele, era preferível para o louro ter guardado suas próprias intrigas quanto à jovem para outra ocasião. Pensar em “família” era algo realmente muito delicado para Lawrence.
(...) Ó pais, que dedicais toda a vida em prol de seus filhos. Perdoais mesmo aqueles que se desviaram da luz: Deus os mostrará o caminho da retidão, mesmo que os demônios insistam em engolfá-los. (...)
Aquilo lhe soava familiar. Sua mãe havia alegado que eram as influências do diabo sobre Lawrence, enquanto seu pai dizia que não possuía mais filho, o deserdara. Aos poucos, os pensamentos do louro iam regredindo até alcançarem uma memória antiga, de uma tarde chuvosa. Seus pais colocavam quase todos os pertences do único filho na rua, expulsando-o de seu lar. O garoto louro, que havia acabado de entrar para o 3º ano do colegial, chorava desesperadamente ao tentar recolher suas coisas e dizia aos berros o quanto amava seus pais.
O padre continuava suas preces, porém, a mente de Lawrence se encontrava muito distante dali, sentindo os próprios olhos se encherem de lágrimas, era como se pudesse sentir todo aquele desespero novamente.
(...) Irmãos de mesmo sangue, que alimentam a rivalidade entre si, cairás em um ciclo vicioso de amarguras e rancores, gerando um mal irremediável. Somente o perdão vos libertará. (...)
O psicólogo estava tão preocupado em conter as próprias lágrimas que nem ao menos conseguira ouvir com atenção os dizeres seguintes do padre ou o quanto já chovia lá fora, como também não percebera que aquela menina chamada Sozh havia de repente levantado de seu banco. Lawrence apenas a viu quando ela passou ao seu lado, a passos apressados e com os lábios retorcidos em uma expressão infeliz. Seus olhos pareciam estar levemente avermelhados, como se ela estivesse prestes a chorar, assim como Lawrence. Sozh saiu para a chuva, sumindo em segundos da visão do louro.
Ele então se levantou também, pegando seu guarda-chuva. Algumas pessoas lhe lançaram um olhar de repreendimento, como se estivessem ofendidas pelo homem se levantar enquanto o padre ainda falava, algo que, estranhamente, notou que não fizeram com a jovem. Enfim, ignorou a todos, partindo rumo a saída, abrindo o guarda-chuva ao alcançar a parte externa da igreja. Chovia forte e às vezes os trovões se manifestavam ao longe. Lawrence deu alguns passos até avistar a jovem sentada em um dos bancos do pequeno jardim que ali na igreja havia. A garota estava sozinha, de cabeça baixa e completamente encharcada.
Canteiros de flores brancas e amarelas cercavam o jardim, e uma bela fonte de água se localizava no centro: tinha a forma de um anjo feminino, de asas pequenas e rosto infantil. Law se aproximou de Sozh, que aparentemente ainda não tinha se dado conta da presença dele. Muitas gotas d’água deslizavam pelo rosto da menina, até o seu queixo, deixando o rapaz em dúvida se aqueles eram realmente pingos de chuvas, ou se não, lágrimas. Ela se vestia quase da mesma maneira que todas as outras vezes que fora vista pelo psicólogo: usava um belo vestido branco.
Em um movimento gentil, o louro segurou o guarda-chuva para mais perto da pequenina, protegendo-a da chuva enquanto permitia a si mesmo de se molhar. - Sei que está um pouco tarde para isso, mas pode ficar com o meu guarda-chuva se quiser.
Sozh pareceu surpresa, erguendo rapidamente o rosto para o homem que tinha ao lado. Seus olhos dourados realmente se encontravam bem avermelhados e cheios de lágrimas também, estas que escapavam, misturando-se com os pingos de chuva que ainda escorriam pelo seu rosto.
Novamente ela abaixou o rosto, passando o braço sobre ambos os olhos em uma rápida tentativa de cessar com o fluxo de lágrimas. Em instantes voltava com aquela expressão indiferente. - Não precisa. - Respondeu a garota.
