No decorrer de alguns minutos, o fluxo de lágrimas foi parando sozinho, até que o lenço tocasse o rosto do psicólogo pela última vez. Com o estacionamento vazio, Lawrence deixou o carro por fim, trancando-o, e sem demora se colocou ao interior do elevador, rumo ao 16° andar. Chegando em seu apartamento, foi tomar um banho quente, visando esquentar o corpo que a pouco tinha sofrido a ação de toda aquela chuva.
Já no chuveiro, Lawrence se sentia completamente relaxado, deixando com que as intensas gotas d’água lhe atingissem as costas e o vapor viesse por subir. Depois do banho, colocou roupas mais leves para dormir, embora não o pretendesse fazer naquele momento. Ao sair do banheiro, foi quase que instantaneamente para a sala e se sentou junto da escrivaninha, colocando seus óculos de grau, pretendendo começar a escrever. Com a caneta em mãos, fitou por um instante aquela última frase, “Mas ela possuía um grande pecado, aquele que lhe impedia de sorrir”, e por fim se sentiu capaz de prosseguir com a escrita de seu livro. Começava a escrever de maneira bastante rápida, como se uma voz ao interior de sua mente lhe ditasse todas as palavras.
“Estava a caminho da escola, seu primeiro dia no ensino médio. Desceu pelo viaduto até uma das ruas centrais da cidade, e uma das mais movimentadas também. Havia pouco tempo antes de sua primeira aula ter início e nenhum carro parou para lhe dar passagem. Assim se decorreram inúmeros minutos até que Naru conseguisse passar para a outra calçada, e mesmo assim tivera que ir correndo.
Não sabia exatamente onde se localizava seu colégio. As placas a cada esquina informavam o nome das ruas, mas as pessoas que pela menina passavam, não pareciam tão dispostas a lhe dar qualquer informação. Aconteceu que, ao finalmente conseguir achar a escola, a jovenzinha se deparou com um novo desafio: encontrar sua sala de aula.
Entre voltas e voltas pelos corredores, sobe e desce de escadas, mais alguns minutos se decorreram até a adolescente encontrar sua nova turma, na sala 1B, terceiro andar, mas antes de entrar na sala, deu uma rápida espiada através da fresta que a porta conservava. Sentados em carteiras ordenadas, diversos alunos se encontravam, alguns com a atenção bastante dispersa, enquanto outros ficavam a cochichar, tudo isso enquanto o professor se pronunciava. Os jovens, de um modo geral, pareciam ter um padrão: boa aparecia, roupas bem passadas e uma expressão semelhante à arrogância.
Acho que terei problemas com esses filhinhos de papai. - Comentou Naru consigo mesma, dando um suspiro ao reunir forças para terminar de abrir aquela porta. Era a aluna nova, transferida no meio do ano letivo para aquela escola particular. Assim que o professor se deparou com ela, cessou com a aula no mesmo instante, dirigindo-lhe a palavra com o cenho levemente franzido, reflexo da arrogância dos alunos.
Aluno atrasado não pode entrar durante a aula. - O professor mpedia com que a pequena garota adentrasse ao recinto, fechando a porta sem antes ouvir qualquer justificativa, deixando apenas soar as risadas e deboches dos outros alunos. Naru deu uma bufada sutil, em reprovação. A sensação que sentira era de total perda de tempo, sendo obrigada a descer novamente os três lances de escadas, até a saída do colégio. Passou por um extenso pátio, este que se limitava por altas grades, capazes de impedir a fuga dos mais delinqüentes. A garota se viu completamente sozinha ali, já que todos os outros alunos estavam em aula.
Assim que atravessou o pátio, saiu através de um portão que dava para a rua. Ao lado do edifício do colégio, localizava-se uma bonita praça, de área não muito grande. Pequenos arbustos se espalhavam, em meio a flores brancas e amarelas, dando privacidade para aqueles que queriam estudar ao ar livre, ou simplesmente, namorar. Contudo, conforme os passos de Naru alcançaram a grana da modesta praça, em exploração, a garota descobriu que aquele lugar poderia ter outra função, diferente das usadas pela maioria: a praça também poderia servir como um refúgio, para aqueles que queriam simplesmente se esconder do mundo. Sentado em um dos bancos, um garoto fitava o chão, com ambas as mãos levadas ao rosto. Ele chorava em silêncio, alheio a qualquer presença que naquele instante passou a dividir.
