Suas mãos enluvadas tateavam a terra, abrindo nesta uma pequena fenda onde se depositava uma semente de girassol, cobrindo-a novamente. O sol da manhã estava quente, fazendo com que a transpiração deslizasse pelo rosto da menina. Já estava no último canteiro, tal que decidira reservar para as margaridas, suas favoritas, deixando-as no local mais próximo da janela que dava para o seu próprio quarto.
May estava ansiosa, queria que as flores germinassem logo para poder ver como realmente ficaria o seu jardim, esperando que ficasse muito bonito, pois Dnieper havia dito que viria visitá-la. Perguntava-se se ele gostaria da surpresa, quando as flores germinassem, afinal, da última vez que Dnieper viera, aquele jardim ainda era feio e sem vida. Não que as diferenças atuais fossem tão significativas, May tinha apenas arrancado a grama seca e trocado a terra, mas mesmo que ainda estivesse descampado, a menina já podia imaginar seu jardim cheio de flores, pois o tinha visto em um sonho inesquecível e anseava que ficasse igual.
Contudo, onde estaria Dnieper? Era o que a jovem se perguntava de cabeça baixa, enquanto se entretia com o plantio de mais algumas sementes. Ukraynn havia dito que pediria um favor à May, mas já fazia uma semana que ele não aparecia. Talvez fosse um homem ocupado. Será que ele possuía uma família para sustentar? Dnieper não parecia ser tão velho assim, mas também não tão novo. Uns vinte e oito anos, no máximo. No fim, May se dava conta que realmente quase nada sabia sobre ele.
Bom dia, May.
Já estava até começando a ouvir a voz dele! Mas ao refletir por um momento, realmente tinha ouvido a voz de Dnieper. O mesmo se encontrava em frente a casa de May, do outro lado do portão, fitando-a por detrás de seus óculos redondos, com um sorriso.
D-Dnieper!? - May se levantou em um salto, sentindo o coração disparar pela surpresa, afinal, estava pensando nele naquele exato momento. Coincidência? O rosto da menina vinha por ficar inteiramente rubro ao perceber a maneira na qual se encontrava: um lenço lhe cobria parte da cabeça, amarrando seus cabelos louros em um desajeitado rabo-de-cavalo. Usava grossas luvas nas mãos, uma camiseta larga de sua tia e uma bermuda que lhe escondia apenas parte das coxas. Ao se levantar, May batia de leve em seus joelhos sujos de terra, totalmente sem graça, desviando o olhar de Dnieper mesmo que tentasse parecer natural. - Q-Quanto tempo... como você está?
Vou muito bem, obrigado por perguntar. - Ukraynn sorria de maneira ainda mais expressiva, Estava vestido da maneira de sempre, todo de preto, embora o calor. - E você? Como tem passado?
Bem! - A menina falava agora de um modo até um pouco exagerado, ainda querendo dissimular toda a timidez que sentia diante dele. Pensou em convidá-lo para entrar, mas provavelmente sua tia não aprovaria, por se tratar de um homem não conhecido por ela, e aparentemente bem mais velho que May.
Pode ir se arrumar, eu espero. - Como se tivesse adivinhado os pensamentos da garota, Dnieper riu com doçura, logo voltando a sorrir de seu modo gentil costumeiro. May corava ainda mais. Tinha mesmo deixado tão evidente o quanto desejava tomar um banho e se arrumar para se apresentar melhor para ele?
E-Eu não demoro! - Disse May decidida, entrando em sua residência em questão de segundos, ainda muito envergonhada. Mas não poderia ficar enrolando, afinal, não queria deixar Dnieper lá fora esperando por muito tempo. Primeiramente, foi para o quarto pegar uma blusa branca de botão, com finas linhas de um cinza claro na vertical, tinha algumas rendas nas mangas e um pequeno laço na parte de trás, um pouco abaixo do centro das costas. Para combinar, May escolhia uma saia preta sem detalhes, que ia até os seus joelhos. Tomou o banho em minutos, lavando os cabelos de modo apressado. Quando saiu debaixo do chuveiro, já pegou a toalha para tirar o excesso de umidade do próprio corpo.
Em seguida, chegando eu seu quarto, perfumou-se e colocou a roupa, penteando os cabelos depois. Por fim, fazia uma maquiagem bem sutil, passando apenas um blush avermelhado sobre as bochechas e um batom rosado nos lábios. Saindo de seu quarto, May já corria de volta para o jardim, ao encontro de Dnieper.