Lawrence deu um simpático sorriso, já que estava começando a se acostumar com o jeito de Sozh. Quanto às lágrimas que havia acabado de ver nos olhos dela... tinham apenas o deixado ainda mais intrigado. - Posso me sentar?
... Pode. - Mesmo que tardou para se pronunciar, a menina dava sua permissão e assim o louro se sentava, segurando o guarda-chuva entre ambos, de modo que abrigasse aos dois da chuva.
Ficavam em silêncio por um longo momento, escutando as gostas caírem do céu e o vento fazer com que os galhos das árvores se agitassem intensamente. Era então que Lawrence voltava a se pronunciar por fim, desta vez em um tom bastante sereno. - Você estava chorando agora a pouco, não estava?
... Por que acha isso? - A menina tentou parecer firme em sua resposta.
Porque seus olhos estão bem avermelhados ainda. - Lawrence se voltou para ela, mantendo sempre a expressão gentil.
... Os seus também estão.
O sorriso do louro veio por se suavizar naquele mesmo instante, afinal, tinha tido mais um de seus argumentos derrubados pela jovem. Tentou disfarçar com um novo sorriso forçado, logo ignorando aquele último comentário feito por Sozh.
Onde estão os seus pais? - Law indagava em um tom bondoso, enquanto tentava descobrir de uma maneira mais discreta o motivo pelo qual ela chorava.
Eu não tenho pais. - Respondeu a menina, seca.
Você não sabe onde eles estão?
Eu não tenho pais. - Repetiu ela mais uma vez.
Lawrence imaginou que acabaria a aborrecendo ainda mais caso continuasse insistindo em fazer tal pergunta, por isso, tentou mudar um pouco sua questão, mesmo que ainda mantivesse o mesmo foco. - Você tem família?
Sozh abaixou a cabeça, fitando os próprios pés por um instante. Tardou um pouco, mas acabou lhe respondendo. - Tenho dois irmãos mais velhos...
Fora impossível para o psicólogo deixar de se sentir satisfeito naquele momento, já que finalmente tinha conseguido com que a jovem ao menos começasse a ceder às perguntas. - Você tem um bom relacionamento com eles?
Novamente, a resposta demorava a ser pronunciada. - ... Apenas com um...
E com o outro?
A pequenina abaixou ainda mais a cabeça, deixando com que os cabelos lhe caíssem parcialmente sobre os olhos. Pela primeira vez, sua voz vinha por soar triste e receosa. - Ele... quer me matar.
Ao ouvir tais dizeres, Lawrence sentiu a própria expressão de seu rosto paralisar. Aquela havia sido uma resposta realmente inesperada, e pelo tom de sua voz, não pareciam ser palavras exageradas. O psicólogo achou que aquilo deveria ser de fato sério. - E por que ele quer te matar?
Eu fiz algo ruim para ele... - A garota falava de maneira pausada, como se analisasse com cuidado cada palavra antes de pronunciá-la. - ... Mesmo que a minha intenção tenha sido de apenas protegê-lo.
Lawrence mordeu de leve o próprio lábio inferior para impedir que sua próxima pergunta saltasse de seus lábios. Quase a havia questionado se aquilo que Sozh acabara de lhe contar possuía alguma relação com o tal pecado, aquele que intrigava tanto ao psicólogo. Mas tal questão provavelmente soaria muito inconveniente e talvez Sozh voltasse a se tornar reservada. Ambos então ficaram em silêncio, ouvindo o barulho da chuva, que, aliás, já tinha diminuído de modo considerável.
Você tem família? - A menina levantou o rosto, voltando com o olhar para o homem que tinha ao lado, fazendo-lhe a mesma pergunta que a pouco tinha sido dirigida a ela. O louro não respondeu de imediato, deixando apenas seus olhos se encontrarem com os da jovem. Em súbito, era como se aquela lembrança de seus pais tivesse lhe voltado a mente, aquele dia em que mais chorara na vida.