A garota se aproximou sorrateira, sentindo um misto de surpresa e curiosidade em relação a aquele rapaz. Eis então que o som de passos sobre a grana denunciara ao menino que ele não se encontrava mais sozinho. Erguendo o rosto em um movimento meio assustado, o jovem se surpreendeu com aquela desconhecida, tratando rapidamente de secar as lágrimas que ainda deslizavam pelo seu rosto.
Pode continuar, se quiser. - Disse a menina, meio ríspida, ao se sentar em um banco ao lado do dele. Mas aquela era apenas a sua maneira de dizer que não queria incomodá-lo.
Agora não tendo mais o rosto coberto pelas mãos, Naru pôde analisar as características do outro: seus olhos eram azuis e pele oleosa o suficiente para lhe castigar com diversas espinhas sobre a face, aparentava ter por volta de 17 anos e usava o um uniforme escolar, com o mesmo brasão bordado no peito de Naru. Eis que o garoto passou a olhá-la também, deixando um meigo sorriso se formar por entre seus lábios. - Como você se chama? - Perguntou com sutileza, achando aquele jeito inicial da jovem, intrigante. A maioria chegaria perguntando o motivo pelo qual o rapaz chorava.
Me chamo Naru... Naru H. Kysonz. - A menina desviou o olhar, tentando parecer indiferente enquanto balançava as pernas, mas ela se sentia bastante intrigada em relação ao garoto também, e ele pareceu capaz de perceber isso.
Prazer em conhecê-la, senhorita Naru. E eu me chamo (...)
Neste exato momento em sua narração, o louro teve que conter a caneta que insistia em continuar, arregalando os olhos os perceber o que quase havia acabado de escrever, para completar aquela sentença. "Lawrence Austell", era este o nome que quase havia dado para aquele novo personagem. O que aquilo poderia significar? Não precisou refletir muito sobre aquela questão, para se lembrar de suas próprias épocas escolares, depois de ser expulso de casa e seu segredo pessoal vir à tona, os colegas de classe jamais o perdoaram, fazendo de Lawrence uma constante vítima de chacotas e gozação. Muitas vezes, ele fugia das aulas, correndo para uma praça que ficava ao lado do colégio, deixando com que apenas os arbustos fossem testemunha de seu choro silencioso. Sem perceber de início, o escritor havia se auto-descrito, algo que nunca havia acontecido antes, em seus livros anteriores.
Pegou um novo papel, do intuito de usá-lo como rascunho. Em letras maiúsculas, escreveu o nome que seus pais lhe deram, para criar mais um anagrama.
L A W R E N C E A U S T E L L
Depois de várias tentativas, finalmente conseguiu juntar as letras para formar um novo nome, ficando satisfeito com o resultado. Voltando-se novamente para o seu livro, o psicólogo prosseguiu com o parágrafo. Lawrence Austell, aos 17 anos e no auge de suas armaguras, agora recebia uma nova nomeação: Walter Lucelanes.
Prazer em conhecê-la, senhorita Naru. Eu me chamo Walter Lucelanes. Você é uma aluna nova?
Sim, transferida. - Naru respondia apenas o básico, ainda sem muito olhar para Walter.
Espero que possamos ser amigos. - Disse o rapaz mantendo o sorriso. Walter não possuía amigos, ou melhor, nunca possuíra qualquer um em quem realmente pudesse confiar. Mas de um modo curioso, aquela garota tinha despertado a sua simpatia neste sentido.
Uma pecadora como eu não pode ter amigos. - A menina tornou a olhar para frente, ficando com um olhar bastante distante. Enquanto isso, o mais velho inclinou com a cabeça levemente para o lado, sem muito compreender exatamente o que Naru queria dizer com aquilo.
Ei, não há pecado que te impeça de ter amigos! - O garoto falou sério, ainda olhando para ela, com toda a sinceridade de seu coração. Ele próprio possuía seus próprios pecados, mas seria este o motivo por ser condenado a sempre se sentir tão solitário? Aquilo lhe soava injusto demais.
A garota perdeu a fala, voltando-se para Walter, surpresa, embora logo ela tentasse se fazer de indiferente novamente. - Você não sabe o que está dizendo.