Me desculpe, eu demorei, não foi? - A pergunta dela vinha em um tom receoso, achando que Dnieper já estivesse aborrecido por ter esperado tanto. A jovem pegou a chave, abrindo o portão, logo se colocando para fora também, ao lado do homem. - Deve ter sido tedioso...
De modo algum. - As palavras de Ukraynn soavam sinceras, mantendo aquele típico sorriso por entre os lábios. - Além disso, não foi tedioso. Pude ficar aqui admirando o seu jardim.
As bochechas da garota ficavam ainda mais avermelhadas. Ele havia realmente gostado de seu jardim? Mas ainda não havia germinado uma única flor sequer... - O-obrigada. - Era tudo que May conseguia dizer, abaixando o olhar para o chão enquanto sorria feliz. Um breve silêncio então se fez entre eles, tempo o suficiente para May se recompor, tornando a erguer o rosto para começar um novo assunto. - Dnie, o que você...
Será que eu poderia lhe pedir aquele favor?
May pretendia perguntar o que Dnieper havia feito naquela última semana, mas sendo interrompida pelo mais velho, que agora mantinha uma expressão de inocencia, May não pode prosseguir com o próprio questionamento sem antes responder o dele que, aliás, parecia bem mais importante. - Claro, eu...
May, venha me ajudar a preparar o almoço. - Era sua tia quem agora interrompia, aparecendo através da janela da casa, enxugando um prato.
Não posso ir depois, tia? Estou conversando com um amigo. - Pedia a jovem por entre um marcante choramingo.
Amigo? - A tia deu um sarcástico riso, saindo da janela. - Venha logo.
Aquilo de fato era uma ordem, para a infelicidade de May. A menina olhou para Dnieper com tristeza, pois o tinha feito esperar tanto para depois ter que dispensá-lo.
Se puder sair comigo esta noite, há um lugar que eu gostaria muito de levá-la. - O moreno realmente não parecia aborrecido com a situação, o que trouxe um grande alívio para May. Ela então voltou a sorrir, confirmando ao pedido dele por meio de um aceno positivo com a cabeça, sem muito refletir a respeito.
Sim, eu vou.
Ótimo, passarei aqui por volta das 22:00hs, para buscá-la. - Informou Ukraynn de um modo aparentemente animado, afastando-se de May em alguns passos para trás, agora em despedida. - Então, até mais tarde.
Até. - May dava um aceno para ele, abrindo novamente o portão de sua casa para entrar. Estava feliz, já que finalmente poderia retribuir um favor a Dnieper. Mas o que será que ele viria a lhe pedir? May se sentia muito curiosa para descobrir. Após ver Dnieper dobrar a esquina, a garota trancou o portão, entrando novamente em sua residência, indo ajudar a tia com o almoço, conforme ela havia pedido.
Ao entrar na cozinha, a menina se dirigiu à tutora com um olhar receoso, imaginando que levaria uma bronca por estar conversando com um homem ainda desconhecido pela família, mesmo que para May, Dnieper não fosse mais um estranho. - Tia, ele é só um amigo... - Tentava iniciar uma justificativa, bastante acanhada.
De quem você está falando? - A tia arqueava uma das sobrancelhas para cima, como se não compreendesse as palavras da sobrinha.
Do homem com quem eu estava conversando lá fora, quando a senhora me chamou... - Explicou May, estranhando bastante a reação da tia.
Que homem May? Não havia ninguém com você lá fora.
Após aquelas palavras, nada mais foi dito entre as duas durante todo o preparo do almoço. Como sua tia não havia visto Dnieper? Aquilo realmente não fazia o menor sentido, embora não fosse a primeira vez que algo semelhante acontecia. No velório de sua avó, a tia de May não ouvira a canção de Dnieper, assim como as enfermeiras do hospital também pareceram ignorá-lo, além de chamá-lo de “assombração”.
Não deixou de pensar naquilo, mesmo após cortar todos os legumes, a pedido de sua tutora. Nenhuma hipótese que lhe vinha em mente parecia fazer grande sentido. Enfim, com o almoço pronto, May e sua tia iniciaram a refeição, passando a conversar sobre assuntos variados, mesmo que por vezes os pensamentos da menina vagassem em direção ao encontro que teria à noite.
Aliás, à noite? Um encontro com um homem às 22:00hs? Sua tia jamais deixaria. Ficou pálida ao lembrar deste detalhe, engasgando-se com o suco. Terminara o seu almoço o mais rápido possível, pedindo licença ao se retirar da mesa, correndo para o próprio quarto, ainda atônita.