Eu... - Começava a dizer ele, embora não conseguisse pronunciar nada mais além daquilo. Não compreendia. Tantas outras pessoas já tinham lhe perguntado sobre a família ou até mesmo algo mais específico: seus pais. Lawrence nunca paralisara daquela maneira em que se encontrava agora. Sempre dava uma resposta qualquer e vaga, mas era como se aqueles olhos dourados da garota fizessem com que o psicólogo recordasse de todo sofrimento, como se ela fosse capaz de o hipnotizar.
Sozh levou delicadamente a mão até o rosto de Lawrence, tocando-lhe de leve a testa com as pontas dos dedos. De início, o louro sentiu sua própria respiração parar, enquanto seus olhos continuaram virados nos dela e seu coração disparava. Mas então, lentamente, começou a sentir um calor lhe invadir o peito, que parecia dissolvesse cada mágoa que ali havia. Paz: a palavra que melhor descrevia a sensação ali sentida pelo homem. Seu coração batia em um ritmo tranquilo. Todo o desespero de sua lembrança, o rancor de seus pais que era alimentado durante anos, amenizavam-se aos poucos. Os olhos azuis de Law se encheram de novas lágrimas, mas sua respiração voltava serena.
Eis que soava o sino das 20 horas, fazendo com que o coração do louro mais uma vez batesse rapidamente, agora em surpresa. Afastando-se um pouco da jovem, ela retirou a mão de sobre a testa do homem. Era como se ele tivesse acabado de despertar de um transe.
As pessoas começavam a sair da igreja. Lawrence se levantou, mantendo-se próximo a menina de modo que o guarda-chuva ainda pudesse proteger a ambos. Tentava se recompor, mas seus olhos ainda estavam cheios de lágrimas. - Bom... é melhor eu ir... - O psicólogo respirou fundo, voltando-se para a jovem por fim. Porém, ela estava de cabeça baixa. - ... Fique com o meu guarda-chuva. - Disse a ele.
Sozh ergueu um pouco o rosto e voltou a fitá-lo. Pareceu um pouco surpresa. - Não precisa...
O louro sorriu mais controlado, embora ainda lutasse para não deixar com que nenhuma lágrima lhe transbordasse os olhos, e para dissimular naturalidade. - Claro que precisa! Caso contrário você pode acabar pegando um resfriado. - Estendia o guarda-chuva para Sozh, oferecendo-o.
De início ela pareceu hesitar, mas acabou aceitando ao pegar o cabo do guarda-chuva e o trazendo para mais perto de si. - ...Obrigada. Eu o devolverei assim que possível.
Não se preocupe com isso, Lady Ukraynn. - Lawrence foi se afastando, sentindo alguns pingos de água voltarem a lhe atingir. - Cuide-se e até logo. - Deu então um último aceno para ela. Sozh, que se manteve ali sentada no banco da praça, retribuiu ao aceno, um pouco sem jeito.
Lawrence entrou no carro e partiu. Deu um longo suspiro mais uma vez. Logo que virou a primeira esquina, sentiu as lágrimas começarem a deslizar por seu rosto, chorando de maneira descontrolada, sem nem ao menos saber ao certo o motivo. Mal conseguia ver o percurso de seu carro, levando alguns minutos a mais que o costume para fazer o trajeto até o apartamento. Entrou direto no estacionamento do prédio, manobrando o carro até sua vaga, assim o desligando.
Pegava um lenço que havia no porta-luvas, tentando cessar o choro com ele, mas era em vão. Porém, a cada lágrima que escapava de seus olhos, o psicólogo se sentia mais aliviado, como se toda a sua agonia de um traumatizante passado estivesse sendo lavado por seu choro. Minutos se passaram até que suas lágrimas foram por fim controladas. Estava em súbito predisposto, tranquilo e estranhamente, feliz. Não compreendia o que havia acabado de lhe acontecer, apenas sabia que todas as sensações de mágoa e rancor tinham desaparecido completamente do interior de seu coração.


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