Inconscientemente, Lawrence passava a sorrir conforme a caneta continuava a deslizar pelo papel. Estava gostando de relembrar seu conversa com Sozh, a inspiração para Naru, e agora por meio da imaginação do escritor, suas versões alternativas reproduziam aquele encontro.
Você nunca fala sobre os seus problemas com alguém? - O adolescente indagou, ainda mais curioso em relação à menina. Não conseguia nem ao menos cogitar o que poderia vir a ser o pecado citado por Naru.
Qual a necessidade disso? - A expressão dela se tornou aborrecida, embora logo tornasse a se pronunciar, devolvendo ao louro outro questionamento. - E você? Fala sobre os seus?
Aquela parecia mesmo Sozh, sempre capaz de derrubar os argumentos dos outros.
Não... - Walter encolheu os ombros, ficando um pouco mais sem jeito. Nunca conversava sobre seus problemas, guardando tudo para si mesmo, ao interior de seu coração.
Lawrence tornou a sorrir. As amarguras na qual enfrentara ao longo de sua adolescência, todas guardadas consigo e jamais divididas com alguém, foram justamente o motivo pelo qual o louro se tornara psicólogo: queria ser exatamente o alguém que ele próprio nunca tivera, alguém que estivesse ali para ouvir, mesmo que pouco pudesse fazer para ajudar ao outro. Como teria sido se aos 17 anos Lawrence tivesse encontrado alguém para dividir as tristezas. Eis que, sem pensar, acabou voltando a escrever em seu livro.
Naru, por que eu e você não dividimos os nossos problemas um com o outro?
Estranhamente, Lawrence sentia seus lábios se contraírem em um sorriso. Toda a mágoa que cultivou sozinho durante anos, deixando seu coração cativo, havia se dissipado em apenas uma tarde. Mesmo que jamais deixaria de sonhar com um bom relacionamento com seus pais, Lawrence não mais deixaria aquilo lhe corroer por dentro, nem mais o impedir de compreender e admirar a si mesmo. A ferida aberta finalmente tinha se tornado apenas uma cicatriz. A pessoa na qual Lawrence procurou durante desde jovem, para dividir suas amarguras, havia finalmente sido encontrada: Sozh, e em troca passou a ansiar por ouvir as amarguras dela também.
Já no chuveiro, Lawrence se sentia completamente relaxado, deixando com que as intensas gotas d’água lhe atingissem as costas e o vapor viesse por subir. Depois do banho, colocou roupas mais leves para dormir, embora não o pretendesse fazer naquele momento. Ao sair do banheiro, foi quase que instantaneamente para a sala e se sentou junto da escrivaninha, colocando seus óculos de grau, pretendendo começar a escrever. Com a caneta em mãos, fitou por um instante aquela última frase, “Mas ela possuía um grande pecado, aquele que lhe impedia de sorrir”, e por fim se sentiu capaz de prosseguir com a escrita de seu livro. Começava a escrever de maneira bastante rápida, como se uma voz ao interior de sua mente lhe ditasse todas as palavras.
“Estava a caminho da escola, seu primeiro dia no ensino médio. Desceu pelo viaduto até uma das ruas centrais da cidade, e uma das mais movimentadas também. Havia pouco tempo antes de sua primeira aula ter início e nenhum carro parou para lhe dar passagem. Assim se decorreram inúmeros minutos até que Naru conseguisse passar para a outra calçada, e mesmo assim tivera que ir correndo.
Não sabia exatamente onde se localizava seu colégio. As placas a cada esquina informavam o nome das ruas, mas as pessoas que pela menina passavam, não pareciam tão dispostas a lhe dar qualquer informação. Aconteceu que, ao finalmente conseguir achar a escola, a jovenzinha se deparou com um novo desafio: encontrar sua sala de aula.
Entre voltas e voltas pelos corredores, sobe e desce de escadas, mais alguns minutos se decorreram até a adolescente encontrar sua nova turma, na sala 1B, terceiro andar, mas antes de entrar na sala, deu uma rápida espiada através da fresta que a porta conservava. Sentados em carteiras ordenadas, diversos alunos se encontravam, alguns com a atenção bastante dispersa, enquanto outros ficavam a cochichar, tudo isso enquanto o professor se pronunciava. Os jovens, de um modo geral, pareciam ter um padrão: boa aparecia, roupas bem passadas e uma expressão semelhante à arrogância.