O que eu vou fazer? - Sentava-se na cama, ao se fechar no cômodo. Estava com um grande problema: como iria sair sem a permissão de sua tia? E pior, como fora marcar um encontro com Dnieper, sem antes receber tal permissão? Não iria conseguir encará-lo mais, já imaginando sua estupidez, indo contar para Dnieper que não poderia mais sair e a expressão decepcionado, ou talvez aborrecida, que ele faria. May havia lhe dito que retribuiria ao favor, mas depois das 22:00hs, não dava.
Sentiu seus olhos se encherem de lágrimas, com certeza após uma mancada como esta, Dnieper passaria a rejeitá-la. Mas... e se May fugisse de casa, do mesmo modo que fizera naquela outra vez, que achou que ainda estivesse sonhando? O rosto da garota ficou inteiramente vermelho, imaginando-se pular a janela do quarto, e depois o portão. Aquilo não era coisa de delinquente? E o que será que tia faria caso descobrisse?
A tarde avançou até a noite chegar. Às 21:00hs a tutora de May já havia ido dormir e cerca de meia hora depois, a adolescente já estava vestida para sair, encontrando-se emocionalmente muito nervosa. Veio por se arrumar com a luz de seu quarto apagada e em total silêncio, para não despertar qualquer desconfiança em sua tia, ou sequer acordá-la. Sobre sua cama, May colocava várias almofadas embaixo das cobertas, para imitar seu próprio corpo em repouso.
Com o relógio já próximo de marcar 22:00hs, a adrenalina de May lhe contaminou o sangue, fazendo-a tremer um pouco enquanto suas mãos abriam a janela: estava na hora de pulá-la. Sentindo um imenso frio na barriga, a menina fitou a rua. Para o alívio de May, Dnieper ainda não estava ali, já que seria constrangedor que ele a visse fugindo de casa como uma menina rebelde, além de que ela jamais conseguiria se explicar.
Hesitando durante mais alguns minutos, por fim tomou coragem, pulando a janela para o seu jardim. Vestia uma calça preta, um pouco apertada e sem detalhes, calçando uma bota de mesma coloração e um salto pouco considerável. Usava uma jaqueta de um rosa claro e, por baixo desta, uma blusa branca com estampa de um fofo gatinho, queria contradizer seu ato delinquente ao menos com um visual mais meigo. Seus cabelos eram divididos por duas fitas vermelhas, cada uma sobre cada lado de sua cabeça e para a maquiagem, escolheu uma sombra rosada, em contraste com o blush rubro e o batom amarronzado.
Pulava agora o portão, usando o muro do vizinho para se esconder, caso sua tia olhasse a rua pela janela. Logo Dnieper também chegava, mesmo que o horário do encontro ainda não tivesse sido alcançado. Ambos se cumprimentaram com um “Boa noite”, enquanto May tentava disfarçar todo o seu nervosismo.
Podemos ir? - Perguntou Ukraynn, agora se colocando ao lado da mais jovem, esta que acenava com a cabeça de maneira positiva e assim começaram a caminhar.
A menina o seguia em alguns passos atrás, sem nada conseguir dizer, envergonhada na presença do mais velho, embora tivesse passado o dia todo cogitando assuntos que pudessem conversar. Em um determinado momento, May erguia os olhos para o rapaz, vendo-o de costas, e mesmo que não pudesse ver o rosto dele, tinha certeza de que Dnieper estava sorrindo.
Embora a timidez, por que May se sentia tão bem quando estava perto dele? Mesmo que nada soubesse sobre Dnieper, além de seu nome, que era um viajante e... May desviou com o olhar para um dos pulsos do mais alto, coberto com a manga de sua veste. O que seria aquela cicatriz? Parecia um corte profundo... Teria Dnieper feito aquilo em si mesmo? Tornando a abaixar o rosto, sentiu um sentimento de tristeza lhe invadir o peito, afinal, temia em confirmar aquela suspeita, mas a garota jamais teria coragem de lhe perguntar sobre aquilo.
Chegamos. - May esbarrou em Dnieper, já que ele havia repentinamente parado de caminhar. As bochechas da menina esquentaram, mesmo que ela logo desviasse o olhar para o local onde agora se encontravam.