Acho que terei problemas com esses filhinhos de papai. - Comentou Naru consigo mesma, dando um suspiro ao reunir forças para terminar de abrir aquela porta. Era a aluna nova, transferida no meio do ano letivo para aquela escola particular. Assim que o professor se deparou com ela, cessou com a aula no mesmo instante, dirigindo-lhe a palavra com o cenho levemente franzido, reflexo da arrogância dos alunos.
Aluno atrasado não pode entrar durante a aula. - O professor mpedia com que a pequena garota adentrasse ao recinto, fechando a porta sem antes ouvir qualquer justificativa, deixando apenas soar as risadas e deboches dos outros alunos. Naru deu uma bufada sutil, em reprovação. A sensação que sentira era de total perda de tempo, sendo obrigada a descer novamente os três lances de escadas, até a saída do colégio. Passou por um extenso pátio, este que se limitava por altas grades, capazes de impedir a fuga dos mais delinqüentes. A garota se viu completamente sozinha ali, já que todos os outros alunos estavam em aula.
Assim que atravessou o pátio, saiu através de um portão que dava para a rua. Ao lado do edifício do colégio, localizava-se uma bonita praça, de área não muito grande. Pequenos arbustos se espalhavam, em meio a flores brancas e amarelas, dando privacidade para aqueles que queriam estudar ao ar livre, ou simplesmente, namorar. Contudo, conforme os passos de Naru alcançaram a grana da modesta praça, em exploração, a garota descobriu que aquele lugar poderia ter outra função, diferente das usadas pela maioria: a praça também poderia servir como um refúgio, para aqueles que queriam simplesmente se esconder do mundo. Sentado em um dos bancos, um garoto fitava o chão, com ambas as mãos levadas ao rosto. Ele chorava em silêncio, alheio a qualquer presença que naquele instante passou a dividir.
A garota se aproximou sorrateira, sentindo um misto de surpresa e curiosidade em relação a aquele rapaz. Eis então que o som de passos sobre a grana denunciara ao menino que ele não se encontrava mais sozinho. Erguendo o rosto em um movimento meio assustado, o jovem se surpreendeu com aquela desconhecida, tratando rapidamente de secar as lágrimas que ainda deslizavam pelo seu rosto.
Pode continuar, se quiser. - Disse a menina, meio ríspida, ao se sentar em um banco ao lado do dele. Mas aquela era apenas a sua maneira de dizer que não queria incomodá-lo.
Agora não tendo mais o rosto coberto pelas mãos, Naru pôde analisar as características do outro: seus olhos eram azuis e pele oleosa o suficiente para lhe castigar com diversas espinhas sobre a face, aparentava ter por volta de 17 anos e usava o um uniforme escolar, com o mesmo brasão bordado no peito de Naru. Eis que o garoto passou a olhá-la também, deixando um meigo sorriso se formar por entre seus lábios. - Como você se chama? - Perguntou com sutileza, achando aquele jeito inicial da jovem, intrigante. A maioria chegaria perguntando o motivo pelo qual o rapaz chorava.
Me chamo Naru... Naru H. Kysonz. - A menina desviou o olhar, tentando parecer indiferente enquanto balançava as pernas, mas ela se sentia bastante intrigada em relação ao garoto também, e ele pareceu capaz de perceber isso.
Prazer em conhecê-la, senhorita Naru. E eu me chamo (...)
Neste exato momento em sua narração, o louro teve que conter a caneta que insistia em continuar, arregalando os olhos os perceber o que quase havia acabado de escrever, para completar aquela sentença. "Lawrence Austell", era este o nome que quase havia dado para aquele novo personagem. O que aquilo poderia significar? Não precisou refletir muito sobre aquela questão, para se lembrar de suas próprias épocas escolares, depois de ser expulso de casa e seu segredo pessoal vir à tona, os colegas de classe jamais o perdoaram, fazendo de Lawrence uma constante vítima de chacotas e gozação. Muitas vezes, ele fugia das aulas, correndo para uma praça que ficava ao lado do colégio, deixando com que apenas os arbustos fossem testemunha de seu choro silencioso. Sem perceber de início, o escritor havia se auto-descrito, algo que nunca havia acontecido antes, em seus livros anteriores.