A menina ficou perplexa, sem conseguir se pronunciar. Em um primeiro momento, seu coração pulsou mais forte, e entre constantes gaguejos, tentou perguntar: - Dnie... o que fazemos aqui...? - Ela olhava para o homem, sem entender. Estavam diante da residência da avó de May.
May estava ansiosa, queria que as flores germinassem logo para poder ver como realmente ficaria o seu jardim, esperando que ficasse muito bonito, pois Dnieper havia dito que viria visitá-la. Perguntava-se se ele gostaria da surpresa, quando as flores germinassem, afinal, da última vez que Dnieper viera, aquele jardim ainda era feio e sem vida. Não que as diferenças atuais fossem tão significativas, May tinha apenas arrancado a grama seca e trocado a terra, mas mesmo que ainda estivesse descampado, a menina já podia imaginar seu jardim cheio de flores, pois o tinha visto em um sonho inesquecível e anseava que ficasse igual.
Contudo, onde estaria Dnieper? Era o que a jovem se perguntava de cabeça baixa, enquanto se entretia com o plantio de mais algumas sementes. Ukraynn havia dito que pediria um favor à May, mas já fazia uma semana que ele não aparecia. Talvez fosse um homem ocupado. Será que ele possuía uma família para sustentar? Dnieper não parecia ser tão velho assim, mas também não tão novo. Uns vinte e oito anos, no máximo. No fim, May se dava conta que realmente quase nada sabia sobre ele.
Bom dia, May.
Já estava até começando a ouvir a voz dele! Mas ao refletir por um momento, realmente tinha ouvido a voz de Dnieper. O mesmo se encontrava em frente a casa de May, do outro lado do portão, fitando-a por detrás de seus óculos redondos, com um sorriso.
D-Dnieper!? - May se levantou em um salto, sentindo o coração disparar pela surpresa, afinal, estava pensando nele naquele exato momento. Coincidência? O rosto da menina vinha por ficar inteiramente rubro ao perceber a maneira na qual se encontrava: um lenço lhe cobria parte da cabeça, amarrando seus cabelos louros em um desajeitado rabo-de-cavalo. Usava grossas luvas nas mãos, uma camiseta larga de sua tia e uma bermuda que lhe escondia apenas parte das coxas. Ao se levantar, May batia de leve em seus joelhos sujos de terra, totalmente sem graça, desviando o olhar de Dnieper mesmo que tentasse parecer natural. - Q-Quanto tempo... como você está?
Vou muito bem, obrigado por perguntar. - Ukraynn sorria de maneira ainda mais expressiva, Estava vestido da maneira de sempre, todo de preto, embora o calor. - E você? Como tem passado?
Bem! - A menina falava agora de um modo até um pouco exagerado, ainda querendo dissimular toda a timidez que sentia diante dele. Pensou em convidá-lo para entrar, mas provavelmente sua tia não aprovaria, por se tratar de um homem não conhecido por ela, e aparentemente bem mais velho que May.
Pode ir se arrumar, eu espero. - Como se tivesse adivinhado os pensamentos da garota, Dnieper riu com doçura, logo voltando a sorrir de seu modo gentil costumeiro. May corava ainda mais. Tinha mesmo deixado tão evidente o quanto desejava tomar um banho e se arrumar para se apresentar melhor para ele?
E-Eu não demoro! - Disse May decidida, entrando em sua residência em questão de segundos, ainda muito envergonhada. Mas não poderia ficar enrolando, afinal, não queria deixar Dnieper lá fora esperando por muito tempo. Primeiramente, foi para o quarto pegar uma blusa branca de botão, com finas linhas de um cinza claro na vertical, tinha algumas rendas nas mangas e um pequeno laço na parte de trás, um pouco abaixo do centro das costas. Para combinar, May escolhia uma saia preta sem detalhes, que ia até os seus joelhos. Tomou o banho em minutos, lavando os cabelos de modo apressado. Quando saiu debaixo do chuveiro, já pegou a toalha para tirar o excesso de umidade do próprio corpo.
Em seguida, chegando eu seu quarto, perfumou-se e colocou a roupa, penteando os cabelos depois. Por fim, fazia uma maquiagem bem sutil, passando apenas um blush avermelhado sobre as bochechas e um batom rosado nos lábios. Saindo de seu quarto, May já corria de volta para o jardim, ao encontro de Dnieper.
Me desculpe, eu demorei, não foi? - A pergunta dela vinha em um tom receoso, achando que Dnieper já estivesse aborrecido por ter esperado tanto. A jovem pegou a chave, abrindo o portão, logo se colocando para fora também, ao lado do homem. - Deve ter sido tedioso...
De modo algum. - As palavras de Ukraynn soavam sinceras, mantendo aquele típico sorriso por entre os lábios. - Além disso, não foi tedioso. Pude ficar aqui admirando o seu jardim.
As bochechas da garota ficavam ainda mais avermelhadas. Ele havia realmente gostado de seu jardim? Mas ainda não havia germinado uma única flor sequer... - O-obrigada. - Era tudo que May conseguia dizer, abaixando o olhar para o chão enquanto sorria feliz. Um breve silêncio então se fez entre eles, tempo o suficiente para May se recompor, tornando a erguer o rosto para começar um novo assunto. - Dnie, o que você...
Será que eu poderia lhe pedir aquele favor?
May pretendia perguntar o que Dnieper havia feito naquela última semana, mas sendo interrompida pelo mais velho, que agora mantinha uma expressão de inocencia, May não pode prosseguir com o próprio questionamento sem antes responder o dele que, aliás, parecia bem mais importante. - Claro, eu...
May, venha me ajudar a preparar o almoço. - Era sua tia quem agora interrompia, aparecendo através da janela da casa, enxugando um prato.
Não posso ir depois, tia? Estou conversando com um amigo. - Pedia a jovem por entre um marcante choramingo.
Amigo? - A tia deu um sarcástico riso, saindo da janela. - Venha logo.
Aquilo de fato era uma ordem, para a infelicidade de May. A menina olhou para Dnieper com tristeza, pois o tinha feito esperar tanto para depois ter que dispensá-lo.
Se puder sair comigo esta noite, há um lugar que eu gostaria muito de levá-la. - O moreno realmente não parecia aborrecido com a situação, o que trouxe um grande alívio para May. Ela então voltou a sorrir, confirmando ao pedido dele por meio de um aceno positivo com a cabeça, sem muito refletir a respeito.
Sim, eu vou.
Ótimo, passarei aqui por volta das 22:00hs, para buscá-la. - Informou Ukraynn de um modo aparentemente animado, afastando-se de May em alguns passos para trás, agora em despedida. - Então, até mais tarde.
Até. - May dava um aceno para ele, abrindo novamente o portão de sua casa para entrar. Estava feliz, já que finalmente poderia retribuir um favor a Dnieper. Mas o que será que ele viria a lhe pedir? May se sentia muito curiosa para descobrir. Após ver Dnieper dobrar a esquina, a garota trancou o portão, entrando novamente em sua residência, indo ajudar a tia com o almoço, conforme ela havia pedido.
Ao entrar na cozinha, a menina se dirigiu à tutora com um olhar receoso, imaginando que levaria uma bronca por estar conversando com um homem ainda desconhecido pela família, mesmo que para May, Dnieper não fosse mais um estranho. - Tia, ele é só um amigo... - Tentava iniciar uma justificativa, bastante acanhada.
De quem você está falando? - A tia arqueava uma das sobrancelhas para cima, como se não compreendesse as palavras da sobrinha.
Do homem com quem eu estava conversando lá fora, quando a senhora me chamou... - Explicou May, estranhando bastante a reação da tia.
Que homem May? Não havia ninguém com você lá fora.
Após aquelas palavras, nada mais foi dito entre as duas durante todo o preparo do almoço. Como sua tia não havia visto Dnieper? Aquilo realmente não fazia o menor sentido, embora não fosse a primeira vez que algo semelhante acontecia. No velório de sua avó, a tia de May não ouvira a canção de Dnieper, assim como as enfermeiras do hospital também pareceram ignorá-lo, além de chamá-lo de “assombração”.
Não deixou de pensar naquilo, mesmo após cortar todos os legumes, a pedido de sua tutora. Nenhuma hipótese que lhe vinha em mente parecia fazer grande sentido. Enfim, com o almoço pronto, May e sua tia iniciaram a refeição, passando a conversar sobre assuntos variados, mesmo que por vezes os pensamentos da menina vagassem em direção ao encontro que teria à noite.
Aliás, à noite? Um encontro com um homem às 22:00hs? Sua tia jamais deixaria. Ficou pálida ao lembrar deste detalhe, engasgando-se com o suco. Terminara o seu almoço o mais rápido possível, pedindo licença ao se retirar da mesa, correndo para o próprio quarto, ainda atônita.