Pegou um novo papel, do intuito de usá-lo como rascunho. Em letras maiúsculas, escreveu o nome que seus pais lhe deram, para criar mais um anagrama.
L A W R E N C E A U S T E L L
Depois de várias tentativas, finalmente conseguiu juntar as letras para formar um novo nome, ficando satisfeito com o resultado. Voltando-se novamente para o seu livro, o psicólogo prosseguiu com o parágrafo. Lawrence Austell, aos 17 anos e no auge de suas armaguras, agora recebia uma nova nomeação: Walter Lucelanes.
Prazer em conhecê-la, senhorita Naru. Eu me chamo Walter Lucelanes. Você é uma aluna nova?
Sim, transferida. - Naru respondia apenas o básico, ainda sem muito olhar para Walter.
Espero que possamos ser amigos. - Disse o rapaz mantendo o sorriso. Walter não possuía amigos, ou melhor, nunca possuíra qualquer um em quem realmente pudesse confiar. Mas de um modo curioso, aquela garota tinha despertado a sua simpatia neste sentido.
Uma pecadora como eu não pode ter amigos. - A menina tornou a olhar para frente, ficando com um olhar bastante distante. Enquanto isso, o mais velho inclinou com a cabeça levemente para o lado, sem muito compreender exatamente o que Naru queria dizer com aquilo.
Ei, não há pecado que te impeça de ter amigos! - O garoto falou sério, ainda olhando para ela, com toda a sinceridade de seu coração. Ele próprio possuía seus próprios pecados, mas seria este o motivo por ser condenado a sempre se sentir tão solitário? Aquilo lhe soava injusto demais.
A garota perdeu a fala, voltando-se para Walter, surpresa, embora logo ela tentasse se fazer de indiferente novamente. - Você não sabe o que está dizendo.
Inconscientemente, Lawrence passava a sorrir conforme a caneta continuava a deslizar pelo papel. Estava gostando de relembrar seu conversa com Sozh, a inspiração para Naru, e agora por meio da imaginação do escritor, suas versões alternativas reproduziam aquele encontro.
Você nunca fala sobre os seus problemas com alguém? - O adolescente indagou, ainda mais curioso em relação à menina. Não conseguia nem ao menos cogitar o que poderia vir a ser o pecado citado por Naru.
Qual a necessidade disso? - A expressão dela se tornou aborrecida, embora logo tornasse a se pronunciar, devolvendo ao louro outro questionamento. - E você? Fala sobre os seus?
Aquela parecia mesmo Sozh, sempre capaz de derrubar os argumentos dos outros.
Não... - Walter encolheu os ombros, ficando um pouco mais sem jeito. Nunca conversava sobre seus problemas, guardando tudo para si mesmo, ao interior de seu coração.
Lawrence tornou a sorrir. As amarguras na qual enfrentara ao longo de sua adolescência, todas guardadas consigo e jamais divididas com alguém, foram justamente o motivo pelo qual o louro se tornara psicólogo: queria ser exatamente o alguém que ele próprio nunca tivera, alguém que estivesse ali para ouvir, mesmo que pouco pudesse fazer para ajudar ao outro. Como teria sido se aos 17 anos Lawrence tivesse encontrado alguém para dividir as tristezas. Eis que, sem pensar, acabou voltando a escrever em seu livro.
Naru, por que eu e você não dividimos os nossos problemas um com o outro?
Estranhamente, Lawrence sentia seus lábios se contraírem em um sorriso. Toda a mágoa que cultivou sozinho durante anos, deixando seu coração cativo, havia se dissipado em apenas uma tarde. Mesmo que jamais deixaria de sonhar com um bom relacionamento com seus pais, Lawrence não mais deixaria aquilo lhe corroer por dentro, nem mais o impedir de compreender e admirar a si mesmo. A ferida aberta finalmente tinha se tornado apenas uma cicatriz. A pessoa na qual Lawrence procurou durante desde jovem, para dividir suas amarguras, havia finalmente sido encontrada: Sozh, e em troca passou a ansiar por ouvir as amarguras dela também.


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