O que eu vou fazer? - Sentava-se na cama, ao se fechar no cômodo. Estava com um grande problema: como iria sair sem a permissão de sua tia? E pior, como fora marcar um encontro com Dnieper, sem antes receber tal permissão? Não iria conseguir encará-lo mais, já imaginando sua estupidez, indo contar para Dnieper que não poderia mais sair e a expressão decepcionado, ou talvez aborrecida, que ele faria. May havia lhe dito que retribuiria ao favor, mas depois das 22:00hs, não dava.
Sentiu seus olhos se encherem de lágrimas, com certeza após uma mancada como esta, Dnieper passaria a rejeitá-la. Mas... e se May fugisse de casa, do mesmo modo que fizera naquela outra vez, que achou que ainda estivesse sonhando? O rosto da garota ficou inteiramente vermelho, imaginando-se pular a janela do quarto, e depois o portão. Aquilo não era coisa de delinquente? E o que será que tia faria caso descobrisse?
A tarde avançou até a noite chegar. Às 21:00hs a tutora de May já havia ido dormir e cerca de meia hora depois, a adolescente já estava vestida para sair, encontrando-se emocionalmente muito nervosa. Veio por se arrumar com a luz de seu quarto apagada e em total silêncio, para não despertar qualquer desconfiança em sua tia, ou sequer acordá-la. Sobre sua cama, May colocava várias almofadas embaixo das cobertas, para imitar seu próprio corpo em repouso.
Com o relógio já próximo de marcar 22:00hs, a adrenalina de May lhe contaminou o sangue, fazendo-a tremer um pouco enquanto suas mãos abriam a janela: estava na hora de pulá-la. Sentindo um imenso frio na barriga, a menina fitou a rua. Para o alívio de May, Dnieper ainda não estava ali, já que seria constrangedor que ele a visse fugindo de casa como uma menina rebelde, além de que ela jamais conseguiria se explicar.
Hesitando durante mais alguns minutos, por fim tomou coragem, pulando a janela para o seu jardim. Vestia uma calça preta, um pouco apertada e sem detalhes, calçando uma bota de mesma coloração e um salto pouco considerável. Usava uma jaqueta de um rosa claro e, por baixo desta, uma blusa branca com estampa de um fofo gatinho, queria contradizer seu ato delinquente ao menos com um visual mais meigo. Seus cabelos eram divididos por duas fitas vermelhas, cada uma sobre cada lado de sua cabeça e para a maquiagem, escolheu uma sombra rosada, em contraste com o blush rubro e o batom amarronzado.
Pulava agora o portão, usando o muro do vizinho para se esconder, caso sua tia olhasse a rua pela janela. Logo Dnieper também chegava, mesmo que o horário do encontro ainda não tivesse sido alcançado. Ambos se cumprimentaram com um “Boa noite”, enquanto May tentava disfarçar todo o seu nervosismo.
Podemos ir? - Perguntou Ukraynn, agora se colocando ao lado da mais jovem, esta que acenava com a cabeça de maneira positiva e assim começaram a caminhar.
A menina o seguia em alguns passos atrás, sem nada conseguir dizer, envergonhada na presença do mais velho, embora tivesse passado o dia todo cogitando assuntos que pudessem conversar. Em um determinado momento, May erguia os olhos para o rapaz, vendo-o de costas, e mesmo que não pudesse ver o rosto dele, tinha certeza de que Dnieper estava sorrindo.
Embora a timidez, por que May se sentia tão bem quando estava perto dele? Mesmo que nada soubesse sobre Dnieper, além de seu nome, que era um viajante e... May desviou com o olhar para um dos pulsos do mais alto, coberto com a manga de sua veste. O que seria aquela cicatriz? Parecia um corte profundo... Teria Dnieper feito aquilo em si mesmo? Tornando a abaixar o rosto, sentiu um sentimento de tristeza lhe invadir o peito, afinal, temia em confirmar aquela suspeita, mas a garota jamais teria coragem de lhe perguntar sobre aquilo.
Chegamos. - May esbarrou em Dnieper, já que ele havia repentinamente parado de caminhar. As bochechas da menina esquentaram, mesmo que ela logo desviasse o olhar para o local onde agora se encontravam.
A menina ficou perplexa, sem conseguir se pronunciar. Em um primeiro momento, seu coração pulsou mais forte, e entre constantes gaguejos, tentou perguntar: - Dnie... o que fazemos aqui...? - Ela olhava para o homem, sem entender. Estavam diante da residência da avó de May.


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